REUTERS/Thaier al-Sudani
REUTERS/Thaier al-Sudani

Eleição no Iraque tem baixa participação e falta de confiança em mudança pelo voto

Essa é a sexta votação no país desde que a invasão liderada pelos EUA em 2003 tirou Saddam Hussein do poder

Louisa Loveluck e Mustafa Salim / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2021 | 10h00

BAGDÁ – Os iraquianos votaram nas primeiras eleições legislativas no domingo 10, apesar de a fraca participação indicar a profundidade do ceticismo público em relação a se o voto trará mudança. Foi a sexta votação no Iraque desde que a invasão liderada pelos Estados Unidos em 2003 tirou Saddam Hussein do poder, destruiu o Estado e instalou um sistema político que deixou o país mergulhado em corrupção e sem funcionar direito.

O primeiro-ministro Mustafa al-Kadhimi assumiu o cargo no ano passado prometendo eleições antecipadas, depois que protestos em massa levaram à renúncia de seu antecessor imediato, Adel Abdul Mahdi, em 2019. No domingo, os eleitores foram às urnas passando por algumas das mesmas ruas onde as forças de segurança dispararam munição verdadeira contra as multidões e mataram 600 pessoas durante os protestos que duraram meses.

“Saia, vote e mude sua realidade pelo bem do Iraque”, Kadhimi disse às câmeras de televisão depois de votar na extremamente fortificada Zona Verde de Bagdá.

A comunidade internacional enviou centenas de observadores eleitorais e concentrou esforços na prevenção de fraudes.

No Iraque, um antigo inimigo dos EUA é agora uma figura influente nas eleições.

Entre os esforços: Assim que forem usados, os títulos de eleitor eletrônicos devem ser suspensos por 72 horas para evitar que qualquer voto seja lançado duas vezes. Mas há semanas circulam relatos de que os partidos políticos, incluindo os apoiados pelo Irã, estavam comprando votos antecipadamente em troca de roupas ou pagamentos em dinheiro. Os candidatos ligados aos protestos têm enfrentado ameaças com frequência. Alguns foram atacados fisicamente. Bombas foram colocadas do lado de fora das casas de alguns deles.

Por volta do meio-dia de domingo, as autoridades das províncias que monitoram as eleições informavam uma participação de aproximadamente 20%. Pelo menos 77 pessoas foram presas por supostos crimes, disseram militares iraquianos. Mas as irregularidades processuais não parecem ser generalizadas.

As forças de segurança foram espalhadas pelo Iraque, e as forças especiais estavam em alerta máximo. Jatos patrulhavam o espaço aéreo, enquanto as ruas estavam calmas. Embora o Estado Islâmico (EI) tenha sido amplamente derrotado no país, o grupo ainda realiza ataques esporádicos. O EI assumiu a responsabilidade por um carro-bomba na cidade de Ramadi na semana passada.

O Iraque continua sendo um país em crise, com os serviços públicos caindo aos pedaços e a rede elétrica à beira do colapso. Os grupos armados ligados ao Irã e ao clérigo populista Moqtada al-Sadr mataram dezenas de críticos do governo. No sábado, a polícia da cidade de Diwaniya, no sul do país, disse ter encontrado o corpo de um adolescente, Hayder Mohamed al-Zamili, que compartilhou uma tirinha no Facebook comparando os apoiadores de Sadr a ovelhas.

“Como podemos votar nessas circunstâncias”, disse um jovem ativista, com evidente tom de exasperação em sua fala. “Se participarmos dessas eleições, diremos aos assassinos: ‘Ok, nós apoiamos o sistema de vocês’. Mas isso é uma traição a todas as coisas pelas quais lutamos.” Ele falou sob condição de anonimato por temer retaliações.

As eleições estão sendo realizadas sob uma nova lei eleitoral que tem como objetivo dar aos políticos independentes uma chance maior de ganhar assentos. Na prática, os grandes vencedores provavelmente serão os partidos maiores com bases leais, com o partido de Sadr previsto para ser o maior vencedor.

O clérigo encorajou seus apoiadores a votar no início do dia e a garantir que todos aqueles com idade para votar na família o fizessem. No extenso distrito de Sadr City, em Bagdá, as seções eleitorais estavam cheias de uma energia que era marcadamente ausente em outros lugares. “Estamos aqui por Sadr. Ele é o único homem que pode salvar o Iraque”, disse Manshad Hamil, 45 anos, funcionário público.

Uma figura célebre, a popularidade de Sadr é, de certo modo, baseada na história de resistência da família dele. Seu pai, o grande aiatolá Mohammed Sadiq al-Sadr, foi morto pelo regime de Hussein, e o próprio Moqtada al-Sadr comandou partidários em batalhas sangrentas contra as forças americanas. Seu Exército Mahdi também vagou pelas ruas como esquadrões da morte durante a guerra civil do Iraque, tendo como alvo civis e funcionários públicos. No domingo, o escritório de Sadr distribuiu vídeos do clérigo chegando para votar em um carro que parecia com o Mitsubishi no qual o pai dele e os irmãos foram baleados. “Isso nos deu uma grande esperança”, disse Ali Abbas, 31 anos, trabalhador da construção civil. "Vimos que ele dirigia o carro do pai."

Mas em outros lugares da capital, a participação nas seções eleitorais parecia fraca. No distrito de Ur, um local de votação estava tão vazio que os funcionários no local pareceram surpresos quando novos eleitores entraram. Na Praça Tahrir, que já foi o epicentro dos protestos, os rostos dos mortos pintados nos muros fitavam solenemente os que passavam por ali.

Em 2019, a escola Aqeeda, nas proximidades, tinha sido transformada em um hospital de campanha improvisado onde médicos cuidavam de manifestantes feridos. No domingo, ela era uma seção eleitoral. “Achávamos que as multidões seriam maiores que isso”, disse Salem Khalaf, 70 anos, do lado de fora, na rua. Os eleitores chegavam lentamente; poucos eram jovens. “Meus filhos não vão votar. Eles acham que não vale a pena”, disse um amigo de Khalaf, Khalid Rashid, que também tinha votado.  Khalaf concordou com o amigo com a cabeça.

“Tenho cinco filhos e os únicos que votaram estão nas forças de segurança. Os demais apenas disseram ‘de jeito nenhum’”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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