Juan Calero / Reuters
Juan Calero / Reuters

Eleição parlamentar na Venezuela coloca legitimidade de Guaidó em xeque

Chavismo se prepara para recuperar no domingo o controle do Parlamento em eleições boicotadas pelo líder opositor e seus aliados, que ficarão à deriva

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2020 | 07h00

CARACAS - O chavismo se prepara para recuperar no domingo o controle do Parlamento da Venezuela em eleições boicotadas por Juan Guaidó e seus aliados, que ficarão à deriva.

A autoridade eleitoral, nomeada pela Suprema Corte ligada ao governo, convocou mais de 20 milhões de venezuelanos a votar no questionado processo que renovará a unicameral Assembleia Nacional, que por sua vez amplia de 167 a 277 seu número de cadeiras.

"Se vocês vencerem, eu vou embora", afirmou o presidente Nicolás Maduro no encerramento da campanha, certo da vitória e em uma mensagem aos adversários.

O Parlamento é o único poder controlado pela oposição, que em 2015 rompeu 15 anos de hegemonia chavista.

Embora Maduro tenha neutralizado o Parlamento com seu domínio institucional foi a partir da posição de presidente do Congresso que Guaidó não reconheceu a reeleição do chefe de Estado socialista em 2018, que chamou de "fraudulenta", e se proclamou presidente encarregado da Venezuela no início de 2019, com reconhecimento de mais de 60 países, incluindo os Estados Unidos.

As eleições parlamentares estavam programadas para 2020 pela lei, mas Guaidó e os principais partidos políticos opositores denunciam a falta de condições para uma votação "livre, verificável e transparente".

A oposição convocou de modo paralelo uma espécie de plebiscito, de 7 a 12 de dezembro, para manter a "continuidade" do mandato do atual Legislativo, iniciativa que será ignorada pelo chavismo, que se prepara para a retomada da Câmara em 5 de janeiro.

"O objetivo de Maduro nem sequer é ganhar legitimidade, e sim aniquilar a alternativa democrática na Venezuela", disse Guaidó à agência France Presse esta semana. 

Porém, Luis Vicente León, diretor do instituto de pesquisa Datanálisis, considera que Maduro "valida uma instituição que pode ser útil diante de seus aliados".

"Não estão buscando que Estados Unidos, que a Europa o reconheçam... Estão buscando que a China sinta que existem instituições que podem apoiar acordos, por exemplo, petroleiros ou de infraestrutura", explica.

O mesmo se aplica para relações com países como Rússia, Índia, México ou Turquia, acrescentou León.

Guerra de percepção

O chavismo mobilizou toda sua máquina, em plena pandemia de covid-19, com o objetivo de estimular a participação nas eleições, que devem ter uma elevada abstenção. Os institutos calculam entre 30% e 34% de participação. 

Para Félix Seijas, diretor do instituto Delphos, a eleição de domingo será "uma guerra de percepção", na qual triunfará quem conseguir transmitir sua mensagem: a oposição, centros de votação vazios; o governo, tudo ao contrário.

O discurso dominante, com a ajuda dos infinitos recursos de comunicação do governo socialista, pode tentar vender a imagem de grande participação. A vitória, no fim das contas, "está no bolso", afirmou Seijas.

A situação é muito difícil para a oposição, dividida entre os grandes partidos aliados a Guaidó e uma ala dissidente.

As maiores organizações opositoras optaram pela abstenção depois que a Justiça designou novos juízes eleitorais, uma prerrogativa do Parlamento; mas a Justiça também entregou a direção dos principais partidos a rivais do presidente do Legislativo.

O setor opositor que rompeu o boicote foi acusado de "colaboracionista", mas será beneficiado por "um voto de castigo a Maduro e a Guaidó", cuja popularidade caiu consideravelmente, afirma León.

O bloco liderado por Guaidó apostou todas as fichas no apoio da comunidade internacional e nas sanções econômicas contra a Venezuela para pressionar Maduro, que tem, segundo o Datanálisis, uma rejeição de 71%.

Contundência

O governo dos Estados Unidos já anunciou que não reconhecerá as eleições, assim como outros países. "Mas com que contundência?", questiona Seijas. "Se a rejeição não for contundente, o ânimo da oposição vai cair ainda mais."

Washington, com o novo governo de Joe Biden, deve permanecer alinhado com Guaidó, enquanto a União Europeia tentou sem sucesso adiar as eleições.

León, no entanto, destaca que alguns governos europeus hesitam em dar a Guaidó carta branca para um período interino "ad infinitum". “Eles sentem que falar de um reconhecimento indeterminado, sem eleições, sem validação, é como nomear um imperador”, disse.

A situação piora com as divisões na oposição. "Estão oferecendo uma abstenção que não leva a absolutamente nenhum outro lado que o próprio em que já está, disse León. "A única coisa que conseguirão preservar é um governo interino que é simbólico"./AFP 

 

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