Esteban Felix/AP
Apoiadores de Boric saem às ruas de Viña del Mar; pesquisas apontam disputa apertada no domingo  Esteban Felix/AP

Eleição no Chile: Apatia marca uma disputa entre extremos

Desconfiança e descrença em dois candidatos considerados radicais devem aumentar o tradicional índice de abstenção na votação de domingo

Thaís Ferraz / Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2021 | 05h00

SANTIAGO - O esquerdista Gabriel Boric e o ultraconservador José Antonio Kast despertam paixões entre seus eleitores no Chile. Mesmo assim, uma parcela significativa da população acompanha a campanha presidencial de longe, desconfiada de propostas consideradas radicais ou descrente da possibilidade de mudanças no país.

A alta abstenção é uma tradição no Chile desde 2012, quando houve uma mudança no sistema eleitoral – de inscrição voluntária e voto obrigatório a inscrição automática e voto voluntário. Se em 1989, por exemplo, 92,4% dos chilenos foram às urnas no primeiro turno da eleição presidencial, em 2013 a taxa de participação ficou em 49,3%. Nem mesmo os protestos de 2019 e o processo da nova Constituinte foram capazes de mudar o cenário. 

O aumento na participação no Plebiscito que decidiu sobre uma nova Constituinte – 50,98%, um recorde histórico – foi tímido e não se repetiu no primeiro turno das presidenciais, quando 47,3% dos inscritos saíram de casa para votar. Especialistas afirmam que a expectativa é que a tendência se mantenha estável no segundo turno. 

“Não votei no primeiro turno e não votarei no segundo porque os dois candidatos são ruins”, afirma a segurança Silvana Cancino, de Santiago, capital do Chile. “Boric é muito novo e creio que irá mudar de posição se vencer, como o fez Camila Vallejo quando entrou para a Câmara dos Deputados. São a mesma coisa”, afirma. “Kast diz uma coisa, depois volta atrás, como no caso dos direitos das mulheres. Não dá para confiar.”

Cancino sempre participou dos processo eleitorais e por muito tempo foi convocada como mesária. Nessas eleições, no entanto, ela não vê melhoras significativas no país. “Para nós, que somos trabalhadores, não importa muito o que acontecerá. No dia seguinte, estaremos trabalhando novamente. Nada mudará”, afirma.

A falta de alinhamento entre as propostas dos candidatos e os anseios da população são um dos motivos principais para a alta abstenção no Chile, afirma o analista político e fundador do site de informação eleitoral e análise política TresQuintos Kenneth Bunker. “Embora o problema seja estrutural, ele também tem muito a ver com os candidatos que disputam o segundo turno. Sabemos que quando os candidatos são muito agressivos em suas campanhas, quando há muita polarização, os argumentos não interessam muito às pessoas”, afirma. “Se não há proposições claras, as pessoas simplesmente não vão votar.”

Para ele, não é que as pessoas não se interessem pelo o que acontece na política, mas elas sentem que os partidos e candidatos em jogo não são capazes de satisfazer suas demandas. “No Chile, os partidos políticos não parecem ter as raízes na sociedade que uma vez tiveram. O eleitorado chileno é composto por pessoas moderadas, independentes, de centro, e não há nenhum partido político que encontre essa forma. Os dois candidatos que temos hoje vieram de extremos e propõem ideias que podem ser extremas para as pessoas, e nenhum partido político hoje se atreve a fazer uma campanha política de centro.”

O direito ao voto é recente no Chile. Entre os anos de 1973 e 1990, o país esteve sob a ditadura de Augusto Pinochet. Durante esse período, houve a suspensão da vigência da Constituição de 1925 e o encerramento dos espaços político-eleitorais, o que incluiu o Decreto-Lei nº 130, que suspendia o processo de inscrições nos Registros Eleitorais chilenos. Os chilenos só voltaram às urnas em 1988, quando, em um plebiscito, derrubaram a continuidade do general como presidente.

Morador da Província de Marga-Marga, Fernando, que preferiu se identificar apenas pelo primeiro nome, participou ativamente da luta contra a ditadura e pelo direito ao voto. Em 1983, quando se iniciaram os protestos anti-Pinochet, ele era estudante em Valparaíso e foi às ruas com seu irmão. “Participamos em marchas, pichamos as paredes, fizemos barricadas. Cheguei a ser detido”, conta. “Lutei porque era uma ditadura muito repressiva, havia muito desemprego, desigualdade, assassinato, torturas. Não havia liberdade de expressão.”

Ele afirma sentir tristeza ao ver o alto índice de abstenção nas votações chilenas. “A ditadura eliminou uma educação cívica que existia antes e hoje falta, e as pessoas estão pensando de maneira muito individual, dentro de um modelo neoliberal que faz com que elas priorizem mais o econômico que o político”, diz. “É uma pena porque o direito ao voto, assim como a democracia, é fundamental em um país.”

Voto nulo

Boric e Kast não atraem nem ao menos todos os eleitores que irão votar. De acordo com a pesquisa mais recente da AtlasIntel, realiada entre os dias 1 e 4 de decembro, 20% dos eleitores estão indecisos ou devem votar em branco ou nulo no segundo turno das eleições.

É o caso do economista e empreendedor Rodrigo Herzberg, de Santiago. Ele participa regularmente de todas as eleições desde 1989, com o fim da ditadura. Da mesma forma, votou no plebiscito de 2012 e na constituinte de 2021.

No primeiro turno, sua opção foi Sebastian Sichel, que considera um representante de fato de uma direita moderada, liberal e moderna. Agora, ele vai votar nulo porque considera que o país está numa situação em que só vai perder.

“Se Kast vencer, a esquerda radical incitará protestos sociais, ele usará as forças armadas para reprimir e haverá muita violência dos dois lados. Se Boric vencer, os comunistas ortodoxos que representam quase metade de sua coalizão tentarão levar adiante as reformas mais radicais que estão em sua agenda, o que também trará enormes conflitos”, afirma.

Para ele, Boric é um revolucionário que está descobrindo que governar não é tão fácil, e apesar de ser um democrata, não tem conhecimento nem experiência. Kast, por outro lado, representa uma visão de mundo completamente anacrônica, segundo ele. 

Herzberg afirma que nada o fará mudar de ideia. “Felizmente, o Congresso está praticamente empatado. Isso significa que nenhum deles será capaz de realizar coisas radicais demais”, afirma. “Sinto que o desastre não será tão grande em nenhum dos casos. No melhor deles, veremos anos de grande estagnação. É uma pena.”

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Em raro ato de apoio público, Bachelet declara voto em Boric no Chile

Declaração pública de voto é caso raro de manifestação política por parte de um alto encarregado da ONU, bem como para ex-presidentes do país. 

Thaís Ferraz, enviada especial a Santiago, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2021 | 18h53

SANTIAGO  - A alta comissária da ONU para Direitos Humanos e ex-presidente chilena, Michelle Bachelet, declarou voto no candidato da esquerda à presidência Gabriel Boric nesta terça-feira, 14, em um caso raro de manifestação política por parte de um alto encarregado da ONU, bem como para ex-presidentes do país. 

"Não dá no mesmo votar em qualquer candidato e, por isso, vou votar em Gabriel Boric”, disse Bachelet em um vídeo publicado por sua fundação, a Horizonte Cidadão. “E quero fazer um apelo a todos os meus compatriotas para irem votar, respeitando silenciosamente quem pensa diferente”, acrescentou. 

De férias no Chile, Bachelet afirmou ter vindo ao país para cumprir seu dever cívico. “O que vai ser decidido no próximo domingo é fundamental. Ninguém pode ser indiferente”, afirmou, urgindo que o Chile escolha “um presidente que garanta que nosso país possa realmente continuar no caminho do progresso para todos, um caminho de maior liberdade, igualdade e direitos humanos que sejam respeitados; um ambiente sustentável e, claro, a oportunidade de uma nova Constituição.”

O apoio público vem após uma reunião privada entre Bachelet e Boric na casa da ex-presidente chilena, confirmada pelo esquerdista no último debate presidencial, realizado na segunda-feira, 13. “Nos reunimos para conversar, assim como me encontrei com o (ex) presidente Ricardo Lagos”, disse Boric ao ser questionado sobre o encontro pela apresentadora de TV chilena Solead Onetto. “Tivemos uma conversa muito boa porque devo aprender com seus acertos e erros.”

O apoio foi questionado pelo rival de Boric, o candidato de extrema direita José Antonio Kast, que "lamentou" que "a Alta Comissariada da ONU para os Direitos Humanos intervenha desta forma nas eleições". 

A fundação de Bachelet, criada em 2018, já havia declarado seu apoio “inequivocamente” à frente ampla e se colocado à disposição de sua candidatura em novembro, após o primeiro turno da eleição presidencial. 

ONU recomenda discrição

A manifestação de Bachelet é um caso raro. De acordo com o manual de conduta da ONU, funcionários internacionais devem “exercer discrição em seu apoio a um partido ou campanha política e não devem aceitar ou solicitar fundos, escrever artigos ou fazer discursos ou declarações públicas à imprensa”, acrescentando que, em caso de dúvida, esses casos devem ser encaminhados ao chefe executivo.

“Isso sai muito do hábito das Nações Unidas”, afirma o diplomata Rubens Ricupero, que foi secretário-geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). “Eu imagino que ela fez isso porque foi presidente, deve estar preocupada com a situação, mas nos meus muitos anos na ONU, nunca vi algo igual.”

Ricupero não acredita, no entanto, que o ato deva ser punido. “O outro candidato (José Antonio Kast) é um candidato da extrema direita, e a não ser que ele vença as eleições e decida levantar essa questão, não deve passar de uma certa reação. Bachelet pode argumentar que Kast ameaça os direitos humanos, e como ela é Comissária, se sentiu na obrigação de defender os direitos humanos”, afirma. 

Para ele, a manifestação também não deve abrir precedentes. “É um caso muito isolado. Acho que aconteceu porque ela foi presidente, e são poucos os cargos da ONU desse tipo que estão em mãos de pessoas que tiveram esse tipo de função. Só tem ela e o secretário-geral”, diz. 

Ex-presidentes não costumam se manifestar

O cientista político chileno Miguel Herrera, do Centro de Análisis Político da Universidade de Talca, explica que Bachelet não transgrediu nenhuma norma eleitoral chilena. “Tradicionalmente no país o ex-presidente não manifesta apoio a um candidato. No entanto, isso é apenas uma tradição, não uma norma legal”, afirma. 

Ele nota que a posição tem um efeito simbólico sobre parcelas mais tradicionais do eleitorado, como a Nova Maioria. “Pode ter uma certa influência sobre o eleitorado mais duro da coalizão, mas ele é minoritário.”

Para ele, a manifestação de Bachelet não garante bons resultados a Boric. “Bachelet em certo momento apoiou Paula Narváez (sua ex-porta-voz), e ela acabou não passando nem nas primárias de seu próprio setor”, lembra.

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Kast e Boric moderam o tom no Chile

A uma semana do segundo turno de uma eleição marcada pela polarização, candidatos conservador e socialista buscam votos entre eleitores indecisos de centro

Thaís Ferraz, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2021 | 05h00

Na reta final das eleições mais polarizadas da história recente do Chile, o ultradireitista José Antonio Kast e seu oponente, o socialista Gabriel Boric, adotam um tom moderado em busca dos eleitores indecisos e de centro, que devem ser decisivos no próximo domingo, no segundo turno.

Os candidatos tentaram imprimir austeridade às propostas no penúltimo debate, na quinta-feira. Apesar do tom bélico, com troca de farpas e acusações graves – em determinado momento, Kast acusou Boric de abuso sexual –, ambos aproveitaram a oportunidade para explorar as mudanças, principalmente de caráter econômico, realizadas em seus programas de governo.

Na terça-feira, o candidato conservador apresentou um novo programa que ajusta posições sobre questões econômicas, ambientais e políticas voltadas às mulheres. O novo documento, de 58 páginas, foi elaborado por especialistas de diferentes espectros da direita. “Em nosso primeiro programa, ganhamos entusiasmo, mas o ajustamos mantendo um grande braço social”, declarou Kast.

Entre as mudanças, estão uma redução não tão agressiva da carga tributária, o fim da proposta de extinção do Ministério da Mulher, pela qual Kast se desculpou na semana passada, e a promessa de apoiar os principais desafios da COP26, além de avançar na eliminação de usinas termoelétricas a carvão.

A reação de Boric foi rápida. Na quarta-feira, o candidato de esquerda suavizou seu programa econômico, dizendo que os ajustes dariam “viabilidade política” ao seu projeto. Ante 230 páginas do documento antigo, sua campanha apresentou um novo texto de 18 páginas, que amplia o prazo para aumentar a carga tributária e reconhece dificuldades “técnicas e políticas” para realizar a reforma do regime de previdência privada chileno, além de acrescentar a consolidação fiscal como um “compromisso” e indicar que as medidas podem ser reavaliadas, caso o contexto econômico não seja favorável.

As estratégias têm seus motivos. A uma semana das eleições, pesquisas dão uma pequena vantagem a Boric – 41% a 38,7% segundo levantamento da AtlasIntel. No entanto, mais do que isso, mostram a existência de um verdadeiro contingente de indecisos: 20% dos entrevistados não sabem a quem escolher ou votarão em branco ou nulo.

Parte desses indecisos é formada por eleitores de Franco Parisi. O economista foi uma surpresa, obtendo uma votação expressiva e terminando em terceiro lugar sem pisar em território chileno e com uma campanha feita apenas nas redes sociais. Com discurso populista e antissistema, ele arregimentou eleitores que não confiam mais em partidos tradicionais. 

“São pessoas que não têm um domicílio ideológico. Não estão à esquerda, à direita ou ao centro, cruzam todos esses espectros de maneira transversal”, explica o cientista político Mario Herrera, do Centro de Análisis Político (CAP) da Universidad de Talca. Curiosamente, embora o programa de Parisi seja alinhado à direita, a maioria dos seus eleitores parece estar se inclinando na direção de Boric no segundo turno.

“Embora as eleições estejam marcadas pela polarização entre dois projetos distintos, a discussão ideológica não parece estar alinhada aos anseios e demandas dos eleitores”, afirma Herrera. “Para o eleitorado, essa divisão não existe. Quanto mais para o centro os candidatos vão, mais eles ampliam o número de eleitores. O que temos visto é que, cada vez menos, os chilenos votam por ideologia, e cada vez mais em candidatos que tenham promessas com variáveis de curto prazo.”

Dúvidas

O médico veterinário Tom Jaime, de 38 anos, ainda não sabe em quem votará. No primeiro turno, ele optou por José Antonio Kast. "Pelo mal menor, eu votaria em Yasna Provoste, não porque ela me pareça boa, mas porque foi quem ofereceu mais estabilidade. Porém, devido à desorganização do meu local de votação, votei uma hora após o encerramento das urnas, já com informações sobre a primeira contagem de votos, onde Kast e Boric já haviam se destacado dos demais; portanto, votei naquele que parecia o menos ruim dos dois", explica. 

Ele afirma que nenhum dos dois candidatos que foram ao segundo turno representa o que ele gostaria de ver nos próximos anos no Chile. "Boric me parece um candidato com o qual muitas pessoas que têm necessidades se identificarão. Embora ofereça coisas muito atraentes, a forma como o faz, com pouco suporte técnico e mais apegado ao populismo, gera muita desconfiança; no sentido de que vejo riscos de inflação elevados no médio prazo", afirma. "Kast me parece um candidato com convicções claras, o que eu aprecio, pois dá mais previsibilidade do que está por vir. O que não gosto são os riscos que podem existir em termos de perda de algumas liberdades recentemente conquistadas. Da mesma forma, estou preocupado com a estabilidade social e que por ser um candidato de uma direita mais dura, ele gere mais resistência e isso amplie os protestos que vimos nos últimos anos", diz. 

O técnico em eletricidade industrial Javier Jimenez, de 32 anos, também está indeciso. Eleitor de Parisi no primeiro turno, ele acredita que ambas as alternativas se aproximam de extremos e não se identifica com nenhuma das propostas. "Kast tem posturas morais alheias às minhas convicções, e creio que não o deixarão governar e haverá violência", explica. "Boric é moralmente mais próximo das minhas convicções, mas odeio o plano econômico da esquerda, acho que gera pobreza e retarda o desenvolvimento."

Jimenez afirma que esta é a primeira vez em que fica tão indeciso e cogita não votar. Mas também não está tão preocupado com o resultado. "Para mim, essas eleições não são especiais porque as Câmaras estão tão equilibras que as mudanças serão feitas com calma, bem avaliadas e debatidas", afirma. 

Questões

O primeiro turno das eleições registrou alguns fenômenos interessantes. Um deles foi a clara divisão entre eleitores mais jovens, com menos de 30 anos, que preferiram Boric, e entre mais velhos, acima de 70 anos, que deram uma vitória significativa a Kast.

Outro foi a participação expressiva dos jovens. Segundo dados do DecideChile, os menores de 30 anos aumentaram sua participação de 35% para 45%, quando comparados os primeiros turnos das eleições de 2017 e 2021. Os candidatos de mais de 70 anos, por sua vez, reduziram sua participação de 56% para 40%.

“Este aumento do interesse dos jovens, estamos falando de cerca de 400 mil pessoas, não é apenas um fator atribuível a Gabriel Boric, mas também aos outros candidatos”, afirma Cristóbal Huneeus, diretor de ciência de dados da Unholster e fundador da DecideChile. “E o aumento da participação desse grupo no segundo turno pode ser decisivo para o candidato que receber mais apoio dos jovens.”

Para ele, há um grande ponto de interrogação em relação a quem deve se beneficiar com essa alta participação. “Vai depender, em parte, do que fizerem os jovens que votaram em Franco Parisi”, afirma. Há, ainda, a grande questão de qual grupo votará mais fortemente no segundo turno, segundo Huneeus. “Será uma escolha entre duas gerações? Recém-chegados atraídos por Boric (jovens e velhos) ou antigos eleitores registrados (adultos e idosos) atraídos pelo discurso de Kast?”

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