Eleição nigeriana reflete democracia na África

Na véspera das eleições presidenciais e parlamentares da Nigéria, o país mais populoso da África e conhecido pela corrupção endêmica, um fato inusitado deu a medida de como a democracia funciona no continente: apenas uma parte das 60 milhões de cédulas de votação havia chegado na sexta-feira, 20, em solo nigeriano. A inclusão de um candidato presidencial a cinco dias da votação obrigou o governo a reimprimir as cédulas na África do Sul, único país do continente que dispõe de uma gráfica capaz de produzir tantas cédulas em pouco tempo. Acusado de corrupção, o vice-presidente Atiku Abubakar só obteve na segunda-feira, 16, a permissão da Justiça para concorrer.O governo assegurou que o restante das cédulas estava prestes a chegar e que haveria tempo de distribuí-las durante a madrugada, possibilidade contestada pelos observadores internacionais - afinal, o país é extenso e com uma malha rodoviária precária. A única medida concreta tomada na sexta-feira pelas autoridades foi adiar por duas horas o início da votação. As eleições estaduais, há uma semana, já haviam mostrado a fragilidade da democracia do país. Ao menos 50 pessoas foram mortas em choques com a polícia. Nas imediações dos locais de votação foram encontradas cédulas preenchidas. Num estado, o número de votos superou o de eleitores.Mesmo diante desse cenário desolador, as expectativas em relação à votação são imensas - se não houver um golpe de Estado e o vencedor for empossado, será a primeira transição democrática no país. "A eleição na Nigéria será um teste e servirá de exemplo para todo o continente", disse o cientista político nigeriano Nnamdi Obasi, por telefone, ao Estado. "Tudo o que ocorre aqui reflete na África porque a Nigéria ocupa um papel de liderança, junto com nações como Egito e África do Sul." Existe o temor de que uma possível fraude cause uma explosão da violência. "Há chances de protestos, principalmente na divulgação dos resultados, em 29 de maio", disse Obasi. Segundo ele, "se a eleição for justa, o governo terá autoridade moral para pressionar outros países a adotar ou valorizar a democracia. Do contrário, não terá legitimidade nem para tratar assuntos internos, quanto mais questões internacionais". Como não há pesquisas eleitorais, é difícil prever quem irá vencer a corrida presidencial. O favorito é Umaru Yar?Adua, candidato do atual presidente Olusegun Obasanjo. Com a receita anual do petróleo de US$ 40 bilhões, o governo tem recursos para manipular a votação. Além de lutar pela derrota de Abubakar, seu vice e desafeto, Obasanjo tentou minar a candidatura do general Muhammadu Buhari, que governou durante o regime militar. Para vencer no primeiro turno, o candidato deve obter a maioria dos votos e 25% dos votos em 24 dos 36 estados.

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