Eleição opõe novamente América Latina e EUA

Washington prefere Martelly, que tem ligação com diáspora em Miami, e latino-americanos torcem por ex-primeira-dama

, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

Um ano após o terremoto, o Haiti vive uma crise política que pode complicar os esforços de reconstrução do país. O presidente René Préval resiste em aceitar a revisão da Organização dos Estados Americanos (OEA), que muda o resultado do primeiro turno ao retirar o candidato governista da corrida. De olho na disputa sem o aliado do presidente, a América se divide sobre quem teria mais condições de liderar o Haiti.

Segundo diplomatas ouvidos em condição de anonimato pelo Estado, os EUA apoiam o cantor Michel Martelly, beneficiado pelas conclusões da OEA. Do outro lado, países latino-americanos preferem a ex-primeira-dama Mirlande Manigat, que até o momento lidera a corrida.

A comissão da OEA, solicitada pelo próprio Préval para apurar os graves indícios de fraude, concluiu que Martelly superou em 0,3% o número de votos do governista Jude Celestin. O Conselho Provisório Eleitoral do Haiti havia colocado Martelly em terceiro, portanto fora da disputa, resultado que causou uma onda de violência por parte dos partidários do cantor.

Cabe agora ao presidente haitiano escolher entre eliminar seu próprio candidato ou isolar-se ainda mais da comunidade internacional. "Martelly tem vínculos profundos com a diáspora haitiana na Flórida", afirmou um diplomata que acompanha de perto a política haitiana. No dia do terremoto, o cantor estava em Miami e fez campanha entre americanos para arrecadar fundos para as vítimas.

Outro elemento que aproxima Martelly dos EUA é o apoio do também cantor Wyclef Jean, haitiano criado em Nova York que tentou concorrer à presidência, mas teve sua candidatura impugnada. Wyclef deixou o Haiti aos 9 anos, mas sua campanha após o terremoto o transformou em herói nacional. "Uma presidência de Martelly teria maior sintonia com Washington e com grupos haitianos nos EUA", resume outro diplomata.

Já Manigat é bem vista por vários países latino-americanos justamente por ser mais distante de Washington. Professora, ela é casada com o ex-presidente Leslie Manigat, eleito em 1988, mas derrubado no mesmo ano por um golpe militar.

Embora no Haiti as linhas ideológicas fiquem em segundo plano, curiosamente o candidato mais próximo dos EUA adota um discurso populista, enquanto a preferida dos latino-americanos prega uma plataforma de centro, com ênfase na promoção da iniciativa privada.

Os dois candidatos se dizem favoráveis à presença da missão de paz da ONU, cujo contingente militar é liderado pelo Brasil. Tanto Washington quanto os países da América Latina, porém, concordam que o pior cenário seria a formação de um governo visto pelos próprios haitianos como ilegítimo. Sem um poder central atuante, a coordenação dos esforços de reconstrução ficaria novamente inviável.

O segundo turno das eleições deveria ter sido realizado ontem, mas o impasse provocado pela fraude na votação inicial impediu a votação. A estimativa é que a segunda parte do processo eleitoral seja realizada um mês após Préval aceitar o relatório da OEA. Há a expectativa de que o presidente haitiano se pronuncie ainda hoje sobre o futuro político do país.

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