REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria

Eleição na Venezuela tem volta da oposição após três anos de boicote

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do presidente Nicolás Maduro, elegeu 20 dos 23 governadores do país, além do prefeito de Caracas

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

CARACAS  - Após três anos de boicote, a oposição venezuelana voltou neste domingo, 21, às urnas em eleições regionais, que o governo de Nicolás Maduro pretende usar para se reerguer e conseguir a suspensão das sanções internacionais. Com propostas antagônicas, chavistas e dissidentes disputaram o poder em 23 Estados e 335 prefeituras, além de cadeiras na Assembleia Nacional. 

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), do presidente Nicolás Maduro, elegeu 20 dos 23 governadores do país, além do prefeito de Caracas. “Bom triunfo, boa vitória, boa colheita, produto do trabalho, trabalho perseverante, produto de levar a verdade a todas as comunidades”, comemorou Maduro. A oposição venceu em três estados, incluindo Zulia, o mais populoso do país, Cojedes e Nueva Esparta. 

Em um país desgastado pela crise política e econômica, 21 milhões dos 30 milhões de venezuelanos votaram sem garantias de lisura, mas observadas, pela primeira vez em 15 anos, por uma missão da União Europeia, que deve atestar, juntamente com a ONU, se houve algum tipo de fraude. 

O resultado foi esperado: o chavismo venceu a maior parte dos Estados. Mesmo assim, alguns partidos dissidentes acreditam que participar das eleições era o melhor caminho para chegar a uma disputa presidencial mais limpa em 2024. Para o professor da Universidade Simón Bolívar Erik del Bufalo, esse foi um erro, pois a oposição se fragmentou ainda mais. 

“Pode terminar de se destruir. Essas eleições dividiram demais os adversários do chavismo. Há mais divergências  entre os partidos dissidentes  do que com relação ao chavismo, o que prova o grau de retrocesso político que vivemos”, afirma Del Bufalo. A divisão é tanta que em muitas regiões o antichavismo sequer conseguiu emplacar candidatos. 

A participação dos partidos contrários ao chavismo  não representará uma frente comum contra o PSUV, de Maduro, mas indica que o apoio internacional dado ao líder opositor Juan Guaidó já não é mais suficiente. Desde que se declarou presidente interino, em janeiro de 2019, Guaidó vem perdendo força na Venezuela. Pesquisa do Datanalisis mostra que o apoio a a ele passou de 63%, em 2019, para 15%, hoje. 

O partido Força Popular (de Guaidó) estará presente nas urnas, assim como o Primero Justicia, de Henrique Capriles e de José Manuel Olivares, que passou os últimos três anos exilado em Bogotá, na Colômbia, mas regressou à Venezuela para disputar o governo de Guaira, Estado vizinho a Caracas. 

Os adversários do chavismo  que decidiram ficar de fora deste processo eleitoral, como a líder Maria Corina Machado, continuam dizendo que o simples fato de participar dele é uma maneira de legitimar o governo de Maduro. “Aqueles que participam da farsa de domingo (hoje) estão entregando uma luta”, afirmou Corina Machado ao jornal colombiano El Tiempo

Sanções contra a Venezuela

Para Maduro, o que está em jogo são as sanções internacionais. Com a realização destas eleições, principalmente com a presença de uma missão de observação  internacional, o governo chavista quer o levantamento de sanções para poder vender livremente seu petróleo e importar gasolina, escassa no país. Além disso, o chavismo reformulou o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e permitiu a participação de opositores no órgão, em dois dos cinco assentos. 

No entanto, quando a votação acabar, o chavismo estará no mesmo lugar, assim como as sanções. Analistas acreditam que, mesmo que haja uma certificação de que o processo eleitoral foi livre e justo, é preciso uma mudança de postura do governo de Joe Biden frente ao regime Maduro antes que sanções sejam aliviadas. 

Para Del Bufalo, o que pode acontecer é uma melhora na imagem do chavismo. “Todo processo eleitoral permite, de alguma forma, dar a desculpa que no local há uma democracia funcionando.”

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