Eleição pode abrir era de mudança na ilha

Nova Assembléia escolherá o Conselho de Estado, presidido por Fidel, que dá sinais de que deixaria o cargo

Vera Rosa, HAVANA, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2008 | 00h00

Na Calle Gervasio, em Havana, um cartaz pendurado num portão dos anos 50, também usado como varal para roupa, anuncia o fato político mais importante do dia: ''''Voto Unido. Pela Revolução e pela Pátria.'''' A chamada para as eleições parlamentares de hoje, que vão renovar a Assembléia Nacional do Poder Popular, segue com todas as letras o mandamento do líder cubano, Fidel Castro. Doente e afastado do poder há um ano e meio, Fidel prega o ''''voto unido'''' - em todos os candidatos que figuram na cédula - como demonstração de apoio à revolução e ao socialismo.As ruas de Havana estão repletas de convocações assim, ensinando a votar ''''sem mestres nem imposições'''' em 614 candidatos a deputado - enfileirados na cédula de cor verde - e nos delegados das 14 assembléias provinciais, apresentados em cédulas brancas. Apesar da propaganda, trata-se de uma campanha em que todos já sabem o resultado da eleição, feita sob medida para preservar o regime de Fidel.''''Aqui a população não é comunista: é fidelista'''', resumiu um motorista de táxi que se identificou como Thomaz, numa referência ao carisma do comandante-chefe.Na prática, porém, a ''''disputa'''' de hoje também abre caminho para a mudança, ainda que gradual. Motivo: a nova Assembléia Nacional terá como tarefa escolher, em março, os integrantes do Conselho de Estado, presidido por Fidel desde sua criação, em 1976.Até no Partido Comunista já se discute a conveniência de reconduzir o líder da Revolução Cubana de 1959 ao comando do Conselho, diante de sua impossibilidade de governar. Por enquanto, uma das alternativas em estudo consiste em manter Fidel no Conselho, mas não na presidência, e preparar sua sucessão. -Foi o próprio Fidel, de 81 anos, que começou a abordar a questão suas ''''reflexões'''', ainda no ano passado. ''''Meu dever elementar não é aferrar-me a cargos, ou muito menos obstruir a chegada de pessoas mais jovens, e sim aportar experiências e idéias cujo modesto valor procede da época excepcional que me coube viver'''', escreveu ele, numa de suas mensagens. ''''É preciso ser conseqüente até o final'''', emendou, ao lembrar pensamento do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. O cenário, no entanto, ainda é de incertezas e sinais contraditórios.Um dia depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter saído de longa conversa com Fidel, em Havana, garantindo que ele está com ''''saúde impecável'''' e ''''pronto para assumir o papel político que tem na história'''', o presidente, afastado do cargo desde 31 de julho de 2006, o desmentiu.Na quarta-feira, em artigo publicado no Granma - jornal oficial do Partido Comunista - Fidel explicou por que não fazia campanha para as eleições de hoje, apesar de ter sido indicado candidato pelo município de Santiago de Cuba. ''''Não tenho a capacidade física necessária para falar diretamente aos vizinhos do município onde me indicaram para as eleições'''', admitiu. ''''Faço o que posso: escrevo.''''Mesmo afastado, porém, ele continua a fazer prognósticos. No mesmo artigo, depois das costumeiras estocadas no presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e de repisar sua preocupação com o binômio combustível versus produção de alimentos, Fidel escreveu que o Brasil poderá ser a ''''tábua de salvação'''' num futuro de crise.''''O Brasil, que se auto-abastece de combustível e possui abundantes reservas, sem dúvida escapará desse dilema (...) Essa república irmã desfruta de três climas diferentes. Cultivam-se ali quase todos os alimentos. Não sofre com ciclones tropicais. Unida à Argentina, poderia ser a tábua de salvação para os povos da América Latina e do Caribe, incluindo o México, mesmo que não haja garantia de segurança para esses povos, porque estão à mercê de um império que não admite essa união'''', avaliou Fidel.Para o governo brasileiro, Cuba é um ''''mercado em expansão'''', além de entreposto com localização privilegiada, próximo do Estado americano da Flórida. De olho nesse alvo, Lula está disposto a pegar o primeiro trem da abertura comercial no cenário da sucessão de Fidel. Sabe, porém, que a transição não será radical na ilha.Em conversas com cubanos, são os pequenos sonhos que chamam a atenção.Eles querem apenas liberdade para ir e vir, salário, emprego. Dos 614 candidatos a deputado, 374 nasceram após a Revolução Cubana e só 17% conheceram o capitalismo.

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