'Eleição mostra que a França está em negação', diz economista

Para especialista, propostas econômicas de Hollande neutralizaram preferência do mercado por Sarkozy

Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2012 | 03h05

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, e François Hollande, líder do Partido Socialista (PS), os dois favoritos às eleições presidenciais, promoveram ontem, em Paris, seus dois maiores comícios de campanha, a sete dias do primeiro turno. Segundo as estimativas dos dois partidos, mais de 200 mil pessoas - 100 mil em cada - participaram das reuniões promovidas na Praça da Concórdia e no Castelo de Vincennes. Hollande voltou a pedir a mobilização contra o atual chefe de Estado.

Às vésperas do primeiro turno e em dificuldades nas pesquisas, Sarkozy voltou a lançar mão da crise financeira para atacar Hollande. Segundo ele, caso o candidato do PS vença as eleições a França enfrentará a fúria dos mercados financeiros. O tema levantou a polêmica: existe de fato o risco de um ataque especulativo à França, o que destruiria o euro e ameaçaria a União Europeia?

O Estado questionou Nicolas Véron, economista francês e observador político do Instituto Bruegel, de Bruxelas, sobre o assunto. Para ele, o projeto político socialista não agrada, mas o que assusta os investidores é a falta de projetos claros de Hollande e Sarkozy. A seguir, trechos da entrevista.

Estado: Qual é o risco real de que um ataque especulativo aconteça?

Nicolas Véron: Sarkozy tem razão ao dizer que os mercados podem se voltar contra a França, mas não pelas razões que ele alega. A eleição não é um fator decisivo para que esse ataque especulativo possa ocorrer eventualmente nos próximos meses. A eleição tem um efeito neutro, basicamente porque nenhum dos dois candidatos traz as respostas que os mercados esperam para a crise na Europa.

Estado: Analistas dizem que a eleição de 2012 mostra o quanto a França está 'em negação' sobre seus problemas. O senhor concorda?

Nicolas Véron: A mensagem que The Economist passou há duas semanas, de que a França está em negação quanto a seus principais problemas, é correta. Eu compartilho da opinião. Não é apenas uma questão de candidaturas. A opinião pública do país não aceitou que será preciso mudar seu modelo social, econômico, seu lugar na Europa, a relação com a Alemanha, a arquitetura orçamentária e financeira da União Europeia. A posição da França é muito ambígua sobre todos esses temas.

Estado: Então os mercados já 'anteciparam' o resultado das eleições?

Nicolas Véron: Os mercados têm por papel antecipar os fatos, porque é assim que se faz dinheiro. Desse ponto de vista, o que pode fazer algo mudar no curto termo é haver surpresas de vulto na eleição. O aumento das intenções de voto em Jean-Luc Mélenchon, candidato da extrema esquerda, por exemplo, não é um fator positivo para os mercados, pois indica que ele tende a ter um peso político num governo Hollande. Mas não haverá um reação intempestiva.

Estado: Semana passada Sarkozy criticou o Financial Times, que elogiou Hollande por defender o crescimento ao lado da austeridade.

Nicolas Véron: Muitos investidores gostam do discurso de Hollande. É um dos fatores pelos quais ele conseguiu neutralizar a preferência natural que poderia haver em torno da candidatura de Sarkozy.

Tudo o que sabemos sobre:
Eleições na FrançaSarkozyHollande

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.