Alessandro Cinque/REUTERS
Alessandro Cinque/REUTERS

Eleição peruana, indefinida, leva a democracia ao seu limite, dizem analistas

Tensão no processo eleitoral está exacerbando as fissuras em uma sociedade profundamente dividida e aumentando a preocupação com o futuro do país

Mitra Taj e Julie Turkewitz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2021 | 08h00
Atualizado 11 de junho de 2021 | 12h08

LIMA - O Peru passou por um ano de profunda turbulência: teve três presidentes, sofreu uma das maiores taxas de mortalidade por coronavírus do mundo e viu sua economia encolher mais do que qualquer outra na região sob o peso da pandemia. Muitos no país esperavam, contra todas as probabilidades, que a eleição presidencial do último domingo oferecesse um novo começo. Em vez disso, quase uma semana após a votação, o Peru é novamente dominado pela incerteza.

A apuração do segundo turno da eleição no Peru caminha para o fim, com o candidato da esquerda radical Pedro Castillo com 50,19% dos votos, contra 49,81% da conservadora Keiko Fujimori - uma diferença de 66 mil votos, ou 0,38 ponto porcentual.

O resultado final ainda não foi declarado pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe, em espanhol), porque pouco menos de 0,7% dos votos ainda têm de ser validados.

Como a cédula, no Peru, é de papel, pode haver alguma rasura ou dado incorreto em parte desses votos. Pelo fato de a margem de Castillo ser muito estreita, uma mudança nesse porcentual ainda poderia, em tese, alterar o resultado da eleição, mas essa hipótese é improvável do ponto de vista estatístico. 

Agora, os delegados eleitorais do Onpe reavaliarão essas cédulas com problemas, voto a voto, para determinar se eles podem ser computados ou não. Nessa categoria entram votos incompletos, sem dados, impugnados ou rasurados. Em paralelo,  Keiko pede  anulação de cerca de 200 mil votos, sob a alegação de fraudes. O primeiro pedido, na província de Cajamarca, foi invalidado por autoridades eleitorais. 

Resta apurar apenas 608 urnas, que estão sendo analisadas pelo Júri Eleitoral Especial (JEE) devido a diversos questionamentos, erros materiais ou falta de assinaturas, entre outros motivos. Apenas metade destas urnas procedem de áreas onde Keiko Fujimori é a candidata mais votada, quase todas em Lima (273), enquanto as restantes eram de áreas onde Castillo foi claramente o vencedor.

A apuração levou quatro dias para ser concluída e os votos que garantem, por enquanto, a estreita margem de Castillo vieram de áreas rurais e andinas. Os votos do exterior, em sua maioria pró-Keiko, não foram suficientes para alterar a vantagem do esquerdista.

Keiko alega fraude e pede que até 200 mil votos sejam anulados - uma medida que prejudicaria muitos eleitores pobres e indígenas. Castillo pede a seus apoiadores irem às ruas para defender esses votos. A tensão está levando a democracia ao limite, disseram analistas, exacerbando as fissuras em uma sociedade profundamente dividida e aumentando a preocupação com o futuro do país.

“O Peru está enfrentando esta guerra nuclear na qual os políticos acreditam que os fins justificam os meios”, diz o cientista político Mauricio Zavaleta. Com 99% dos votos apurados, Pedro Castillo, um ex-professor de esquerda sem experiência anterior em governança, lidera contra Keiko Fujimori, filha do ex-presidente de direita Alberto Fujimori e símbolo do establishment do país, por cerca de 70 mil votos.

Fujimori pediu às autoridades que anulassem milhares de votos, alegando, sem evidências concretas, que o partido de seu oponente violou o sistema de votação "de forma sistemática". Autoridades eleitorais e observadores dizem que até o momento não foram apresentadas evidências de fraude sistemática, e analistas dizem que o esforço de Fujimori provavelmente não mudará os resultados a seu favor. 

As autoridades eleitorais têm até este sábado, 12, para analisar os pedidos do partido de Fujimori, que acusa os apoiadores de Castillo de vários tipos de atividades ilegais, incluindo a alteração da contagem de votos em seu favor. As assembleias de voto estão em regiões onde Castillo venceu com fortes margens - principalmente áreas rurais andinas pobres e historicamente marginalizadas, incluindo a cidade natal de Castillo.

Na quinta-feira, uma multidão de apoiadores de Castillo se reuniu em frente ao escritório da autoridade eleitoral nacional. Alguns viajaram de muito longe e disseram estar frustrados e preocupados com a tentativa de Fujimori de roubar a eleição. “Defenda o voto”, alguns cantavam.

“Estas são as eleições mais desastrosas que já vi”, disse Antonio Gálvez, 37, um motorista de táxi que trabalhava perto do protesto. "Keiko Fujimori representa tudo o que há de ruim na política peruana."

Na quinta-feira, a crise se intensificou quando um promotor pediu a um juiz que prendesse Fujimori, que enfrenta acusações de corrupção anteriores às eleições. Acusada de dirigir uma organização criminosa que traficava doações ilegais para campanhas, ela pode ser condenada a 30 anos de prisão. Detida e libertada três vezes durante o processo, ela agora é acusada pela promotoria de ter entrado em contato com testemunhas do caso. Se Keiko ganhar a eleição, será protegida do processo durante seu mandato de cinco anos. 

Aprofundando as diferenças

Apesar das taxas de crescimento econômico consistentes nas últimas duas décadas, o Peru continua sendo uma nação profundamente desigual e dividida, com a população mais rica e mais branca de suas cidades colhendo a maioria dos benefícios de um modelo econômico neoliberal implantado na década de 1990 pelo pai de Fujimori.

Quando a pandemia atingiu o Peru, exacerbou essas lacunas sociais e econômicas, atingindo com mais força aqueles que não podiam parar de trabalhar, que viviam em condições precárias ou que tinham acesso limitado aos cuidados de saúde em um país com uma rede de segurança fraca.

As eleições seguiram as mesmas linhas econômicas, raciais e de classe, com Fujimori obtendo a maior parte de seu apoio das áreas urbanas e Castillo encontrando sua base nas terras altas rurais, onde vivem mais mestiços e indígenas peruanos.

O cientista político Zavaleta disse pensar que o caos da eleição, incluindo as tentativas de Fujimori de derrubar os votos, “aprofundou as diferenças entre os peruanos”. “E acredito que terá efeitos relativamente duradouros”, continuou ele.

Do lado de fora da autoridade eleitoral na quinta-feira, Max Aguilar, 63, disse que viajou horas de ônibus, da cidade de Chimbote, para defender Castillo. “Acreditamos que a extrema direita já teve tempo suficiente para nos mostrar que as coisas podem ser melhores - e eles não o fizeram”, disse ele. “Então nós, o povo, estamos dizendo não, isso é o suficiente. E apostamos na mudança. Temos muita confiança no professor Castillo.”

 

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