Eleição no Irã não mudará nada

Há manobras para que futuro presidente mantenha programa nuclear e política externa

OREN DORELL *,

05 de junho de 2013 | 02h10

Os mulás que governam o Irã estão tomando medidas para garantir que a eleição presidencial no país não altere minimamente a busca de tecnologia nuclear pelo Irã e a ajuda militar do país à ditadura síria.

O líder supremo, Ali Khamenei, usou sua autoridade ditatorial para tirar centenas de candidatos do pleito presidencial do dia 14 e mandou prender vários adversários políticos que lideraram os protestos em massa nas ruas na eleição anterior.

As medidas indicam que a política externa do Irã, provavelmente, não mudará, a despeito das pressões do Ocidente, diz Ray Takeyh, especialista em Irã do Council on Foreign Relations, centro de pesquisa de Washington. Takeyh diz que o Irã está se tornando cada vez mais "uma ditadura com direção clerical", fortalecendo seus poderes autoritários e permitindo menos ingerência pública na maneira como o país é governado.

Na semana passada, o Conselho dos Guardiães barrou da eleição 678 dos 686 candidatos à presidência. Metade dos 12 membros do conselho foi nomeada diretamente por Khamenei, que tem sido explícito sobre a continuidade do programa nuclear iraniano. A outra metade foi nomeada pelo presidente da Suprema Corte do Irã, que também é escolhido por Khamenei.

Os dois candidatos mais fortes são o principal negociador nuclear do Irã, o linha dura Saeed Jalili, e o prefeito de Teerã, Mohamed Baqer Qalibaf, um ex-comandante da Força Aérea e da Polícia Nacional. Ambos são defensores declarados do programa nuclear iraniano.

Embora alguns dos outros seis candidatos aprovados tenham criticado a política externa do presidente Mahmoud Ahmadinejad, impedido pela Constituição de disputar um terceiro mandato, nenhum deles falou abertamente contra o programa nuclear.

Os mulás do Irã mantêm em prisão domiciliar o ex-candidato presidencial Mir Hussein Mousavi, que liderou o Movimento Verde em 2009 contra uma eleição que, segundo a oposição, foi fraudada por Ahmadinejad.

Na época, centenas de milhares de iranianos saíram às ruas em protesto, e o governo respondeu com violência e prisões. A repressão foi liderada pela Guarda Revolucionária, uma força paramilitar subordinada ao Conselho dos Guardiães. Membros dessa força estão atuando na Síria, uma aliada do Irã, na proteção do ditador Bashar Assad contra a rebelião que se alastrou pelo país.

A Guarda tem sido recompensada com benefícios econômicos como o controle de um grande segmento do setor de energia do Irã, o que significa que ela tem interesse em conservar o status quo político. Embora não esteja clara qual a porcentagem da economia iraniana sob poder da Guarda, o número de empresas que ela controla na bolsa iraniana e seu papel na indústria de contrabando do Irã estão aumentando.

Akbar Hashemi Rafsanjani, de 79 anos, um líder da Revolução Islâmica de 1979 e ex-presidente do Irã, defendeu uma redução do controle do governo sobre a economia para aumentar a competição e o comércio. A Guarda Revolucionária reagiu e a candidatura de Rafsanjani à presidência foi uma das rejeitadas.

Está claro, pela política iraniana e por conversas com iranianos que viajam para a Europa, que os cidadãos estão cada vez mais insatisfeitos com o regime e as dificuldades econômicas causadas pelas sanções impostas com o aval da ONU. Mas não é garantido que isso resultará num levante iraniano para derrubar o regime.

Centenas de ativistas políticos têm sido detidos e encarcerados e mais de mil pessoas foram executadas nos últimos anos acusadas de crimes como espionagem, estupro, assassinato e adultério, segundo a Human Rights Watch.

As sanções impostas por ONU, EUA e União Europeia para reduzir as violações nucleares do Irã prejudicam a economia do país, diz Haleh Esfandiari, diretor do Programa para o Oriente Médio do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington. Ele lembra que a moeda iraniana perdeu 40% do seu valor no ano passado.

Alguns membros do Parlamento iraniano criticaram a política externa de Ahmadinejad por prejudicar a economia, mas as sanções não demoveram o regime de seu esforço nuclear. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão das Nações Unidas, diz que o Irã está violando seus acordos internacionais quando se recusa a permitir acesso a suas instalações nucleares. O Irã diz que quer produzir energia nuclear. Os EUA dizem que ele está trabalhando ilegalmente em uma bomba atômica.

Em maio, o Senado americano votou uma resolução pedindo ao presidente Barack Obama que impusesse sanções econômicas mais duras - como impedir o Irã de usar sua receita do petróleo para comprar qualquer coisa exceto alimentos ou remédios.

As medidas recentes de Khamenei sobre a eleição iminente, que inclui as cadeiras para conselhos locais, são um reconhecimento do risco de agitação social provocado por suas políticas. TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.

* OREN DORELL É JORNALISTA.

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