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Eleição paraguaia marca retorno das oligarquias

Depois de uma ruptura com Fernando Lugo, colorados e liberais voltam a disputar o poder no país mais pobre do Cone Sul

Roberto Simon, enviado especiaç / Assunção, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h04

Ao menos uma parte do resultado das eleições de hoje no Paraguai já é conhecida desde a queda do presidente Fernando Lugo, há 1o meses: vença o colorado Horacio Cartes ou o liberal Efraín Alegre, o mais pobre país do Cone Sul retornou à centenária oposição entre duas oligarquias. É esse o Paraguai que deve ser recebido de volta no Mercosul a partir de agosto, quando toma posse o próximo presidente do país.

Apesar das acusações de envolvimento com o narcotráfico e outros crimes, o multimilionário Cartes era o grande favorito na corrida presidencial quando seu Partido Colorado se uniu aos liberais para derrubar Lugo, em junho. No entanto, Alegre, senador que foi ministro de Obras Públicas do ex-bispo, conseguiu reduzir a vantagem em uma intensa campanha para expor as supostas malfeitorias do rival.

"Cartes é o Paraguai do contrabando e da máfia; nós, o do agronegócio e da industrialização", disse o liberal ao Estado (mais informações nesta página). O candidato colorado, por outro lado, declinou os pedidos de entrevista. Como as pesquisas de intenção de voto no país não são confiáveis, poucos em Assunção ousam prever o resultado de hoje.

"Essa eleição prova que estavam errados aqueles que viram a eleição de Lugo, em 2008, como o fim da oposição entre as velhas oligarquias paraguaias, organizadas entre colorados e liberais", afirma Susana Aldana Amabile, da ONG de ação cívica Decidamos. "Hoje, a conclusão é que aquele governo foi apenas um breve intervalo na nossa história."

"A novidade dessas eleições é que os papéis entre colorados e liberais estão invertidos", aponta Susana. Os primeiros dominaram o poder por mais de seis décadas, até 2008, e sempre foram às urnas com uso de amplos recursos da máquina estatal. Quem governa desde a queda de Lugo, entretanto, são os liberais.

Riscos. Para que o status de Assunção no Mercosul volte ao normal, no segundo semestre, é preciso que as centenas de observadores internacionais no país certifiquem que a votação de hoje foi limpa. Tendo em vista a tradição política paraguaia, a tarefa não é das mais fáceis.

Em Chacarita, bairro pobre no centro de Assunção, não é difícil escutar relatos sobre venda de votos em massa. Moradores afirmam que funcionários das legendas oferecem dinheiro e comida; às vezes, pagam metade da quantia depois, ao conferir a lista de votação - todos os mesários são filiados a partidos.

Os habitantes de Chacarita, porém, temem falar abertamente sobre o tema. "Aproveitamos dos políticos uma vez para, depois, eles se aproveitarem de nós o ano inteiro", explica uma senhora.

Uma pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgada há duas semanas concluiu que um em cada quatro eleitores paraguaios foi transportado até centros de votação pelos chamados "operadores" dos partidos.

Esses funcionários também compram votos de comunidades inteiras, sobretudo em regiões mais pobres, negociando com líderes conhecidos como "punteros". A Igreja paraguaia lançou um apelo aos fiéis, na semana passada, dizendo que vender votos é "pecado".

Renate Weber, eurodeputada romena que chefia a missão de observadores da União Europeia, pondera que há vários tipos de interferência nas urnas, mas nem todas minam a credibilidade da votação. "O Estado paraguaio não está presente em várias regiões, como, por exemplo, no Chaco" afirma ela. "Os partidos, portanto, se ocupam de transportes e coisas básicas." No outro extremo, há a compra de cédulas, troca de votos por comida e violações graves. Na quinta-feira, foi divulgado na internet um vídeo de um senador colorado tentando pagar liberais para não irem votar. Silvio Ovelar, que acabou suspenso do Congresso, disse que estava tentando expor a corrupção dos rivais, mas "o caçador virou a caça".

"Há ainda problemas estruturais", afirma Renate, como o fato de os juízes do Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (TSJE) serem escolhidos pelos partidos, de acordo com o poder de colorados e liberais no Congresso.

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