REUTERS/Alaa Al-Marjani
REUTERS/Alaa Al-Marjani

Eleição no Iraque dá poder a clérigo nacionalista e reduz o de milícias pró-Irã

Com 94% das urnas apuradas, resultado mostra vantagem de Moqtada al-Sadr, líder nacionalista que tem popularidade entre as camadas xiitas mais pobres do país

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 18h10

BAGDÁ - A aliança Fatah, de partidos iraquianos que representam milícias xiitas apoiadas pelo Irã, saiu das eleições de domingo no Iraque como a maior perdedora, de acordo com resultados parciais divulgados nesta segunda-feira, 11. Na ponta de cima, o bloco do clérigo populista xiita Moqtada al-Sadr mantém a maioria dos assentos no Parlamento, liderando em várias das 18 províncias do país, incluindo a capital Bagdá. 

Sadr, um líder independente lembrado por comandar uma insurgência contra as forças dos Estados Unidos - o movimento Sadrista - após a invasão de 2003, pode ter aumentado o número de representantes de seu movimento no Parlamento de 54, em 2018, para mais de 70. A Casa é composta por 329 integrantes. 

Derrotada, a aliança Fatah, liderada pelo paramilitar Hadi al-Ameri, havia ganhado destaque durante a guerra contra o grupo extremista Estado Islâmico (EI), que é sunita. A aliança inclui algumas das facções mais linha-dura apoiadas pelo Irã, como a milícia Asaib Ahl al-Haq.

Com 94% das urnas apuradas, nenhum dos blocos políticos parecia no caminho certo para ganhar a maioria no Parlamento e, consequentemente, nomear um primeiro-ministro. Mas se a contagem continuar no ritmo que está, o bloco de Sadr terá um papel de liderança na negociação política para encontrar um candidato e definir a agenda política para os próximos quatro anos. Segundo um porta-voz do movimento Sadrista, o número de cadeiras conquistado foi entre 73 e 75.

"É o dia da vitória contra a corrupção, o terrorismo, as milícias, a pobreza, a injustiça e a escravidão", disse Sadr, comemorando a vitória, durante um discurso televisionado, no qual convidou o povo iraquiano "a comemorar a vitória da maioria".

O clérigo nacionalista é muito popular entre as classes xiitas mais pobres do país e encorajou seus apoiadores a votar no início do dia no domingo e a garantir que todos aqueles com idade para votar na família o fizessem. No extenso distrito de Sadr City, em Bagdá, as seções eleitorais ficaram cheias de uma energia que era marcadamente ausente em outros lugares.

Uma figura célebre, a popularidade de Sadr tem, de certo modo, base na história de resistência da família dele. Seu pai, o grande aiatolá Mohammed Sadiq al-Sadr, foi morto pelo regime de Hussein, e o próprio Moqtada al-Sadr comandou partidários em batalhas sangrentas contra as forças americanas. Seu Exército Mahdi também vagou pelas ruas como esquadrões da morte durante a guerra civil do Iraque, tendo como alvo civis e funcionários públicos.

No domingo, o escritório de Sadr distribuiu vídeos do clérigo chegando para votar em um carro que parecia com o Mitsubishi no qual o pai dele e os irmãos foram baleados. “Isso nos deu uma grande esperança”, disse Ali Abbas, 31 anos, trabalhador da construção civil. "Vimos que ele dirigia o carro do pai."

Baixo comparecimento

Sadr votou em seu reduto na cidade sagrada de Najaf, ao sul de Bagdá. No geral, porém, o movimento de eleitores foi fraco nas assembleias de voto.

A forte abstenção da população na eleição e justificada pelo contexto de um país tomado pela corrupção e ameaçado por facções armadas. Após apuração dos resultados de 94% dos centros de votação, a participação nas urnas foi de 41%, informou a Comissão Eleitoral, em um comunicado, acrescentando que "o número de eleitores foi de 9.077.779".

Esta é a sexta eleição no país desde a invasão de 2003 que derrubou o ditador Saddam Hussein, com a promessa de restaurar a liberdade e a democracia. Cerca de 25 milhões de pessoas foram convocadas para escolher entre 3.200 candidatos ao Legislativo iraquiano.

Durante a votação, a chefe da missão de observação da União Europeia (UE), Viola von Cramon, havia lamentado "uma participação muito fraca". "É um sinal político claro, e esperamos que os políticos e as elites políticas do Iraque ouçam (este sinal)", disse Von Cramon. 

As eleições estavam previstas para 2022, mas foram antecipadas na tentativa de aplacar os protestos iniciados em 2019 contra a corrupção, os serviços públicos precários e a economia estagnada no país rico em petróleo. / AP, AFP e WASHINGTON POST 

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