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Propaganda dos principais candidatos na eleição parlamentar da Alemanha em Avenida de Berlim; partido terá um novo chanceler pela primeira vez em 16 anos. EFE/EPA/FILIP SINGER

Eleição na Alemanha: entenda o que está em jogo e o que pode acontecer

Eleitores alemães decidem próximo chanceler do país nas primeiras eleições desde 2005 que não terão Angela Merkel entre os candidatos

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2021 | 10h00
Atualizado 26 de setembro de 2021 | 16h19

Dezesseis anos depois, a Alemanha terá um novo chanceler. Mais de 60 milhões de eleitores estavam aptos a comparecer às urnas neste domingo, 26, para a votação que define a composição do Bundestag, o Parlamento do país - a primeira, desde 2005, que não teve Angela Merkel como candidata.

Além de definir o novo líder da maior economia da Europa pelos próximos quatro anos, as eleições parlamentares alemãs também chamam a atenção do mundo, que observa a direção política que o país vai seguir.

Em uma das corridas eleitorais mais abertas em décadas, três partidos despontam como favoritos: A União Democrática-Cristã (CDU), partido de Merkel, o Partido Social-Democrata (SDP) e o Partido Verde.

Independente de quem seja, o novo chanceler vai assumir com o objetivo de liderar não apenas a Alemanha, mas também a União Europeia, em um momento em que a pandemia de covid-19 representa um grave problema de saúde e econômico, e as relações com atores como EUA, Rússia e China apresentam desafios específicos.

Veja o que você precisa saber sobre as eleições na Alemanha

Quem são os candidatos a chanceler na Alemanha?

Ao contrário do Brasil, onde o eleitor escolhe o chefe do Executivo pelo candidato, os alemães não votam diretamente no nome do próximo chanceler, e sim no partido. No entanto, as principais legendas envolvidas na disputa já anunciaram seus aspirantes ao cargo.

União Democrata-Cristã (UDC): O partido de Angela Merkel definiu que Armin Laschet, de 60 anos, é o responsável por tentar manter a sigla no poder. Governador da Renânia do Norte-Westfália, Estado mais populoso do país, Laschet é uma liderança dentro do partido e venceu uma disputa interna com a liderança da União Social-Cristã (CSU) - espécie de sigla irmã do CDU - para ser indicado como candidato único da coalizão. Laschet e os conservadores iniciaram a corrida eleitoral na liderança, mas sua candidatura foi marcada por alguns incidentes que o fizeram perder popularidade, incluindo uma gafe, quando foi pego sorrindo durante uma cerimônia em memória das vítimas das enchentes mortais no país em julho.

Partido Social-Democrata (SPD): Segundo partido mais popular da Alemanha, o SPD indicou como candidato a chanceler o atual vice-chanceler de Angela Merkel e ministro das Finanças, Olaf Scholz, de 63 anos. Considerado o gestor mais experiente entre os candidatos na disputa, Scholz viu sua popularidade subir nas últimas semanas, quando o SPD ultrapassou os conservadores nas pesquisas eleitorais. Considerado mais técnico que carismático, o candidato vem se aproveitando de suas experiências em governos anteriores para passar uma imagem de estabilidade e segurança.

Partido Verde: Co-líder do Partido Verde desde 2018, Annalena Baerbock, de 40 anos, é a mais jovem e a única mulher entre os principais concorrentes na disputa pelo poder na Alemanha. Considerada mais pragmática que muitos de seus colegas de partido - cuja base vem de movimentos estudantis e pelo meio ambiente no século passado. Depois de um começo forte nas pesquisas de intenção de voto, Baerbock sofreu com ataques dos rivais, que questionaram sua falta de experiência no governo. Ela também se viu envolvida em denúncias de plágio em seu currículo.

Qual a chance dos outros partidos?

Dezenas de partidos estão concorrendo nas eleições alemãs, mas a maioria deles não deve superar a cláusula de barreira de 5% dos votos, exigida para conquistar representação no Bundestag. Algumas legendas, no entanto, devem alcançar um número considerável de cadeiras no Parlamento, o que deve permitir que exerçam um papel importante na escolha do próximo chanceler - apesar de serem baixas as chances do próximo líder do país sair de uma delas.

Pesquisas eleitorais apontam que nenhuma das legendas deve conquistar uma quantidade de assentos majoritária no Parlamento, o que significa que a definição do novo chanceler passa pela capacidade da sigla mais votada em formar um governo de coalizão em torno de um nome escolhido.

O Partido Democrático Liberal (FDP), atualmente o quarto com mais cadeiras no Parlamento, aparece como um parceiro prioritário, com seu apoio sendo disputado por SPD e CDU. A sigla pode ser decisiva para a escolha do próximo chanceler.

O Partido Social-Democrata também não descartou uma aliança com o Die Linke (A Esquerda), sigla que ainda sofre com o estigma de ter relações com figuras remanescentes do Partido Comunista da antiga Alemanha Oriental. A formação de um futuro governo também apresentaria questões problemáticas: uma das bandeiras de política externa do Die Linke, por exemplo, é dissolver a Otan.

No campo da extrema-direita, o Alternativa para a Alemanha (AfD), sigla que há quatro anos conquistou a posição de terceiro partido com mais representação no parlamento, não conseguiu usar suas bandeiras anti-imigração como propulsor nas eleições deste ano, até o momento, de acordo com as pesquisas. As principais forças políticas do país descartaram qualquer possibilidade de alinhamento ao AfD.

Como funcionam as eleições na Alemanha?

As eleições na Alemanha são notoriamente complicadas, mesclando elementos de votação direta - no sistema conhecido como First Past The Post, utilizado no Reino Unido e em ex-colônias britânicas - e de votação proporcional. Isso significa que os mais de 60 milhões de eleitores alemães votam com duas cédulas distintas: uma delas para o candidato de sua preferência, e a segunda para o partido - e esta é a que define a representação dos partidos no Bundestag.

Uma complicação deste processo são os "assentos sobressalentes", que ocorre quando um partido ganha mais cadeiras eleitas na votação direta do que sua parcela na votação proporcional. Neste caso, outros partidos podem adicionar mais assentos no Parlamento para ajustar as proporções. É por isso que o atual Bundestag, que deveria ter 598 membros, tem 709.

Quando Angela Merkel deixa o cargo?

Merkel não deixará o cargo imediatamente. Até um novo governo ser formado - um processo que pode levar de semanas a meses -, a chanceler permanece no cargo, e continua a governar o país. Após as eleições de 2017, por exemplo, foram necessários cinco meses para que o novo governo fosse empossado.

Apenas uma vez um partido conquistou sozinho maioria para definir o chanceler na história da Alemanha no pós-guerra. Com uma política extremamente fragmentada, nenhum partido sai da eleição com uma posição sequer próxima de conquistar o Parlamento, exigindo negociações entre mais de dois partidos muitas vezes.

Merkel entregou a liderança do seu partido em dezembro de 2018, mas segue como chefe do Executivo até depois da eleição. A entrega do partido a deixou em uma posição de dificuldade para aprovar uma série de medidas no Parlamento, especialmente no segundo ano de pandemia. Ela prometeu ficar fora da campanha eleitoral, mas fez uma série de declarações demonstrando apoio ao candidato de seu partido, Armin Laschet.

Quais os cenários para a Alemanha após a eleição?

O novo chanceler da Alemanha assumirá o cargo sob pressões internas, principalmente no que diz respeito à pandemia da covid-19 e do restabelecimento da economia. A agenda ambiental no tocante às mudanças climáticas, bem como a cobrança por novas políticas ecológicas e por uma transformação verde na indústria ganharam caráter de urgência após as enchentes e inundações de julho. Quem quer que chegue ao poder, também terá que decidir sobre as políticas adotadas no período Merkel e sobre o quanto se deve colocar o país em um novo rumo.

Na frente da política externa, tanto os conservadores da União Democrata-Cristã quanto o Partido Social-Democrata buscariam, em grande parte, a continuidade do comércio da Alemanha com a China e o atual posicionamento quanto a Rússia. Isso inclui o gasoduto Nord Stream 2 que foi concluído no início de setembro. As autoridades alemãs agora têm quatro meses para aprovar o gasoduto antes que ele comece a transportar gás natural da Rússia diretamente para a Alemanha, contornando a Ucrânia e outros países do Leste Europeu. Os Verdes são contra essa operação.

Todos os partidos políticos - exceto o AfD - concordam que a Alemanha pertence firmemente à União Europeia. Os Verdes estão pressionando por um renascimento mais ambicioso do projeto europeu, com ações mais duras contra a Hungria e outros membros que não defendem os princípios democráticos.

Durante anos, a abordagem da Alemanha para a China tem sido "mudança por meio do comércio", mas a repressão da China a dissidentes internos e as demonstrações de força do país no exterior colocaram essa estratégia em questão. Os Estados Unidos pressionaram aliados relutantes a adotar uma postura mais dura com a China, mas a Alemanha sob o comando de Merkel relutou em cumprir o prometido, e isso não deve mudar sob um governo liderado por seu partido ou pelos social-democratas.

Por que as eleições na Alemanha são importantes?

No âmbito da União Europeia, a Alemanha é constantemente vista como a líder de fato do bloco. O país tem, ao mesmo tempo, a maior população e a maior economia entre os integrantes do bloco, e é reconhecido como principal tomador de decisões e propositor de legislações, ao lado da França.

Sob a liderança de Merkel, que se tornou uma das líderes mais experientes dentre os chefes de governo dos 27 Estados-membros, essa influência cresceu ainda mais, mesmo com derrotas em questões centrais, como a falta de consenso sobre uma política para refugiados e impedir uma crise democrática na Hungria e na Polônia.

A chanceler também usou o peso do país como quarta maior economia do mundo e parte do Grupo dos Sete (G7) para impulsionar políticas climáticas globais e para pressionar por sanções à Rússia pela anexação da Crimeia. Seu sucessor herdará questões espinhosas de como lidar com uma China cada vez mais poderosa e a pressão de alguns países da União Europeia que estão prontos para restaurar o comércio com Moscou. O relacionamento central com os Estados Unidos está apenas começando a se firmar novamente após quatro anos desestabilizadores do governo Trump.

Durante os quatro mandatos de Merkel, a nação de 83 milhões passou por uma mudança geracional, tornando-se mais diversificada etnicamente, mas também envelhecendo consideravelmente - mais da metade de todos os eleitores elegíveis têm 50 anos ou mais. As normas sociais se tornaram mais liberais, com o direito ao casamento gay e uma opção de gênero não binária nos documentos oficiais. Mas um ressurgimento da extrema direita e um colapso do discurso político em nível local ameaçam a coesão do país./ W. POST e NYT

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Austeridade com futuro incerto e orçamento em risco: entenda o que está em jogo na eleição alemã

Na reta final do pleito, marcado para 26 de setembro, a questão da dívida pública é uma das frentes favoritas dos conservadores, ameaçados de derrota histórica, perante os social-democratas

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 15h00

A Alemanha de Angela Merkel teve que quebrar seus bloqueios orçamentários durante a crise de 2019, injetando bilhões de euros para apoiar empresas e salvar empregos, tornando a disciplina financeira um tema quente na campanha eleitoral deste ano, que tem os sociais-democratas do SPD na liderança, seguidos da União Democrata Cristã (CDU) — de Merkel — e dos Verdes.

Na reta final antes das eleições de 26 de setembro, a questão da dívida pública é uma das frentes favoritas dos conservadores da CDU-CSU, ameaçada de derrota histórica, perante os social-democratas. Mas temas como o enfrentamento às mudanças climáticas e o papel do país na União Europeia também estão em jogo.

Após 16 anos no cargo, Merkel prepara-se para deixar o cargo depois de quatro mandatos. A chanceler de 67 anos, que governa a principal economia europeia desde 2005, anunciou em outubro de 2018, quando a CDU sofreu um revés eleitoral na região de Hessen, que não voltaria a candidatar-se.

O atual será “o último”, diz Merkel, que também não quer seguir uma carreira nas instituições europeias, como especularam alguns meios de comunicação social. É a primeira vez desde 1949 que um chefe de governo em saída do cargo decide não se candidatar.

Eleita pela primeira vez a 22 de novembro de 2005, Merkel aproxima-se do recorde de longevidade do colega democrata-cristão Helmul Kohl, que serviu como chanceler durante mais de 16 anos (5.689 dias) entre 1982 e 1998, gerindo a reunificação do país.

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Ela já ultrapassou Konrad Adenauer, o chanceler do milagre econômico do pós-guerra, que governou a Alemanha Ocidental durante 14 anos. 

Transição e coalizão

Merkel não deixará o cargo na noite das eleições. A chanceler permanecerá nas funções até à nomeação de seu sucessor no parlamento alemão.

Este período de transição pode durar longas semanas ou meses, o tempo necessário para que os partidos formem uma maioria para formar um governo de coalizão.

Em 2005, a CDU e o SPD — os dois maiores partidos da Alemanha — levaram dois meses para formar o chamado grande governo de coalizão. 

Mas, após as eleições de setembro de 2017, as negociações arrastaram-se até fevereiro de 2018: a CDU tentou primeiro aliar-se aos Verdes e ao partido liberal FDP, mas acabou por ter de fazer um acordo com o SPD.

Adaptação do modelo econômico e industrial 

A Alemanha está no centro do debate, especialmente o futuro de sua poderosa indústria automotiva, que tem sido dizimada pelo declínio dos motores de combustão, que coloca em risco 800.000 empregos diretos gerados pelo setor.

A digitalização da administração também na agenda de todos os candidatos, num país que está “muito atrasado nesta matéria”, diz Paul Maurice, membro do Comitê de Estudos Franco-Alemão.

Papel alemão na Europa

Como principal potência econômica do bloco, a Alemanha desempenha um papel central na União Europeia.

Desde a crise financeira ao conflito ucraniano ou à questão da migração, a influência internacional alemã cresceu nos “anos Merkel”. 

O novo chefe de governo pode dar um novo ímpeto ou implementar uma gestão mais prudente, mas não com a ambição que caracterizou Merkel, salientam analistas.

O desenvolvimento do duo franco-alemão, a força motriz da UE, será acompanhado de perto, especialmente porque as eleições também se realizarão na França em abril de 2022.

“Esperamos que a Alemanha seja uma força de mudança ainda mais importante a nível europeu”, disse Maurice.

“Mudar regras orçamentárias” ou “reduzir o déficit público”

O resultado eleitoral é incerto, mas não há dúvida que será decisivo para o futuro do país. Friedrich Merz, encarregado de assuntos econômicos do candidato bávaro da CSU, Markus Soder, comparou o programa do SPD de Olaf Scholz, que se autoproclama o “chanceler da dívida”, com promessas de “cerveja grátis”, cuja conta ficará para os contribuintes.

Independentemente de quem saia vencedor na disputa, o futuro governo enfrentará uma "escolha difícil", avisa Patrick Artus, economista-chefe da Natixis. Pois precisará “mudar regras orçamentárias” que não são mais compatíveis com a realidade ou “reduzir drasticamente o déficit público”.

Na Alemanha, o orçamento equilibrado, consagrado na Constituição, sofreu uma revolução inimaginável antes do impacto da pandemia: um plano de ajuda econômica bilionário, sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, foi posto em prática para limitar os efeitos da recessão.

Em dois anos de crise sanitária, o país contraiu cerca de 370 bilhões de euros em novas dívidas, dos quais 240 bilhões em 2021, que passaram de 59,7% do PIB para quase 75% previstos para este ano.

Despesas "colossais" 

Embora uma parte dos europeus tenha regularmente exigido menos rigidez orçamentária dos alemães nos últimos anos, a ambição forçou Berlim a revogar o freio da dívida, uma regra escrita na Carta Magna desde 2009.

Em períodos normais, esta imposição proíbe o Executivo de tomar emprestado mais de 0,35% do seu PIB, exceto em “circunstâncias excepcionais” aprovadas pelo Parlamento.

No primeiro semestre de 2021, o déficit público ultrapassou os 80 milhões de euros — 4,7% do PIB —, novamente longe do objetivo do “déficit zero” escrupulosamente respeitado em 2014 e 2019.

Isso é apenas um hiato ou uma reviravolta duradoura para a economia líder da Europa?

A pressão já era forte, antes da pandemia, para que a Alemanha começasse a ceder e investir em infraestrutura.

Com a volta do crescimento econômico, a União Europeia corre o risco de se dividir novamente entre os defensores de um relaxamento das regras e os defensores de um rápido retorno à ortodoxia.

Mas a urgência de financiar o enfrentamento às mudanças climáticas e reforma digital não pressagia um rápido retorno à austeridade.

Para alcançar essas duas prioridades, a Alemanha terá que ”gastar somas colossais nos próximos anos”, reconheceu Merkel recentemente.

“Durante os próximos dez anos, serão necessários entre 40 e 50 bilhões de investimentos públicos por ano ou entre 1% e 1,5% do PIB”, disse Marcel Fraztscher, presidente do Instituto de negócios de Berlim.

Para resolver a equação orçamentária, “devemos rever fundamentalmente o freio da dívida (e caminhar) em direção a uma norma nacional de acordo com o padrão europeu”, que tolera um déficit de 3% da riqueza gerada pelo país, disse Fratzscher à AFP.

Conquistar a maioria de dois terços

No entanto, esta alteração deverá ser aprovada por maioria de dois terços no Parlamento, o que parece ser uma “missão impossível na próxima legislatura”, acrescenta o especialista.

“Os partidos no poder terão que encontrar outros meios para contornar o freio da dívida”, diz Fratzscher.

Os equilíbrios dentro da futura coalizão, que pode ter três forças políticas, serão decisivos.

Como sempre, a CDU-CSU continua a se apresentar como avalista da ortodoxia orçamentária.

Mas, “será impossível parar a dívida novamente sem aumentos massivos de impostos”, uma ideia que os conservadores descartaram, responde o economista.

Bem posicionados para entrar para formar um futuro governo, os verdes querem remover o freio da dívida para permitir um forte aumento nos gastos públicos e investir cerca de 50 bilhões por ano até 2030.

Scholz, ministro da Fazenda desde 2018, também está disposto a aumentar os gastos públicos, mas dentro dos limites permitidos pelo marco constitucional. /AFP

 

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No Parlamento alemão, Merkel defende candidato a sucessor em queda nas pesquisas

Chanceler faz balanço de sua trajetória de 16 anos à frente no poder da Alemanha em um discurso no Bundestag e adverte para a possibilidade de a esquerda ascender ao poder

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 11h26

BERLIM - A chanceler Angela Merkel fez um apelo aos alemães nesta terça-feira, 7, para que respaldem seu futuro sucessor, Armin Laschet, nas eleições nacionais deste mês, enquanto o bloco conservador ver acentuar sua queda nas pesquisas. Merkel fez um balanço de sua trajetória de 16 anos à frente no poder da Alemanha em um discurso no Bundestag, provavelmente o último antes das eleições, e advertiu para a possibilidade de a esquerda ascender ao poder. 

O discurso partidário incomum de Merkel, que até agora permaneceu à margem da campanha como convém, segundo ela, a um líder que está deixando o cargo, pareceu refletir a preocupação crescente com as perspectivas de derrota de seu bloco de centro-direita sob o aspirante Laschet. 

Pesquisas recentes mostram que a coalizão CDU/CSU está em segundo lugar, atrás dos social-democratas de centro-esquerda (SPD), que assumiram a liderança no mês passado graças à popularidade do vice-chanceler Olaf Scholtz, também ministro das Finanças. O partido ambientalista Verde, cuja líder Annalena Baerbock concorre pela primeira vez ao cargo de chanceler, está em terceiro lugar.

O cenário aponta para a possibilidade de diferentes coalizões de governo. À medida que a União Democrata-Cristã (CDU) fica para trás nas pesquisas, seus líderes alertam cada vez mais que Scholz e os Verdes formarão uma coalizão com o partido A Esquerda (Linke), que não gosta da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e se opõe a missões militares no exterior. Scholz não descartou essa possibilidade, mas claramente não é sua opção preferida.

Alertando para a chance de a Alemanha vir a ter um governo de esquerda, Merkel disse que Laschet lideraria uma administração que defende a estabilidade, a confiabilidade, a moderação e o meio-termo. "E é exatamente disso que a Alemanha precisa", disse. Mas a promessa de Laschet de firmeza está falhando em ecoar entre os eleitores preocupados com a mudança climática, a imigração e a pandemia de covid-19. 

Falando depois Merkel, Scholz disse ao Bundestag: "É necessário um novo começo, e espero, tenho certeza, de que será bem-sucedido". 

No domingo passado, em visita a uma das regiões do país devastadas pelas recentes inundações, Merkel já havia manifestado seu apoio "de coração" a Laschet. Ela deve participar do evendo de encerramento da campanha que acontecerá no dia 24 de setembro, em Munique./AP, REUTERS e EFE 

 

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Governo da Alemanha investiga ação de hackers russos

Berlim teme interferência da Rússia na eleição do dia 26, que determinará o sucessor da chanceler Angela Merkel

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 18h02

BERLIM - O Ministério Público Federal da Alemanha informou nesta sexta-feira, 10, que está investigando os responsáveis por uma série de tentativas de ataque de hackers contra deputados alemães, em meio a preocupações crescentes de que a Rússia está tentando interferir na eleição do dia 26.

A ação da promotoria ocorre depois que o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha informou, esta semana, que havia protestado junto à Rússia, reclamando que vários deputados estaduais e membros do Parlamento federal foram alvos de e-mails de phishing (roubo de informações online) e outras tentativas de obter senhas e informações pessoais.

Essas acusações levaram o MP a abrir uma investigação preliminar contra o que foi descrito como uma “potência estrangeira”. Os promotores não identificaram o país, mas citaram a declaração do Ministério das Relações Exteriores, deixando poucas dúvidas de que os esforços se concentraram na Rússia.

Em sua declaração, os promotores disseram que abriram uma investigação em conexão com a chamada “campanha Ghostwriter”, uma referência a uma campanha de hacking que a inteligência alemã diz que pode ser atribuída ao Estado russo e, especificamente, ao serviço de inteligência militar, conhecido como GRU.

Descobriu-se que a Rússia invadiu os sistemas de computador do Parlamento alemão em 2015 e, três anos depois, violou a principal rede de dados do governo alemão. A chanceler, Angela Merkel, protestou contra os dois ataques, mas seu governo não conseguiu encontrar uma resposta apropriada. A questão é agora especialmente sensível, ocorrendo semanas antes de os alemães irem às urnas para escolher um sucessor de Merkel, após os quase 16 anos no poder.

Moscou negou estar envolvida nas tentativas de ataque. “Apesar de nossos repetidos apelos por meio dos canais diplomáticos, nossos parceiros na Alemanha não forneceram nenhuma evidência do envolvimento da Rússia nesses ataques”, disse a porta-voz da chancelaria russa, Maria Zakharova.

Merkel não está concorrendo à reeleição e deixará o cargo depois que um novo governo for formado, o que significa que a eleição será crucial para determinar o futuro da Alemanha – e moldar seu relacionamento com a Rússia.

Dos três candidatos com maior probabilidade de substituir Merkel, Annalena Baerbock, dos Verdes, que prometeu assumir a posição mais dura contra Moscou, foi o alvo da campanha de desinformação mais agressiva.

Os outros dois candidatos – Armin Laschet, da União Democrata-Cristã (CDU), de Merkel, e Olaf Scholz, dos social-democratas (SPD), atualmente vice-chanceler de Merkel e ministro das Finanças – serviram em três dos quatro últimos governos e nenhum dos dois deve mudar a relação de Berlim com Moscou.

Merkel promulgou duras sanções econômicas contra a Rússia após a invasão da Ucrânia, em 2014, mas também manteve as linhas de comunicação abertas com Moscou. Os dois países têm laços econômicos importantes, incluindo mercado de energia, onde mais recentemente cooperaram na construção de um gasoduto de gás natural. / NYT

 

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A esquerda moderada se inspira em Angela Merkel para voltar ao poder na Alemanha

Olaf Scholz se tornou favorito ao governo da maior democracia europeia

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 15h00

BERLIM — Quando Olaf Scholz pediu aos seus companheiros social-democratas que o nominassem candidato a chanceler, alguns políticos de seu campo questionaram publicamente se o partido deveria se incomodar em encampar algum candidato.

O partido mais antigo da Alemanha não estava atrás somente dos conservadores da chanceler Angela Merkel, mas havia caído para o terceiro lugar, atrás também dos verdes, registrando humilhantes 14% nas pesquisas. Até junho, a mídia alemã definia a disputa pela sucessão de Merkel como uma corrida entre dois oponentes, os conservadores da chanceler e o ascendente Partido Verde.

Mas com a aproximação das eleições nacionais de 26 de setembro, Scholz e seu antes moribundo partido se tornaram inesperadamente os favoritos para liderar o governo da maior democracia europeia.

“É realmente emocionante ver a quantidade de cidadãos que confiam em mim para ser o próximo chanceler”, declarou recentemente um radiante Scholz a centenas de apoiadores durante um evento de campanha em Berlim, diante de uma tela gigante que proclamava: “Scholz vai dar conta”.

Dez meses depois de Joe Biden conquistar a presidência dos EUA para os democratas, existe uma chance real de a Alemanha ser liderada por um chanceler de centro-esquerda pela primeira vez em 16 anos. Desde o segundo mandato do ex-presidente Bill Clinton a Casa Branca e a chancelaria alemã não ficavam nas mãos de centro-esquerdistas ao mesmo tempo.

“O ambiente está simplesmente impressionante agora — quase não conseguimos acreditar”, afirmou Annika Klose, candidata social-democrata ao Parlamento que assistia à fala de Scholz. “Desde que entrei no partido, em 2011, os resultados das eleições foram cada vez piores.”

Não que os alemães tenham subitamente se voltado para a esquerda. Scholz, que foi ministro das Finanças de Merkel e vice-chanceler nos últimos quatro anos, é de muitas maneiras mais associado à coalizão liderada pelos conservadores do que com seu próprio partido. Dois anos atrás, ele perdeu a disputa pela liderança do partido para uma dupla esquerdista, que o atacou por seu centrismo moderado.

Mas Scholz conseguiu converter o que foi por muito tempo a maior responsabilidade de seu partido — cogovernar como sócio minoritário dos conservadores de Merkel — em seu principal trunfo: em uma disputa eleitoral sem candidato a reeleição, ele se projetou como candidato a reeleição — ou como o que há de mais próximo a Merkel.

“Os alemães são um povo pouco afeito a mudanças, e a saída de Angela Merkel já é basicamente mudança suficiente para eles”, afirmou Christiane Hoffmann, uma proeminente analista política e jornalista. “Eles são mais propensos a confiar em um candidato que promete a transição mais suave possível.”

Com 25% das intenções de voto nas pesquisas mais recentes, os social-democratas de Scholz ultrapassaram os verdes, que registram agora 17%, e os conservadores, que mal superam 20%. Mas analistas políticos apontam que essa vantagem dificilmente constituiria uma vitória convincente.

“Desde 1949, ninguém se tornou chanceler concentrando tão pouca confiança”, afirmou Manfred Güllner, diretor do instituto de pesquisas Forsa, referindo-se ao ano de fundação da República Federal da Alemanha, após a Segunda Guerra.

“Os eleitores alemães estão inquietos”, acrescentou Güllner. “Depois de 16 anos de chancelaria de Merkel, que proveu um certo senso de estabilidade, estamos em um ponto em que jamais estivemos.”

Durante a campanha, Scholz referiu-se com admiração à atual chanceler. Um astuto anúncio de TV de seu partido exibe a imagem dele diante de uma projeção de Merkel.

Scholz foi fotografado tocando as próprias mãos da mesma maneira que o “losango de Merkel” — emoldurando um diamante com os dedos — e usou a forma feminina em alemão da palavra chanceler em um pôster de campanha, para convencer os alemães que continuará o trabalho de Merkel mesmo sendo homem.

O simbolismo não é nada sutil, mas está funcionando — tão bem, na verdade, que a própria chanceler se sentiu compelida a reagir, mais recentemente durante o que pode ter sido seu último discurso no Bundestag.

Güllner, o especialista em pesquisas, afirmou que pelo menos parte do recente aumento de apoio aos social-democratas vem de eleitores de Merkel insatisfeitos com o candidato de seu partido, Armin Laschet, um governador conservador que se atrapalhou repetidamente durante a campanha.

“Não há um entusiasmo verdadeiro por Scholz na Alemanha”, afirmou Hoffmann. “Seu sucesso se deve principalmente à fraqueza dos demais candidatos.”

Ao contrário de seus rivais, Scholz não deu nenhum passo em falso na campanha. Ele assume poucos riscos e é equilibrado ao ponto de os alemães o apelidarem de “Scholz-o-mat” — ou “máquina Scholz”.

Apegar-se à mensagem de estabilidade também dificultou para seus oponentes atacá-lo por deslizes passados, apesar de alguns deles terem tentado. Como prefeito de Hamburgo, ele se reuniu a portas fechadas com um banqueiro que buscava um adiamento no pagamento de 1 milhão de euros em impostos, um episódio que se tornou parte de uma investigação pública, e foi durante o período que atuou como ministro das Finanças que a fraudulenta firma de fintech alemã Wirecard implodiu.

Mas isso mal veio à tona durante a campanha. E a popularidade de Scholz só fez aumentar.

Scholz era socialista nos anos 1970 e gradualmente amadureceu para uma posição centrista pós-ideológica. Primeiramente defendendo trabalhadores como advogado laboral, depois defendendo dolorosas reformas no mercado de trabalho e agora cogovernando ao lado de uma chanceler conservadora, sua jornada acompanha de muitas maneiras a de seu partido.

Em seus 158 anos de história, os social-democratas têm exercido uma força política formidável, lutando por direitos de trabalhadores, combatendo o fascismo e ajudando a moldar o Estado de bem-estar social no pós-guerra. Mas após três mandatos como sócio minoritário de Merkel, o eleitorado do partido tinha diminuído pela metade.

Gerhard Schröder, o último social-democrata a se eleger chanceler, conquistou 39% dos votos em 2002. Em 2005, quando os social-democratas entraram na primeira coalizão com Merkel, eles ainda detinham 34% do eleitorado; em 2017, essa fatia tinha diminuído para 20%.

Mas mesmo com seu partido afundado no seu ponto mais baixo desde o pós-guerra, Scholz se tornou um dos políticos mais populares da Alemanha.

Ajudou o fato de, enquanto ministro das Finanças, ele ter comandado os gastos do governo durante a pandemia. Após anos de apego religioso às elogiadas regras de orçamento equilibrado, ele prometeu uma “explosão” de investimento para ajudar as empresas a sobreviver à pandemia, destinando inicialmente 353 bilhões de euros, ou cerca de US$ 417 bilhões, a fundos de recuperação e assistência.

“Scholz tem carisma zero, mas irradia estabilidade — e abriu a torneira durante a crise econômica”, afirmou Andrea Römmele, diretora da Escola Hertie de Governança, de Berlim.

Se os números das atuais pesquisas se mantiverem, os social-democratas terminarão a disputa eleitoral em primeiro lugar, mas precisarão de outros dois partidos para formar a coalizão de governo. Um deles quase certamente seria o Verde. Quanto ao outro, Scholz praticamente já descartou o Partido de Esquerda, de extrema esquerda, e lhe restaria escolher entre os conservadores ou — mais provavelmente — os democratas liberais, favoráveis ao livre mercado.

Scholz deu algumas pistas a respeito de como seu governo seria diferente, mas as mudanças são relativamente modestas e poderão ser ainda mais diluídas por seus colegas de coalizão, preveem analistas.

Ele tentou cortejar seu núcleo partidário de eleitores da classe trabalhadora usando o lema “Respeito" como um dos principais slogans. Em seu discurso de campanha, ele enfatiza que pessoas ganhando o mesmo que ele não deveriam obter isenções fiscais. Em vez disso, ele quer diminuir os impostos das classes média e baixa e elevar modestamente a tributação de quem ganha mais de 100 mil euros ao ano.

Ele promete aumentar o salário mínimo para 12 euros a hora (em vez dos atuais 9,60 euros), construir 400 mil habitações por ano (em vez das aproximadamente 300 mil em 2020) e aprovar uma série de medidas em defesa do meio ambiente, apesar de não pretender livrar o país do carvão antes de 2038.

“Não esperaríamos que mudanças na tributação e no investimento se tornassem um grande estímulo fiscal adicional”, escreveu Holger Schmieding, economista chefe do Berenberg Bank, em uma recente análise a respeito do que a chancelaria de Scholz poderia significar para os mercados financeiros. Em uma coalizão com os verdes e os liberais, previu ele, “o pragmático Scholz provavelmente controlaria as inclinações esquerdistas” de sua própria base partidária.

Somente os conservadores, desesperadamente sob pressão, têm argumentado o oposto.

Mesmo Merkel, que afirmou querer ficar de fora da disputa, recentemente se sentiu compelida a se distanciar das desavergonhadas tentativas de Scholz de se mostrar como um clone dela.

Há “uma enorme diferença para o futuro da Alemanha entre ele e eu”, afirmou Merkel. /Tradução de Augusto Calil

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Tentando conquistar a Alemanha, candidata do Partido Verde diz que resolverá crises de Merkel

Annalena Baerbock entrou no cenário político nacional há apenas três anos e pretende sacudir o status quo

Katrin Bennhold, The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 20h00

BOCHUM, Alemanha - A mulher que quer substituir a chanceler Angela Merkel subiu ao palco vestindo tênis e jaqueta de couro. Atrás dela, o esqueleto de aço de uma torre de mineração de carvão fora de uso. Na sua frente, um mar de rostos em expectativa. Para abrir o evento, um cara com topete de Elvis e envolto numa bandeira do arco-íris cantou Imagine.

Annalena Baerbock, a candidata do Partido Verde, está pedindo aos alemães que façam exatamente isso. Que imaginem um país movido inteiramente a energias renováveis. Que imaginem uma mulher de 40 anos, relativamente desconhecida e pouco experiente, no cargo de chanceler. Que imaginem seu partido, que jamais governou a Alemanha, liderando o governo após as eleições do mês que vem.

“Esta eleição não vai definir apenas o que acontecerá nos próximos quatro anos, vai definir o nosso futuro”, disse Baerbock à multidão, levando seu discurso a uma tradicional região carvoeira que fechou sua última mina três anos atrás.

“Precisamos mudar para preservar o que amamos e estimamos”, disse ela no território não necessariamente hostil, mas cético. “A mudança exige coragem. E a mudança está na eleição de 26 de setembro”.

Resta saber quantas mudanças os alemães realmente querem após 16 anos de Merkel. A chanceler se tornou indispensável ao atravessar inúmeras crises – financeiras, migratórias, populistas e pandêmicas – e solidificar a liderança da Alemanha no continente. Outros candidatos estão competindo para ver quem consegue ser mais parecido com ela.

Baerbock, ao contrário, pretende sacudir o status quo. Ela está desafiando os alemães a lidar com as crises que Merkel deixou praticamente de lado: descarbonizar o poderoso setor automotivo; desmamar o país do carvão; repensar as relações comerciais com concorrentes estratégicos, como China e Rússia.

Nem sempre é uma ideia fácil de vender. Numa disputa incomumente acirrada, ainda existe uma chance remota de que os verdes alcancem os dois partidos que vêm governando a Alemanha. Mas, mesmo que não o façam, é difícil imaginar uma coalizão partidária que não os inclua no próximo governo. Isso confere a Baerbock, a suas ideias e a seu partido uma importância central para o futuro do país.

Mas os alemães ainda estão só começando a conhecê-la.

Atleta de trampolim na juventude que se formou advogada aos 32 e tem duas filhas, Baerbock entrou no cenário político nacional da Alemanha apenas três anos atrás, quando foi eleita uma das líderes verdes. “Quem é Annalena?”, um jornal perguntou na época.

Depois de ser nomeada em abril como a primeira candidata a chanceler dos Verdes, Baerbock por um breve momento ultrapassou seus rivais dos partidos que há muito dominam a Alemanha: Armin Laschet, líder dos democratas-cristãos, e Olaf Scholz, dos social-democratas de centro-esquerda, que neste momento lidera a corrida.

Mas ela ficou para trás depois de tropeçar algumas vezes. Rivais acusaram Baerbock de plágio após revelações de que ela não fez a citação correta em certas passagens de um livro recém-publicado. E algumas imprecisões de seu currículo chegaram às manchetes dos jornais.

Mais recentemente, ela e seu partido não conseguiram aproveitar as inundações que mataram mais de 180 pessoas no oeste da Alemanha para energizar sua campanha, mesmo quando a catástrofe catapultou as mudanças climáticas – a principal pauta dos Verdes – para o topo da agenda política.

Na esperança de dar um novo começo para sua campanha, Baerbock, que viaja num ônibus verde brilhante, com dois andares e coberto por painéis solares, está apresentando sua proposta aos eleitores alemães em 45 cidades e vilas de todo o país.

Nascida em 1980, ela tem a mesma idade de seu partido. Quando era criança, seus pais a levavam a protestos anti-Otan. Na época em que ela entrou para os Verdes, ainda estudante, em 2005, o partido tinha completado sua primeira passagem pelo governo como parceiro menor dos social-democratas.

A esta altura, muitos eleitores passaram a ver os Verdes como um partido que amadureceu, mas permanece fiel a seus princípios. É pró-meio ambiente, pró-Europa e assumidamente pró-imigração.

Baerbock propõe gastar 50 bilhões de euros, cerca de R$ 300 bilhões, em investimentos verdes a cada ano, durante uma década, para financiar a transformação da Alemanha numa economia neutra em carbono – e pagar a conta eliminando a estrita regra de equilíbrio orçamentário do país.

Ela diz que irá aumentar os impostos sobre os que ganham mais e impor tarifas sobre as importações que não sejam neutras em carbono. Ela imagina painéis solares em todos os telhados, uma indústria de carros elétricos de primeira linha, um salário mínimo mais alto e subsídios climáticos para quem tem baixa renda. E quer se juntar aos Estados Unidos para ser dura com a China e a Rússia.

Ela também está comprometida com a crescente diversidade da Alemanha – foi a única candidata que falou da responsabilidade moral do país em receber alguns refugiados afegãos, além daqueles que ajudaram as tropas ocidentais.

As ambições de Baerbock de quebrar tabus em casa e no exterior – e sua ascensão como uma séria desafiadora do status quo – estão chamando a atenção dos eleitores à medida que a eleição se aproxima.

Isso também a tornou alvo de campanhas de desinformação online da extrema direita e de outros. Uma foto falsa dela nua circulou com a legenda “Eu precisava de dinheiro”. Citações falsas dizem que ela quer proibir todos os animais de estimação para minimizar as emissões de carbono.

Observadores políticos dizem que os ataques contra Baerbock foram desproporcionais e revelam um fenômeno mais profundo. Apesar de ter uma mulher como chanceler por quase duas décadas, as mulheres ainda enfrentam um escrutínio mais rígido e, às vezes, um sexismo absoluto na política alemã.

“Minha candidatura polariza de uma maneira que não era imaginável para muitas mulheres da minha idade”, disse Baerbock, sentada entre painéis de madeira brilhante no nível superior de seu ônibus de campanha.

“De certa forma, o que experimentei é semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos quando Hillary Clinton concorreu à presidência”, disse ela. “Eu defendo a renovação, os outros defendem o status quo. E, claro, aqueles que têm interesse no status quo veem minha candidatura como uma declaração de guerra”.

Quando Merkel concorreu pela primeira vez, em 2005, aos 51 anos, muitas vezes ela era descrita como a “garota” do chanceler Helmut Kohl e ouvia não apenas intermináveis comentários sobre seu corte de cabelo, mas também perguntas implacáveis sobre sua competência e prontidão para o cargo. Na época, até os aliados de seu partido a rejeitaram como líder interina.

A resposta de Baerbock a tais desafios não é esconder sua juventude nem sua maternidade, mas sim se apoiar nelas.

“Depende de mim, como mãe, depende de nós, como sociedade, de nós adultos, estarmos preparados para as perguntas de nossos filhos: você tomou alguma atitude?”, ela disse. “Será que estamos fazendo tudo para garantir o clima e, com ele, a liberdade dos nossos filhos?”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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Como o candidato de Angela Merkel está jogando fora sua eleição na Alemanha

Armin Laschet, candidato a chanceler do partido União Democrata Cristã de Angela Merkel, está caindo nas pesquisas e parece estar arrastando o partido com ele

Melissa Eddy/The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2021 | 12h00

Seu partido é o maior da Alemanha. Ele ganhou todas as eleições, exceto três desde 1950, incluindo as últimas quatro. A chanceler que está deixando o cargo é mais popular do que qualquer político do país. E os eleitores alemães anseiam por estabilidade e continuidade. 

Armin Laschet, o candidato a chanceler do partido conservador União Democrata Cristã, deveria estar em alta. A corrida para substituir Angela Merkel era sua, não poderia perder. Até agora, no entanto, ele parece estar fazendo exatamente isso.

Semanas antes da votação mais importante em uma geração, - uma que produzirá um chanceler que não é Merkel pela primeira vez em 16 anos — Laschet está afundando e puxando seu partido com ele.

A disputa ainda está acirrada e a política de coalizão da Alemanha é tão imprevisível que seria perigoso anunciar a derrota do candidato conservador. Mas depois que pesquisas recentes mostraram que o partido de Laschet caiu para níveis recordes — de 20% a 22% de apoio — sua posição é tão terrível que até mesmo alguns democratas-cristãos se perguntam em voz alta se escolheram o candidato errado.

De forma mais ampla, a campanha de Laschet gerou mal-estar entre os conservadores que temem estar vendo uma fraqueza no apelo do partido, disfarçada por anos pela própria popularidade de Merkel e agora é exacerbada por sua incapacidade de preparar um substituto.

Em 2018, ela anunciou sua sucessor escolhida a dedo, Annegret Kramp-Karrenbauer, uma centrista moderada. Mas mesmo com o apoio de Merkel, Kramp-Karrenbauer teve problemas para sair da sombra da chanceler e construir sua própria base. Ela se afastou em 2020 como líder dos conservadores, deixando a porta aberta para Laschet.

Ele há muito se gabava de que, se pudesse governar o Estado mais populoso da Alemanha, a Renânia do Norte-Vestfália, onde é governador desde 2017, poderia governar o país. Mas então uma inundação extraordinária neste verão colocou até mesmo essa credencial em questão, expondo falhas em suas políticas ambientais e gestão de desastres.

“O maior problema para Laschet é que ele não conseguiu convencer os eleitores de que pode fazer o trabalho como Merkel”, disse Julia Reuschenbach, cientista política da Universidade de Bonn.

Ela citou imagens dele rindo enquanto o presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, fazia um discurso sombrio após devastadoras enchentes que mataram 180 pessoas e posou diante de um monte de lixo para fazer uma declaração. "Ele parece inseguro, irreverente e pouco profissional", disse Reuschenbach.

Nas últimas semanas, Laschet viu sua popularidade cair abaixo da de seu rival social-democrata, Olaf Scholz, enquanto o apoio ao partido de Laschet está em queda livre desde o final de julho.

A situação é tão terrível que Merkel, que disse querer ficar fora da disputa, agora está intervindo e tentando reunir eleitores para Laschet.

“Sejamos honestos: está apertado. Será muito apertado nas próximas semanas ”, disse Markus Söder, chefe do ramo conservador da Baviera, a União Social Cristã, e um antigo rival, em um comício eleitoral em 20 de agosto que teve o objetivo de impulsionar a campanha de Laschet em uma reta final e intensa. "Não é mais uma questão de como poderíamos governar, mas possivelmente de se poderemos governar."

Söder desafiou abertamente Laschet este ano pela chance de suceder a chanceler, e ele ainda desfruta de uma popularidade individual mais alta entre os alemães do que a de Laschet.

Os alemães elegem partidos, não um candidato a chanceler. Mas ao longo dos quatro mandatos de Merkel no cargo, seu partido desfrutou do chamado bônus de chanceler, ou seja, a disposição dos eleitores de efetivamente votar pela consistência.

Embora Merkel continue a ser a política mais popular da Alemanha, suas recentes tentativas de angariar apoio para Laschet não conseguiram mudar sua sorte, em parte porque pareceram de última hora e indiferentes.

Em vez disso, Scholz agora parece estar colhendo os benefícios, enfatizando sua proximidade com Merkel para se tornar o segundo político mais popular do país.

“Até os eleitores conservadores tendem a aprovar Scholz”, disse Ursula Münch, diretora da Academia de Educação Política em Tützing.

No entanto, Laschet é conhecido por reviravoltas, por sobreviver a erros - incluindo inventar notas de alunos depois de perder suas provas quando dava aulas - e por sua capacidade de reverter campanhas decadentes na reta final. Nas semanas anteriores à votação de 2017 na Renânia do Norte-Vestfália, ele se concentrou na necessidade de aumentar a segurança em um cenário de arrombamentos recordes, para melhor integrar os migrantes e reposicionar a indústria do Estado para se concentrar no futuro. A estratégia funcionou e ele derrotou o atual governador social-democrata, após ficar atrás nas pesquisas durante a maior parte da disputa.

Entre as características importantes de Laschet está sua fé. Em uma época em que mais e mais alemães estão deixando a Igreja Católica Romana, Laschet é um membro orgulhoso. "Não sou alguém que usa versículos da Bíblia em minha política", disse ele. "Mas é claro que isso me influenciou." E Merkel elogiou seu cristianismo como uma bússola moral orientadora.

Laschet observou que sua fé era algo que ele tinha em comum com o presidente Biden, acrescentando que a última vez em que os líderes dos Estados Unidos e da Alemanha compartilharam essa fé foi na década de 1960, com o presidente John F. Kennedy e o chanceler Konrad Adenauer — também democrata cristão.

Outra influência para Laschet é Aachen, a cidade mais a oeste da Alemanha, onde ele nasceu e foi criado. Tendo crescido em um lugar com laços profundos com a Bélgica e a Holanda, Laschet foi integrado ao grande ideal europeu durante toda a sua vida. Ele ainda mantém uma casa em Aachen com sua esposa, Susanne, que conheceu no coro da igreja. Juntos, eles têm três filhos adultos, incluindo Joe Laschet, um influenciador de mídia social e fashionista de roupas masculinas clássicas.

O primeiro cargo político de Laschet foi como funcionário municipal em 1979. Ele foi eleito para o Parlamento alemão em 1994 e, cinco anos depois, foi eleito para representar sua região natal como membro do Parlamento Europeu. Ele entrou para o governo estadual na Renânia do Norte-Vestfália em 2005, como primeiro ministro da integração da Alemanha - uma função focada nos migrantes e seus descendentes que lhe rendeu reconhecimento nacional.

Depois que os democratas-cristãos sofreram uma terrível derrota nas eleições estaduais de 2012, Laschet ajudou a reconstruir o partido. Ele apoiou a decisão de Merkel de receber mais de um milhão de imigrantes em 2015 e, dois anos depois, tornou-se governador da Renânia do Norte-Vestfália.

Em janeiro, ele lutou para se tornar o líder dos democratas-cristãos, derrotando Söder, que continua sendo um político mais popular entre muitos alemães. Se estas características vão ajudar Laschet a salvar a si mesmo ainda não se sabe.

Ele teve alguns sucessos, incluindo uma aparição agressiva no primeiro debate televisionado. Laschet também montou uma equipe de especialistas, incluindo ex-rivais, como Friedrich Merz, que é muito querido entre a ala conservadora do partido, em um esforço para mostrar suas habilidades de construção de pontes. Mas nenhuma dessas coisas reduziu o fosso cada vez maior com os social-democratas.

Em uma parada de campanha em Frankfurt an der Oder, uma mulher empunhando um celular abriu caminho em direção ao candidato enquanto ele estava em uma ponte com vista para a fronteira polonesa, fazendo uma declaração aos repórteres sobre o papel da Alemanha na Europa.

Questionada se ela pretendia votar em Laschet, ela objetou. "Ainda não sei em quem vou votar", disse a mulher, Elisabeth Pillep, 44. "Mas não acho que será ele."

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É época de eleições na Alemanha. Sem carisma, por favor!

Corrida para substituir a chanceler Angela Merkel após 16 anos no cargo é a mais acirrada em anos, mas os dois principais candidatos não empolgam – e é assim que os alemães gostam

Katrin Bennhold, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2021 | 20h00

BERLIM — O político mais popular que gostaria de ser chanceler não está na votação. O candidato principal é tão chato que as pessoas o comparam a uma máquina. Em vez de "Sim, nós podemos!", os eleitores estão sendo inflamados com promessas de “estabilidade”.

A Alemanha está tendo sua eleição mais importante em uma geração, mas você nunca saberia disso. O jornal Die Welt perguntou recentemente em uma manchete: “Esta é a eleição mais chata de todas?”

Sim e não.

A campanha para substituir a chanceler Angela Merkel após 16 anos de domínio da política alemã e europeia é a mais acirrada na Alemanha desde 2005, e só ficou mais acirrada. Os social-democratas, anulados há apenas um mês, ultrapassaram os conservadores de Merkel pela primeira vez em anos.

Mas a campanha também revelou um vácuo de carisma que é ao mesmo tempo típico da política alemã do pós-guerra e excepcional por quão insossos os dois mais prováveis ​​sucessores de Merkel são. Nenhum partido tem mais de 25% das intenções de voto, e, em grande parte da disputa, o candidato preferido do público não foi nenhum dos dois.

Quem quer que ganhe, no entanto, terá a tarefa de pastorear a maior economia do continente, tornando-se um dos líderes mais importantes da Europa, o que deixou alguns observadores se perguntando se o déficit de carisma se estenderá a um déficit de liderança também.

Embora o resultado da eleição possa ser emocionante, os dois principais candidatos são tudo menos isso.

Menos de um mês antes da votação de 26 de setembro, o campo está sendo liderado por dois políticos de carreira vestindo ternos - um calvo e um de óculos, ambos com mais de 60 anos - que representam os partidos que governaram o país em conjunto durante a maior parte de duas décadas.

Armin Laschet, governador do Estado da Renânia do Norte-Vestfália, que está concorrendo pelos democratas-cristãos conservadores de Merkel. E depois há Olaf Scholz, um social-democrata que é ministro das Finanças e vice-chanceler de Merkel.

A candidata da mudança, Annalena Baerbock, co-líder do Partido Verde, tem uma agenda de reformas ousada e muita energia - e tem ficado para trás nas pesquisas após um bom desempenho antes do verão.

É de roer as unhas, ao estilo alemão: quem pode canalizar de forma mais eficaz a estabilidade e a continuidade? Ou dito de outra forma: quem pode canalizar Merkel?

Por enquanto, parece ser Scholz - um homem que os alemães há muito conhecem como o “Scholz-o-mat” ou a “máquina Scholz” - um tecnocrata e político veterano. Onde outros escorregaram na campanha, ele evitou erros, principalmente dizendo muito pouco.

“A maioria dos cidadãos sabe quem eu sou”, foi o argumento de Scholz para seu partido antes de ser eleito candidato a chanceler, conspícuosamente ecoando a frase icônica de Merkel em 2013 para os eleitores: “Você me conhece”.

Mais recentemente, um de seus anúncios de campanha mostrou seu sorriso tranquilizador com uma legenda usando a forma feminina da palavra chanceler, dizendo aos eleitores que ele tem o que é preciso para liderar o país, embora seja um homem. “Angela, a segunda”, foi o título de um perfil de Scholz na revista Der Spiegel esta semana.

Scholz tentou tanto aperfeiçoar a arte de incorporar a aura de estabilidade e calma da chanceler que até foi fotografado segurando as mãos diante de si na forma de diamante -- gesto que é conhecido como o losango de Merkel.

“Scholz está tentando ser o clone de Merkel”, disse John Kornblum, ex-embaixador americano na Alemanha que vive em Berlim desde os anos 1960. “O cara de que todo mundo mais gosta é o cara mais chato da eleição - talvez do país. Ele faz ver a água ferver parecer emocionante. ”

Mas os alemães, observadores políticos apontam, amam o tédio.

“Existem poucos países onde esse prêmio é colocado em ser maçante”, disse Timothy Garton Ash, um professor de história europeia da Universidade de Oxford que escreveu sobre a Alemanha.

Não é que os alemães sejam resistentes ao carisma. Quando Barack Obama estava concorrendo à presidência e fez um discurso empolgante na coluna da vitória em Berlim em 2008, 100 mil alemães o aplaudiram.

Mas eles não querem isso em seus próprios políticos. Isso porque a última vez que a Alemanha teve um líder empolgante não terminou bem, observou Jan Böhmermann, um popular apresentador de TV e comediante.

A memória assustadora da vitória do partido nazista de Hitler em eleições livres moldou a democracia do pós-guerra da Alemanha de várias maneiras, disse Böhmermann, "e uma delas é que o carisma foi banido da política".

Andrea Römmele, reitora da Hertie School, com sede em Berlim, colocou desta forma: “Um personagem como Trump nunca poderia se tornar chanceler aqui”.

Paradoxalmente, isso é pelo menos em parte graças a um sistema eleitoral legado à Alemanha pelos EUA e seus aliados após a Segunda Guerra Mundial. Ao contrário do sistema presidencial americano, os eleitores alemães não conseguem eleger seu chanceler diretamente. Eles votam em partidos; a parcela de votos dos partidos determina sua parcela de assentos no Parlamento; e então o Parlamento elege o chanceler.

E porque é quase sempre necessário mais de um partido para formar um governo - e desta vez provavelmente três - você não pode ser muito rude com as pessoas que você pode precisar como parceiros de coalizão.

“Seu rival hoje pode ser o ministro das finanças amanhã”, disse Römmele.

Quanto aos candidatos a chanceler, não são escolhidos nas primárias, mas por funcionários do partido que tendem a escolher pessoas como eles: políticos de carreira que prestaram anos de serviço à máquina do partido.

Ser bom na televisão e se conectar com os eleitores não é o suficiente, disse Jürgen Falter, um especialista eleitoral da Universidade de Mainz. “É um sistema oligárquico estrito”, disse ele. “Se tivéssemos as primárias, Markus Söder teria sido o candidato.”

Söder, o ambicioso governador da Baviera, tem muito carisma e é o político mais popular do país, depois da própria Merkel. Ele estava ansioso para concorrer à chanceler, mas os conservadores escolheram Laschet, um aliado de longa data de Merkel, não menos importante, disse Römmele, porque na época ele se parecia mais com "o candidato da continuidade".

Mas Scholz o venceu em seu jogo. Durante um debate televisionado entre os candidatos a chanceler no domingo passado, um exasperado Laschet acusou Scholz de tentar “soar como a Sra. Merkel”.

“Acho que pareço Olaf Scholz”, respondeu Scholz sem expressão.

“Hoje em dia você está fazendo o losango”, rebateu Laschet, antes de invocar o chanceler em sua declaração final.

“Estabilidade e confiabilidade em tempos difíceis”, disse ele. “Isso é o que nos marcou de Konrad Adenauer e Helmut Kohl a Angela Merkel. A equipe C.D.U. quer garantir a estabilidade. ”

Pesquisas recentes dão aos social-democratas de Scholz a vantagem com entre 23% e 25%, seguidos por 20% a 22% para os democratas-cristãos de Laschet, ou C.D.U., e cerca de 17% para os verdes.

Para seus fãs, Scholz é uma voz de calma e confiança, um pragmático do taciturno norte da Alemanha que representa a evasiva maioria silenciosa. “Liberal, mas não estúpido”, é como ele uma vez se descreveu.

Mas os críticos observam que embora as crises tenham desabado na campanha eleitoral - enchentes épicas, a retirada caótica do Afeganistão, a pandemia - um senso de urgência está faltando nas campanhas dos dois principais candidatos.

Assim como Laschet, Scholz fala sobre como lidar com a mudança climática, mas acima de tudo promete pensões estáveis, empregos seguros, um orçamento equilibrado e não sair do carvão tão cedo.

“A grande história é que temos um mundo em crise e não há qualquer sensação de crise real na Alemanha”, disse Garton Ash, da Universidade de Oxford.

Uma visão ousada para a mudança nunca foi uma vencedora de votos na Alemanha. Konrad Adenauer, o primeiro chanceler do pós-guerra, conquistou a maioria absoluta para os democratas-cristãos ao prometer “Nenhum experimento”. Helmut Schmidt, um social-democrata, disse uma vez a famosa frase: “Se você tem visões, deveria ir ao médico”.

Quanto à Merkel, ela passou a incorporar a tradição política distinta da Alemanha de mudança por meio do consenso, talvez mais do que qualquer de seus predecessores, co-governando com seus oponentes tradicionais em três de seus quatro mandatos.

Böhmermann, o comediante, chama isso de “estado de emergência democrático” para a Alemanha. “Você poderia dizer que fomos bem administrados nos últimos 16 anos - ou você poderia dizer que fomos anestesiados por 16 anos.”

“Precisamos de visão”, lamentou. “Ninguém se atreve a articular uma visão política clara, principalmente os principais candidatos.”

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De olho na eleição alemã, partido de ultradireita evitará associação com Bolsonaro, dizem analistas

Para pesquisadores, Beatrix von Storch agiu de modo independente e AfD prioriza pleito nacional, que será disputado em setembro, e questão climática

Pedro da Rocha, Especial para o Estadão

28 de julho de 2021 | 20h08

BERLIM – O encontro do presidente Jair Bolsonaro com a deputada do partido alemão de ultradireita AfD, Beatrix von Storch, não deve ser explorado pela legenda e significou uma decisão independente da parlamentar, avaliam pesquisadoras alemãs. A fama mundial de Bolsonaro como permissivo com o desmatamento na Amazônia deve restringir a divulgação da reunião a publicações nas redes sociais de von Storch.

As recentes enchentes que atingiram diversas regiões da Alemanha e deixaram pelo menos 180 mortos no país colocaram as mudanças climáticas no centro do debate político, acirrado pela aproximação das eleições nacionais em setembro deste ano. Um ponto desfavorável para a AfD, que é o único partido no país a negar a interferência humana no aquecimento global.

Para a diretora do programa Futuro da Democracia no think tank alemão Das Progressive Zentrum, Paulina Fröhlich, a questão climática faz com que o encontro com Bolsonaro não seja atraente para ser usado neste momento pela AfD. “Apesar de ser possivelmente reconhecido como positivo pelo núcleo duro de apoiadores do partido, eu diria que não ajuda a AfD com os indecisos, que não irão apreciar uma reunião com alguém responsável pelo enorme desmatamento de uma floresta”.

Já a jornalista e autora do livro Angst für Deutschland: Die Wahrheit über die AfD: wo sie herkommt, wer sie führt, wohin sie steuert (Medo pela Alemanha; a verdade sobre a AfD: de onde vem, quem a lidera e para onde está sendo liderada, em tradução literal), Melanie Amann, pontua que Von Storch é considerada uma parlamentar independente em seu partido, e toma decisões sobre sua agenda não necessariamente alinhadas às da legenda, o que a tornou não muito popular na sigla.

(Von Storch) Sempre levantou as bandeiras anti-aborto e pelos valores familiares. Teve plataformas que eram um pouco paralelas às do partido”, relata a jornalista. “Ela (von Storch) vem como uma política da AfD, mas ela não faz para o partido, como estratégia de se conectar ao Bolsonaro. É em seu próprio proveito”, diz Amann. “A política internacional da AfD é caótica. Eles não têm uma estratégia de como querem se colocar internacionalmente. Sempre há representantes do partido viajando ao redor do mundo”, acrescenta.

Brigas internas e neonazismo

A fragmentação citada por Amann faz parte do conflito interno que a AfD tenta superar para melhorar sua votação na próxima eleição nacional. A ala moderada do partido, de inspirações neoliberais, têm como principal figura o deputado Jörg Meuthen. Von Storch defende valores conservadores, mas não faz parte da ala radical, o antigo braço da sigla chamado Der Flügel (A Asa, em tradução literal), de inspiração neonazista. Ela perdeu a eleição interna para a liderança executiva no estado de Berlim, em março deste ano, para Kristin Brinker, que teve o apoio de membros desse grupo ainda mais radical.

A identificação do Der Flügel –  que tem como um de seus principais líderes Björn Höcke, da Turíngia – com ideias neonazistas fez o Escritório Federal de Proteção à Constituição (BFV na sigla em alemão) colocar o braço do partido sobre vigilância, e, posteriormente toda a sigla.

Decisão provisória subsequente da Justiça alemã proibiu a Bfv de tornar público o monitoramento, sob o argumento de que poderia interferir nas eleições. A vigilância ocasionada pelo extremismo do grupo fez o Der Flügel ser oficialmente dissolvido pela AfD em abril do ano passado.

Partido patina nas pesquisas

Na última pesquisa de intenção de votos para a eleição federal, divulgada nesta segunda-feira (26), a AfD aparece com 11% das intenções de votos, perto dos 13% alcançados na última eleição, em 2017.

O negacionismo e a falta de resposta para problemas reais impedem o crescimento da legenda, segundo Amann. “Durante a pandemia a AfD não teve conceito, solução. Eles só têm uma solução fácil, populista. Não têm realmente uma ideia de como governar o país de forma profissional”.

Para Fröhlich, o encontro com Bolsonaro faz parte da estratégia de líderes nacionalistas de ultra direita de se conectarem aos seus pares em outros países e mostrarem aos seus apoiadores que não estão isolados internacionalmente. “Eles precisam mandar uma mensagem para a sua base de eleitores dizendo: eu não estou sozinho, tenho aliados internacionais e eles pensam como eu. Multilateralismo e cooperação internacional funcionam para eles desde que o outro pense igual. Isso é puro populismo de ultra direita”.

Na convenção da sigla, em abril deste ano, que definiu os principais pontos do programa de governo a ser apresentado na eleição, os que ganharam maior destaque foram: rejeição à reunificação de familiares de refugiados, a saída da Alemanha da União Europeia e o fim das restrições para conter a propagação do coronavírus.

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