Eleição no Timor Leste tem 86% de participação

Olhar o indicador direito dos timorenses para confirmar se estava marcado com tinta de cor lilás tornou-se um gesto quase automático durante todo o dia de hoje em Timor Leste. Em cada dedo marcado com a tinta estava um eleitor que escolhera entre Xanana Gusmão e Xavier do Amaral para primeiro presidente da República Democrática de Timor Leste.Calcular se eram muitos ou poucos os dedos marcados era tentar responder à pergunta que mais debate suscitou durante todo o ato eleitoral: haveria ou não uma elevada taxa de abstenção? Xavier e Xanana votaram ao mesmo tempo numa escola de Dili. Tiveram de respeitar as regras estabelecidas para todos: depois de inserirem a cédula na urna, colocaram o indicador direito no frasco de tinta.Primeiro, mais demorado, Xavier do Amaral, depois Xanana, que esperou alguns segundos até que o primeiro sentisse que já está suficientemente marcado. Como se votar juntos já não fosse por si um fato histórico e único, Xavier do Amaral e Xanana acabaram soprando os dedos, numa tentativa de secar a tinta.Depois de três eleições em menos de três anos, o uso da tinta foi quase o único sinal de que em Timor Leste a experiência democrática ainda é recente. Depois da confusão das longas filas de 2001, este ano os responsáveis eleitorais montaram sinuosos caminhos até às urnas, marcados com fitas de plástico, para organizar as filas. Como as filas não aconteceram, pequenos grupos de eleitores que foram aparecendo tiveram que fazer todo o percurso até à urna.Xanana e Xavier não quiseram falar aos jornalistas. A explicações de ambos os lados, feitas depois, apontam para uma decisão em conjunto de manter o silêncio. Em claro contraste, e logo pela manhã, José Ramos-Horta mal esperou para entrar na seção de voto e, logo à porta, falou para muitos jornalistas que o esperavam.O único "incidente" do dia foi quando uma jovem de 17 anos tentou desafiar o sistema de prevenção de fraude, tentando votar duas vezes. Ela acabou sendo detida para apresentação ao juiz na segunda-feira. Como herança, fica um processo que "faz inveja a qualquer país do mundo", nas palavras do chefe eleitoral, Carlos Valenzuela - e não apenas pelos elevados 86,3% de participação. Agora resta saber o porquê dos 14% de abstenção. Quem não quiser ser chateado com a pergunta nos próximos dias, vai ter que andar com a mão direita permanentemente no bolso.

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