Mason Trinca/The New York Times
Mason Trinca/The New York Times

Eleição nos EUA: E se o Facebook for uma 'maioria silenciosa' de fato?

Universo de mídia paralelo é quase inacessível aos usuários da centro-esquerda da rede social; na bolha da direita, resposta de Trump à covid-19 é eficiente e Biden mal é capaz de construir uma frase

Kevin Roose / The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2020 | 14h00

Prestem atenção, liberais: se estão achando Donald Trump pode não se reeleger em novembro, precisam passar mais tempo no Facebook.

Desde a eleição de 2016, tenho monitorado obcecadamente como o conteúdo político partidário vem desempenhando no Facebook, a maior e possivelmente a mais influente plataforma de mídia do mundo. Todas as manhãs um dos primeiros navegadores que abro é o CrowdTangle, uma ferramenta de dados do Facebook que fornece uma visão detalhada do que é popular na plataforma. Examino quais os políticos e especialistas que estão viralizando, fico atento aos temas mais em moda. Olho os artigos do dia anterior para saber das reações, compartilhamentos e comentários.

Durante muitos dias os artigos que lideram parecem ser os mesmos: postagens conservadoras com o ocasional intrometido liberal se manifestando (se deseja ver essa lista, cheque @FacebooksTop10, uma conta no Twitter que criei e mostra as 10 postagens que despertaram mais reações diárias dos internautas nas páginas do Facebook).

Não é segredo que, apesar das alegações de Trump de censura do Vale do Silício, o Facebook tem sido uma bênção para ele e seus aliados, e as páginas hiper-partidárias no Facebook não são novas. (Na verdade, meu colega John Hermann escreveu sobre isto há quatro anos).

Mas o que se destaca, quando você investiga a fundo os dados, é o quão dominante o Facebook realmente é. Influenciadores políticos partidários de Trump passaram anos criando uma máquina de mídia bem azeitada envolvendo cada reportagem importante, gerando uma torrente de comentários virais que afogam tanto a mídia tradicional como a oposição liberal.

O resultado é um universo de mídia paralelo que os usuários da centro-esquerda do Facebook poderão nunca encontrar, mas que tem sido espantosamente eficaz no ato de moldar sua própria versão da realidade. Dentro da bolha de direita no Facebook, a resposta de Trump à covid-19 tem sido vigorosa e eficiente, Joe Biden mal é capaz de construir uma sentença e o movimento Vidas Negras Importam é um grupo perigoso de saqueadores violentos.

Trump e seus apoiadores apostam que, embora ele esteja atrás de Biden nas pesquisas, uma “maioria silenciosa” o levará à reeleição. Donald Trump Jr., o filho mais velho do presidente e que está mais online, discursou na Convenção Nacional Republicana esta semana. E embora eu não seja analista político, conheço bem esse ambiente de mídia moderno para saber que um exame das preferências reveladas pelas pessoas – o que elas realmente leem, assistem e clicam quando ninguém está olhando – com frequência é um indicador de como agirão muito melhor do que entrevistá-las em jantares ou ouvir o que afirmam para um órgão de pesquisa.

Talvez a “maioria silenciosa” de Trump só parece silenciosa porque não estamos examinando seus feeds no Facebook.

'Dois países'

“Vivemos em dois países diferentes neste momento”, avaliou Eric Wilson, estrategista digital republicano e diretor da campanha de Marco Rubio em 2016. O ecossistema de mídia do Facebook, disse ele, é “um imenso ponto cego para pessoas que se se interessam mais pelo que aparece na capa do The New York Times e a notícia do dia nos jornais da CNN”.

Claro que o Facebook não é a única mídia onde o conteúdo de direita floresce. Milhões de americanos ainda procuram se informar em notícias por cabo e programas de rádio, onde as vozes conservadoras são dominantes há anos. Muitos influenciadores pró-Trump no Facebook também têm uma forte presença no Twitter, no YouTube e em outras redes sociais.

Mas o predomínio da direita no Facebook, especificamente, é algo a contemplar. Esses dados incluem somente postagens em páginas públicas, em grupos públicos e por contas verificadas, e não incluem anúncios do Facebook, área onde a campanha de Biden vem gastando mais do que a de Trump nas últimas semanas.

Contar as interações no Facebook não vai lhe dizer como alguém reage no tocante a uma postagem, de modo que é possível que alguns comentários conservadores estejam sendo compartilhados como de ódio por liberais. E o Facebook tem alegado que engajamento não é a mesma coisa que popularidade.

“Parece mais como as pessoas se envolvem com o conteúdo, o que não deve ser confundido com a maneira como as pessoas realmente o veem no Facebook”, disse Joe Osborne, porta-voz da companhia. Osborne acrescentou ainda que “quando você examina o conteúdo que tem mais alcance no Facebook, ele não é de modo nenhum partidário como esta reportagem sugere”. (O Facebook não revela este tipo de dados publicamente, exceto de vez em quando em resposta aos meus tuítes).

Os democratas não estão totalmente ausentes do alto escalão do Facebook. Ridin’ With Joe Biden, uma página pró-Biden lançada em abril pelos fundadores da página liberal do Facebook Occupy Democrats, quadruplicou o número de seguidores nos últimos três meses e rotineiramente obtém mais agregados do que o Breitbart e outras páginas que são pesos pesados da direita. Postagens individuais de Bernie Sanders, Barack Obama e outros democratas de prestígio também surgiram nas últimas semanas.

E os responsáveis pelas campanhas políticas têm sublinhado, corretamente, que ser popular na Internet não é garantia de sucesso eleitoral. Além disto, a base de usuários mais velha e mais conservadora talvez não reflita o que acontece em plataformas como Instagram e TikTok que atraem uma comunidade mais jovem.

Mas a escala impressionante da plataforma é vital para entender. A partir de 2019, 70% dos americanos adultos usaram o Facebook e 43% leem notícias nessa plataforma, segundo o Pew Research Center (Esses números aumentaram por causa da pandemia). Sabemos que as decisões de produto da companhia são decisivas para os movimentos políticos transformarem ideias marginais em temas predominantes ou amplificar a polarização partidária.

O registro de quatro milhões de eleitores antes da eleição de novembro, como o Facebook anunciou que o faria, poderá criar uma força decisiva por si própria (Normalmente, mais eleitores beneficiam os democratas, mas diante do que sabemos sobre o consumo de mídia de usuários hiperativos no Facebook, quem sabe?).

A razão pela qual o conteúdo de direita tem um desempenho tão bom no Facebook não é nenhum mistério. A plataforma está projetada para amplificar postagens que repercutem emocionalmente e os comentaristas conservadores são especialistas em transformar ressentimentos acalorados em material poderoso para algoritmos. A companhia também parece disposta a distorcer suas regras em favor de influenciadores conservadores populares. Segundo uma recente notícia da NBC News, citando um informe interno vazado,  executivos do Facebook haviam removido o termo “ataques” das contas de diversas páginas de conservadores destacados que compartilharam desinformação viral violando as regras da empresa.

Nos últimos anos, tenho encarado meu mergulho diário nos dados do Facebook como uma espécie de sistema de alarme – um calibrador do que está prendendo a atenção dos EUA num determinado dia, e que histórias e perspectivas provavelmente surgirão com força nos dias seguintes.

E examinar o ecossistema de mídia político distorcido pode ser um meio útil de checagem da realidade para os democratas que acham que Biden caminha para uma vitória em novembro.

Afinal, a popularidade em aumento de Trump mostrada online foi também exibida antes de aparecer em qualquer pesquisa em 2016. E embora muita coisa sobre o Facebook e a política americana tenha mudado nos últimos quatro anos, as leis básicas da física da mídia social ainda se aplicam. A controvérsia vence. O negativo bate o positivo. Toda atenção parece boa para um algoritmo.

Brad Parscale — diretor digital da campanha de Trump em 2016 – disse no programa 60 Minutos que, de tudo o que Trump fez naquele ano, o que mais teve efeito de fato foi o Facebook. “Facebook foi o método. Foi a estrada que ele seguiu com seu carro. E essa estrada ainda está aberta". 

E neste momento os carros mais rápidos que passam por ela exibem adesivos MAGA (Make America Great Again). / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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