Eleição põe poder de Mugabe em xeque

Há 33 anos no cargo, presidente diz que está preparado para mais um mandato de 5 anos

LYDIA POLGREEN, THE NEW YORK TIMES / HARARE, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2013 | 05h52

Quando os candidatos presidenciais do Zimbábue tentaram importar motocicletas para facilitar o registro de eleitores, o governo as apreendeu, obrigando o partido opositor a usar bicicletas. Logo depois, o opositor mais importante foi preso a uma semana da votação e sua fiança foi negada. Neste ambiente, não exatamente livre, milhares de zimbabuanos começaram a votar ontem na mais importante eleição da história do país.

O presidente Robert Mugabe, que governa o país desde o fim do domínio dos brancos, em 1980, ainda controla a polícia, que matou mais de 200 pessoas na campanha de 2008. Agora, perto dos 90 anos, ele voltou a se candidatar e há escassos sinais de que esteja disposto a abrir mão do poder depois de 33 anos. "Oitenta e nove anos não são nada", disse Mugabe. "Por acaso mudei? Nem fiquei enrugado. Nem fiquei senil. Ainda tenho ideias que precisam ser aceitas pelo meu povo."

O fato mais marcante foi a ausência da violência que caracterizou a votação em 2008, quando Mugabe derrotou o sindicalista Morgan Tsvangirai, do Movimento pela Mudança Democrática (MDC, na sigla em inglês). A eleição foi para o segundo turno, mas Tsvangirai se recusou a participar em protesto contra a repressão.

Cinco anos depois, os candidatos são os mesmos e, apesar da calma, ainda paira no ar o temor de fraude. Mugabe parecia confiante logo após votar. Questionado se cumpriria mais um mandato de cinco anos, ele foi seco. "Por que não?"

Mas, mesmo com a experiência das eleições passadas, Edison Masunda não tinha medo quando foi ao último comício da oposição, na segunda-feira. "Quero ver um novo Zimbábue", afirmou Masunda, mecânico desempregado. "Mugabe precisa sair. As pessoas vão se manifestar".

O pleito de ontem foi realizado com urgência e com um orçamento limitado porque Mugabe quis que ocorresse até o fim de agosto. O registro de eleitores não chegou a ser concluído e, dois dias antes da eleição, ainda não havia uma lista final, conforme a lei exige.

O governo proibiu a entrada de observadores ocidentais, mas a União Africana e o bloco regional, a Comunidade Sul-africana de Desenvolvimento, puderam monitorar a votação.

Ao contrário da última eleição, em que maioria dos jornalistas estrangeiros foi impedida de acompanhar, a mídia social teve uma atuação muito importante nesta campanha. Tanto o partido de Mugabe, o Zanu-PF, quanto o MDC usaram o Twitter e o Facebook para transmitir as notícias. Foram criados sites para monitorar irregularidades e os candidatos pediam que os eleitores usassem os celulares para informar abusos.

A ausência do clima de violência parece ter encorajado muitos a apoiar abertamente Tsvangirai. Divisões no partido de Mugabe também contribuíram para enfraquecê-lo. "A própria casa de Mugabe está em desordem", disse Pedzisai Ruhanya, pesquisador do Instituto da Democracia do Zimbábue. "As pessoas estão convencidas de que podem dizer o que pensam."

Mas talvez isto não se traduza em vitória para os opositores, mesmo que obtenham a maioria dos votos. Segundo um veterano analista, os observadores estão procurando casos de violência, não as fraudes. "Da última vez, o clima era de intimidação e violência", afirmou. "Desta vez, as fraudes ocorreram por questões técnicas, como a lista de eleitores."

Mugabe sobreviveu a todos os nacionalistas africanos. Na terça-feira, ele falou de suas realizações em tom de despedida. "Se quiserem me condenar, me condenarão", disse. "Ninguém é perfeito. Também cometo erros." Após a batalha eleitoral de 2008, Mugabe e Tsvangirai formaram uma aliança, com o opositor no cargo de premiê. O governo abandonou a moeda e adotou o dólar americano, conseguindo deter a hiperinflação. Entretanto, reformas da polícia e do Exército nunca ocorreram. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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