REUTERS/Henry Romero
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Eleição no Equador tem recorde de indecisos

Recessão econômica e escândalo de corrupção envolvendo a Odebrecht afastam eleitores e principais candidatos à presidência, em disputa no domingo

Luiz Raatz / Enviado Especial, Quito, O Estado de S. Paulo

17 Fevereiro 2017 | 23h15

Lenín Moreno e Guillermo Lasso tentaram até o último minuto da campanha presidencial no Equador mobilizar seus partidários e, principalmente, conquistar eleitores indecisos, que na atual disputa chegaram a números recordes desde a redemocratização do país, em 1979.

Apoiado pelo presidente Rafael Correa, Moreno apresenta-se como o herdeiro de um modelo que se aproveitou da bonança do petróleo para reduzir a pobreza e melhorar a infraestrutura. Ex-banqueiro, Lasso promete tirar o país da atual crise provocada pela queda no preço global da commodity com medidas liberalizantes na economia e um discurso anticorrupção para atrair investimento externo e criar empregos. 

Em Quito, a divisão entre as duas propostas de governo é também geográfica. O sul da cidade, com seus bairros populares que abrigam casas de alvenaria amontoadas desorganizadamente e seu trânsito caótico, está cheio de bandeirolas nas cores azul e verde do Alianza País – o partido criado por Correa e os defensores de sua “Revolução Cidadã”. Conforme se atravessa a cidade encravada na Cordilheira dos Andes rumo ao norte, os prédios ficam mais altos, as avenidas, mais largas, e surgem os cartazes brancos de apoio a Lasso. 

Nos dois lados da cidade, no entanto, os indecisos – que segundo as pesquisas de opinião variam entre 30% e 35% do eleitorado e já chegaram a um número recorde de 52% ao longo da campanha – ainda estudam suas opções. “Eu nunca votaria pelo tipo de direita que há nesse país. Mas também não confio nessa chapa de Moreno e (o candidato a vice Jorge) Glas”, diz Gabriella Orozco, dona de uma mercearia no bairro de La Michelena, reduto correísta no sul de Quito. “Eu sei que o governo se desgastou nesses dez anos. Concordo com o projeto, mas não com os candidatos.”

“Eu não tenho candidato porque tanto faz. Todos quando chegam ao poder querem pegar um pouco para si”, argumenta Carlos Quispe, que trabalha como entregador no Mercado Maior de Quito. “Eu acreditava em Correa, agora só se fala de escândalos. Odebrecht, Petroecuador. Só escândalos.”

Segundo o instituto Cedatos Gallup, 46% da população não está interessada na eleição e 35% do eleitorado ainda não tinha escolhido em quem votar até a semana passada, quando as pesquisas ainda podiam ser divulgadas. “É o reflexo de uma eleição com a ausência de Correa, um candidato do governo fraco e uma oposição fragmentada”, avalia o cientista político Simón Pachano, da Flacso. 

Desde outubro, segundo o Cedatos Gallup, Moreno caiu quatro pontos e tinha na semana passada 32% das intenções. Lasso oscilou para baixo 1,5% e tinha 21,5%. A também opositora Cynthia Viteri foi a que mais subiu ao longo da campanha, saindo de 9,6% para 14%. O esquerdista dissidente Paco Moncayo contava com 7,7%.

Desalento. O próprio Correa, em declarações dadas à imprensa na quinta-feira, disse que a campanha foi “medíocre” e, com exceção da chapa de seu partido, atraiu poucas pessoas. “Foi um festival de mentiras de baixo nível.”

Correa disse também que esperava que a oposição divulgasse “uma bomba” nos últimos dias antes da eleição com o intuito de prejudicar a chapa que ele apoia. Segundo o presidente, seria uma “mentira desesperada” para mudar o resultado das eleições. “Não vão conseguir porque a decisão do povo já está tomada”, disse.

Do lado da oposição, o temor envolve o risco de uma fraude. Em seu comício de encerramento em Guayaquil, na madrugada de hoje, Lasso pediu que seus partidários monitorem os colégios de votação e a apuração. “Não podemos ganhar na urna e perder na mesa”, disse.

Seus eleitores compartilham desse temor. “Muita gente não sabe em quem vai votar e está indiferente por temor de fraude. Eu acho que haverá fraude também, mas votarei em Lasso porque não quero que esse país se transforme na Venezuela”, diz a arquiteta Adriana Palacios. “O problema é que o país está muito polarizado e atravessa uma crise e uma recessão econômica muito grave. As pessoas estão com muita raiva.”

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