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Eleição louca na França

Direita tradicional corre sério risco de ficar fora do segundo turno diante de escândalo

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2017 | 05h00

A campanha para as eleições presidenciais francesas de abril enlouqueceu. Pouco depois do meio-dia de ontem, o candidato da direita clássica (o partido Republicanos), François Fillon, convocou a televisão para declarar: “É um assassinato político.”

Deus meu, um assassinato? Quem é o assassinado? É o próprio Fillon, ex-primeiro-ministro de François Sarkozy, modelo de homem político com sua aura de escrivão de província e de grande burguês irrepreensível, frequentador assíduo da missa de domingo.

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E o assassino, quem é? Basicamente, a Justiça francesa, que convocou Fillon para ser ouvido no dia 15, talvez para uma eventual investigação. Na verdade, há mais de um assassino. Há um bando deles, que obedecem a um personagem jamais citado, o qual manobra a Justiça e obriga os juízes a perseguirem o pobre François Fillon. Esse personagem diabólico pode ser o atual presidente, François Hollande, em pessoa, ou um executor despachado pelo Palácio do Eliseu para impedir Fillon de ser o próximo presidente.

Como se vislumbra um assassinato tão intrincado quanto uma trama de Agatha Christie, vamos retroceder um pouco. Quando começou a campanha eleitoral havia um favorito absoluto, François Fillon. Ele tinha um caminho florido pela frente, uma vez que os socialistas, demolidos pelos cinco anos calamitosos da presidência de Hollande, estavam fora do jogo.

Fillon seria o próximo presidente. Tinha o perfil para o cargo e uma vantagem suplementar: nesse mundo tão corrompido, pérfido e impuro, era a própria imagem da retidão, da honestidade, do escrúpulo, da honra.

Até que, um mês atrás, o Canard Enchaîné, brilhante jornal satírico, provou, com argumentos irrefutáveis, que esse diamante não era tão puro. O irrepreensível Fillon conseguira encaixar a mulher, a gentil, a doce, a resignada Penelope, num emprego fantasma na Assembleia Nacional - emprego, aliás, muito bem remunerado.

Então, tudo desabou. Fillon se escudou em sua honra. Aos inimigos que o forçavam a renunciar à candidatura, respondeu que prosseguiria, pois era inocente. Segundo ele, esse emprego fictício de Penelope não passava de fofoca de mau jornalista. Portanto, não se ajoelharia. Só renunciaria se a Justiça o investigasse.

Frase imprudente, da qual hoje Fillon deve estar se lamentando. Pois é precisamente a Justiça que o convoca para ser ouvido dia 15 e, em seguida, talvez investigado. Por isso, Paris entrou em ebulição. Durante toda a manhã, Fillon consultou seu entourage e, por volta de 13 horas, anunciou, entre solene e furioso, que mesmo que seja investigado formalmente, disputará.

Assim, o irrepreensível Fillon não se contentou em dar um emprego fantasma a Penelope. Ei-lo cometendo perjúrio: renegou publicamente a promessa que fez há três semanas, de renunciar à candidatura caso fosse indiciado.

Para justificar tais delírios, o candidato ataca. E começa atacando essa Justiça que teve a indelicadeza de perseguir cruelmente alguém como ele. Toda a França ouviu ontem o homem que postula a presidência, ou seja, a primeira magistratura do país, insultar os juízes, falar em caçada humana, em Justiça parcial etc., para concluir com essa frase extraordinária: “É um assassinato político.”

François Fillon parte para o tudo ou nada. Já após as revelações do Canard Enchaîné seu “caminho de rosas” virou caminho de espinhos. Ele não conseguia fazer um comício sem que desencadeasse um panelaço e ouvisse torrentes de insultos. Perdeu logo grande parte de seus seguidores: sua imagem estava manchada. A partir daí, só aparecia em terceiro lugar nas pesquisas, bem atrás de Marine Le Pen e atrás de Emmanuel Macron - que, dois anos, atrás ninguém conhecia. Segundo as pesquisas mais recentes, Fillon não chegará nem ao segundo turno.

Fillon despreza hoje os inimigos políticos e os juízes para deixar seu destino “nas mãos do povo”, como proclama. Resta saber se o povo vai ouvir sua longa queixa e seu prolongado furor para aderir em massa a ele e conduzi-lo, apesar de tudo, ao Palácio do Eliseu. Como responder a essa questão?

Se essa derradeira manobra de Fillon fracassar e ele se vir fora do páreo, a direita francesa, que nunca foi tão forte quanto hoje, não estará presente ao grande encontro que a França se proporciona a cada cinco anos para escolher o homem que exercerá o poder supremo. E o resultado fatal da obstinação e amargor de um só homem será uma França que de repente se vê hemiplégica.

A menos que ocorra um novo lance teatral. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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