Eleição local turca vira referendo para premiê

Em meio a escândalos de corrupção, Erdogan enfrenta teste nas urnas hoje

ISTAMBUL, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h06

Enquanto o ônibus da campanha transitava pelas ruas de Istambul, a paisagem misturava guindastes de construção, novos shopping centers, outdoor de lojas luxuosas - todos sinais de uma cidade mais populosa do que alguns países europeus, intensamente remodelada pelo governo islamista do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan.

Dentro do ônibus estava o homem que quer ser o próximo prefeito, um candidato secular chamado Mustafá Sarigui. Ele é a maior esperança entre os adversários de Erdogan, que veem a disputa eleitoral para prefeito de hoje como o primeiro passo para afrouxar o controle que o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP, na sigla em turco), de Erdogan, tem sobre a política do país.

No ônibus estavam também alguns velhos amigos de Sarigui, cantando alguma canção da campanha. A ausência gritante, dada a importância da disputa da prefeitura, era a de qualquer membro da mídia local. Eles foram intimidados por um premiê que, numa de muitas conversas telefônicas que pararam na mídia, em meio a um crescente escândalo de corrupção, é ouvido insistindo para um executivo de noticiário local ignorar a campanha de Sarigui.

"A mídia foi afugentada deste ônibus", disse Sarigui numa entrevista. "Se eles viessem neste ônibus, seriam demitidos." A falta de cobertura, disse ele, "mostra o quanto o primeiro-ministro nos teme".

Normalmente, eleições locais na Turquia são assuntos menores - sobre preocupações paroquiais. Mas estes não são tempos normais na Turquia. O escândalo de corrupção e as manifestações de rua colocaram em risco o regime de Erdogan - no poder há mais de uma década - e em polvorosa a política turca.

O escândalo expôs uma divisão entre Erdogan e seu antigo aliado, o pregador islâmico Fetullah Gulen, cujos seguidores ocupam postos no Judiciário e na polícia e estariam por trás da investigação de corrupção. Gulen vive em exílio autoimposto na Pensilvânia (EUA) e seus milhões de seguidores na Turquia provavelmente votarão em candidatos de oposição hoje. Entre eles, Sarigui em Istambul.

Gulen negou que seus seguidores estejam atacando o governo: "Nem meus amigos nem eu fizemos ou faremos parte de um plano ou conspiração contra os que nos governam". No entanto, ele não deixou dúvidas de que seus seguidores haviam retirado o apoio do AKP: "O poder consolidado nas mãos da elite do partido governante é sem precedente na história turca".

As eleições municipais são vistas como um referendo sobre o mandato de Erdogan. Serão também um teste no momento em que ele luta para sobreviver ao escândalo de corrupção, às medidas autoritárias, incluindo expurgos na polícia e no Judiciário, repressão à imprensa e restrições no acesso a Twitter e YouTube, e uma nova lei que confere ao governo maior controle sobre os tribunais.

O resultado das eleições poderá determinar o futuro político de Erdogan. Apesar de muitos analistas e dados de pesquisas de opinião indicarem que o AKP vencerá por maioria simples nacionalmente, a porcentagem é o mais importante.

Qualquer número substancialmente inferior a 40% - aproximadamente o que o partido obteve nas últimas eleições locais em 2009 - seria considerado fraqueza. Os efeitos poderiam intensificar a insatisfação com Erdogan dentro do partido, e poderiam, em última instância, levar a sua saída da política.

Um resultado expressivo, contudo, poderia encorajar Erdogan a buscar a presidência numa eleição ainda esse ano ou a tentar alterar as regras de limitação de mandatos de seu partido e concorrer a um quarto mandato para primeiro-ministro.

Erdogan não estará em nenhuma disputa direta hoje, mas fez campanha como se estivesse. Ele cruzou o país nas últimas semanas e fez vários comícios nos quais ressaltou o quanto a política turca - mesmo quando se trata de municipalidades locais - está centrada em sua personalidade. / NYT

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