Ivan Alvarado/REUTERS
Ivan Alvarado/REUTERS

Eleição no Chile: Com guinada à direita, norte do país deve decidir 2º turno

Antigo bastião da esquerda, região votou em candidato de centro-direita que ficou em 3º lugar; Boric e Kast passaram as últimas semanas tentando conquistar seus eleitores

Thaís Ferraz, Enviada especial / Santiago, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

O norte do Chile vai ser decisivo na eleição presidencial do país neste domingo, 19. No primeiro turno, somados os votos de todos os Estados dessa região, nem o candidato Gabriel Boric, da esquerda, nem José Antonio Kast, da direita radical, ganharam. O vencedor foi Franco Parisi, candidato de centro-direita que terminou em terceiro lugar. Agora, seus eleitores podem garantir o resultado no segundo turno da votação mais disputada da história recente chilena.

Todos os Estados conquistados por Parisi ficam no norte do Chile, que inclui Arica y Parinacota, Tarapacá, Antofagasta, Atacama, Coquimbo e o norte de Valparaíso, uma região de climas secos e onde estão as mais ricas jazidas de cobre - minério do qual o Chile é o maior produtor mundial. Historicamente um reduto da esquerda, a região vive uma guinada à direita, tornando-se um verdadeiro campo de batalha para as campanhas de Boric e Kast.

As pesquisas mais recentes indicam que a vantagem de Gabriel Boric sobre Kast tem caído. A última, publicada em dezembro pela Plaza Publica Candem, mostrava que Boric tem 39% das intenções de voto, ante 36% de Kast. A diferença chegou a ser de 9 pontos. De acordo com o levantamento, 38% dos eleitores de Parisi votariam em Boric no segundo turno, e 23% votariam em Kast. 

“Eu chamo de ‘fator Parisi’. Sua base eleitoral é vista desde as eleições presidenciais de 2013, quando alcançou 10,11% dos votos. Ele também é um personagem conhecido na área por seus empreendimentos”, explica a professora da Universidade Católica do Norte Francis Espinoza Figueroa. “Ele ganhou no norte, de modo que esses votos serão significativos para inclinar a balança política.”

Conquistar os eleitores de Parisi, no entanto, não é fácil. O economista conseguiu reunir um leque diverso de votantes. Sua base engloba principalmente eleitores de classes baixa e média, mas também alta, e embora tenha um discurso mais alinhado ao populismo de direita, foi capaz de angariar eleitores de centro e centro-esquerda. Em comum, são pessoas que não se identificam com posições políticas e que desconfiam de candidatos e políticos tradicionais.

“Uma das coisas que mais me chamou atenção em Parisi foi o slogan de ‘não mais direita, não mais esquerda’”, conta Laura Tapia, de 33 anos, psicóloga que mora em Antofagasta, uma das maiores cidades do norte. “Era evidente que aquele era um candidato neutro, que não estava polarizado com nenhum partido.”

Laura se encantou tanto com o candidato que, apesar de votar há apenas 4 anos (no Chile, o voto não é obrigatório), cogitou se filiar ao PDG (Partido de La Gente, de Parisi). Mas ela se decepcionou. “Não tenho provas de que ele se juntou a Kast nos Estados Unidos (onde se encontraram), mas também não tenho dúvidas. Seu discurso mudou e ele passou a expressar ódio pela esquerda, o que não aprovo.”

Kast e Boric tentam atrair eleitores

Historicamente, o Norte do Chile votava à esquerda. Esse cenário mudou nas eleições municipais de 2012, quando o perfil do eleitor se deslocou para uma centro-direita mais pragmática, explica Espinoza Figueroa. Para ela, as características das zonas de mineração e o sacrifício vivido por seus trabalhadores e habitantes tornaram o eleitorado mais desiludido e desacreditado da política tradicional, partidária. “O que temos visto nos últimos anos, nas eleições locais, é uma inclinação a candidaturas independentes.”

Para Espinoza Figueroa, há também o fato de que “a região de Antofagasta é uma das mais neoliberais do país e, portanto, há uma mentalidade mais pragmática que busca candidatos que apresentem ideias práticas e simples como as de Parisi.” Por último, afirma, Parisi se apresenta como um outsider da política, algo muito vantajoso em meio à crise da democracia no Chile. 

Parisi também soube capitalizar algumas questões que a região enfrenta, como o narcotráfico e a imigração. A crise migratória se tornou uma questão eleitoral fundamental na região, por causa do alto índice de migrantes, principalmente venezuelanos. Kast até defende a construção de uma vala e fez da migração o ponto forte de suas campanhas. Ele visitou a cidade de Colchane, epicentro da tensão migratória.

Para o professor de matemática Hector Silva, de 27 anos, eleitor de Parisi, esse foi um dos fatores que contribuiu para seu bom desempenho no norte. “As pessoas da região trabalham, e temos muitos problemas com os imigrantes, ainda que nem todos”, diz. “Eles começaram a gerar problemas de segurança, e Parisi disse que o Chile não tem capacidade para receber tantos”. 

Hector, que é da cidade de Calama, na região do Atacama, se interessou principalmente pela proposta de redução dos salários parlamentares. “No Chile, os políticos aumentam sozinhos seus salários ou doam o dinheiro ao seu partido. Parisi prometeu que, com uma boa distribuição, faria moradias dignas aqui no norte, o que é muito caro”, diz. 

Batalha entre candidatos

As campanhas de Boric e Kast dedicaram atenção especial ao norte no segundo turno. Na primeira semana de dezembro, logo após retornar dos Estados Unidos, onde se encontrou com Parisi, Kast iniciou oficialmente seu giro por regiões em Antofagasta, onde ficou em segundo lugar, atrás do economista, no primeiro turno. Já Boric escolheu a região para encerrar suas viagens nesta terça-feira, 14 de dezembro. 

Para o pesquisador do Centro de Estudios Publicos Aldo Mascareña, Kast tem feito melhor o trabalho de conquistar o eleitorado nortenho. Isso, no entanto, não garante uma virada nas pesquisas, que dão uma pequena vantagem ao candidato esquerdista. “Uma vez que o eleitorado de Parisi não se identifica com posições políticas e é antes uma ‘classe antipolítica’, é provável que muitos deles não se sintam motivados a votar em uma das opções”, diz. “Até certo ponto, o eleitor de Paris é uma espécie de paroquiano: motivado por ele e seu discurso, mas não pela política em geral.”

Para ele, é difícil energizar essa base com politização. “São eleitores que confiam em si próprios muito mais do que aquilo que os políticos podem lhes oferecer”, afirma. “Eles só esperam que o Estado faça seu trabalho reduzindo a incerteza do presente e do futuro: suas principais preocupações são as pensões, o crime e a saúde, como a maioria das pessoas no Chile para o resto.”

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