REUTERS/Agustin Marcarian
REUTERS/Agustin Marcarian

Eleição na Argentina: entenda como fica o governo após a derrota da esquerda

Coalizão de peronistas e kirchneristas perdeu a maioria no Senado, que era controlado por essa força política havia 38 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2021 | 12h05
Atualizado 15 de novembro de 2021 | 12h48

A eleição realizada no domingo na Argentina para renovar parcialmente o Congresso confirmou a derrota prevista pelas pesquisas da Frente de Todos, aliança que sustenta o governo do presidente Alberto Fernández

A coalizão de peronistas e kirchneristas perdeu a maioria no Senado, que era controlado por essa força política havia 38 anos, o que afetará a aprovação de projetos governistas. 

O governo manteve a maior bancada na Câmara dos Deputados, mas por apenas uma cadeira, o que deve dificultar a aprovação de projetos que necessitem de maioria ampla.

O novo mapa de poder no Congresso acompanhará Fernández até 2023, em um cenário complexo, agravado por uma crise econômica que não dá trégua há três anos.

O pleito renovou metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado. É a primeira vez, desde o retorno da democracia, em 1983, que um governo peronista vive esse cenário político, segundo analistas. Também foi histórica a baixa participação do eleitorado (71%), de acordo com dados oficiais.

O resultado eleitoral mostrou ainda que o governo e a opositora Juntos por el Cambio (Juntos pela Mudança) passarão a ter praticamente a mesma quantidade de votos na Câmara dos Deputados — 118 para a base governista Frente de Todos e 117 para a oposição, o que deve dificultar a aprovação de projetos que requeiram maioria ampla.

A frente opositora de centro-direita Juntos pela Mudança, do ex-presidente Mauricio Macri, liderou a votação na maioria das 23 províncias e na capital, mas a Frente de Todos conseguiu se recuperar parcialmente em relação às primárias realizadas em setembro, quando sofreu uma derrota considerada acachapante.  

No geral, a coalizão macrista teve 41,97% dos votos, os peronistas e kirchneristas, 33,57%, e os demais 24,46% dos votos dividiram-se entre outras forças de esquerda e direita.

Houve uma distribuição maior de votos entre partidos menores e, em relação à eleição presidencial de 2019, as duas principais forças políticas saíram menores: a Frente de Todos, de Fernandez, com menos 5,2 milhões de votos, e a Juntos pela Mudança, de Macri, com menos 1,170 milhão.

A nova distribuição exata das cadeiras do Congresso ainda não foi fechada e depende de alianças.

No Senado de 72 cadeiras, presidido pela vice-presidente Cristina Kirchner, o governo perderia seis dos seus 15 assentos que estavam em jogo e passaria a 35, em vez dos 41 atuais. 

Já a coalizão Juntos pela Mudança ganharia cinco cadeiras e passaria a 34, com as demais três vagas controladas por independentes. De toda forma, a perda da maioria absoluta tornará mais difícil para o governo de Fernández negociar seus projetos.

Na Câmara, dos 257 lugares, a estimativa é que o governo perca apenas dois dos seus 120 deputados, ficando com 118, enquanto a oposição de centro-direita passaria de 115 para 117.

Na capital, um bastião da oposição conservadora, o partido Avança Liberdade, liderado pelo economista de extrema direita Javier Milei, que era candidato ao primeiro mandato de deputado, obteve 17% dos votos, contra 13% obtidos nas primárias de setembro. Com isso, Milei puxou a votação da legenda, que elegeu cinco deputados federais, e levou a ultradireita ao Congresso pela primeira vez.

Discurso de Fernández

Após os primeiros resultados, Fernández divulgou um pronunciamento gravado, onde reconheceu ter cometido erros e pediu um “diálogo construtivo” com a oposição.

“A Argentina vem avançando. Ainda que com dificuldades, estamos nos colocando de pé. Devemos priorizar acordos nacionais, consensos entre as grandes maiorias para acordar uma agenda. Uma oposição responsável e aberta ao diálogo é uma oposição patriótica. E precisamos desse patriotismo.”

Depois da veiculação do seu pronunciamento à nação, Fernández foi ao quartel-general da Frente de Todos, onde, apesar da derrota, tentou imprimir um tom positivo ao seu discurso. 

Celebrou o aumento dos votos na província de Buenos Aires, em relação às primárias, e os 25% de votos obtidos pelos governistas na capital. “Quero agradecer a todos os argentinos que foram votar. A democracia é linda, e não há nada mais lindo do que poder escutar o povo neste dia em que o povo vota”, disse.

"O peronismo tem a cultura de transformar a derrota em vitória. Faz parte da sua cultura, do seu discurso. E esta marcha de quarta-feira, que foi anunciada pelo presidente, já estava marcada antes das eleições", disse o analista político Ricardo Rouvier à BBC. 

O peronismo é o movimento político fundado nos anos 1940 pelo ex-presidente Juan Domingo Perón (1895-1974) e que governou a Argentina em grande parte de sua história recente. Fernández e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, que hoje preside o Senado, integram o peronismo, apesar das diferentes matizes e linhas ideológicas que o dividem.

Com as legislativas, Fernández buscava assegurar a governabilidade para os próximos dois anos de mandato, enquanto grande parte dos candidatos já pensam na disputa à Presidência em 2023. 

Apesar do discurso, Fernández terá dificuldades para enfrentar o difícil quadro econômico e social argentino, que inclui inflação alta, com índice de 3,5% somente no mês de outubro e 41,8% acumulado neste ano, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).

No primeiro semestre, a pobreza registrada foi de 40,6%, ainda de acordo com o Indec. A situação econômica e social argentina já marcava componentes de crise e foi agravada durante a pandemia do novo coronavírus.

Além disso, a Argentina contraiu uma dívida bilionária com o Fundo Monetário Internacional durante a gestão do ex-presidente Macri, e tenta reestruturar este endividamento que representa o maior empréstimo já concedido pelo FMI. 

As principais parcelas desta dívida de US$ 57 bilhões, dos quais a Argentina recebeu US$ 44 bilhões, vencem em março do ano que vem e o governo não dispõe de dólares suficientes para honrar o pagamento.

Voto de punição

O ex-presidente Mauricio Macri, principal referência da oposição, adiantou que “esses próximos dois anos serão difíceis” e, em um tom de vitória, garantiu que sua coalizão “atuará com muita responsabilidade, ajudando para que a transição seja a mais ordenada possível”.

O resultado foi visto como um voto de "punição" contra o governo Fernández pelo desemprego e outras dificuldades que acompanharam uma queda de 10% na economia argentina no ano passado, junto com a contínua alta da inflação.

María Eugenia Vidal, líder da coalizão de oposição eleita para a Câmara dos Deputados da cidade de Buenos Aires, disse que ficou comovida com o resultado.

"Milhões de argentinos em todo o país disseram 'chega'... Eles disseram 'chega' e derrotaram a tristeza, a frustração, a raiva", disse Vidal./AFP, AP e REUTERS

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