Eleição presidencial na Colômbia se converte em referendo sobre as Farc

Tudo ou nada. Aposta alta de Juan Manuel Santos, diálogo com a guerrilha se impõe como ponto-chave da sua campanha à reeleição; ao mesmo tempo, futuro das conversações, que nunca chegaram tão longe, dependerá dos resultados do próximo domingo

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2014 | 02h04

A eleição presidencial na Colômbia consolida-se, na reta final, como um referendo sobre o diálogo entre governo e Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Somando avanços sem precedentes, as conversações de paz têm se mostrado determinantes para o futuro do presidente Juan Manuel Santos. Ao mesmo tempo, o sucesso delas está ligado a um segundo mandato do líder.

Nessa relação de interdependência, os dois lados parecem correr contra o tempo. Na sexta-feira, depois de meses de negociação, eles anunciaram a conclusão do acordo sobre o ponto de número 4 e um dos mais delicados entre os seis da agenda estabelecida em 2012 (o que trata do cultivo, consumo e produção de drogas ilícitas). Outros dois já foram concluídos. O anúncio era esperado para a próxima quinta-feira, mas foi feito um dia depois da pesquisa Cifras y Conceptos apontar uma votação acirrada no próximo domingo, mostrando um inevitável segundo turno entre Santos e Óscar Iván Zuluaga.

A campanha dos dois, segundo analistas ouvidos pelo Estado, dividiu os eleitores entre os que apoiam as conversações de paz e os que são favoráveis a uma solução militar.

"O voto para Zuluaga é o voto pelo fim do diálogo e o voto para Santos é para a continuação dele", afirmou Adam Isacson, especialista em Colômbia do centro de estudos Washington Office on Latin America (Wola), em Washington.

Zuluaga deixou claro que o diálogo com a guerrilha - responsável pelo conflito armado mais longo da América Latina - somente continuaria sob suas condições. Uma delas é a punição dos chefes do grupo, como lembrou Carlos Prieto, cientista político da Fundação Ideas Para La Paz, em Bogotá. "Se ele (Zuluaga) for eleito, esse processo de paz não tem muito futuro", disse Prieto.

Santos apostou alto quando lançou as negociações em Havana, um ano e meio atrás. Está em jogo a carreira política do ex-ministro da Defesa de Álvaro Uribe - ex-presidente e contrário ao diálogo, que qualifica de "bofetada na democracia". Isacson lembrou que Zuluaga tenta conquistar exatamente a parcela de eleitores descontente com Santos, que achava que ele daria continuidade às políticas uribistas após ser eleito, em 2010.

Para os observadores, porém, a Colômbia nunca esteve tão perto de chegar a um acordo para encerrar o conflito que já deixou mais de 200 mil mortos desde 1964. "Já temos os acordos prévios, que são as matrizes das demandas históricas do grupo", disse Prieto. "Há um longo caminho a percorrer, mas esse momento é sem precedente." A guerrilha afirmou, na semana passada, que agora, mais do que nunca, a Colômbia tem a possibilidade de alcançar uma paz "estável e duradoura".

Enfraquecidas com as ações militares do governo Uribe que restringiram seu movimento às áreas sob seu controle, as Farc também reduziram sua capacidade de lucrar com a cocaína - o "imposto de guerra" que arrecada sobre todas as atividades econômicas das regiões sob seu controle, incluindo o tráfico, é sua principal fonte de receita.

Ao mesmo tempo, a Colômbia, primeiro produtor mundial de cocaína, viu reduzir, nos últimos anos, a participação do comércio de folhas de coca no PIB graças às políticas antidrogas e ao crescimento da economia do país. No ano passado, o Departamento Administrativo Nacional de Estatística da Colômbia mostrou, com base em dados do Escritório da ONU sobre Drogas e Crime, que, entre 2000 em 2011, a participação das plantações ilícitas no PIB colombiano caiu de 1,7% para 0,3%.

Um ano atrás, as Farc chegaram a propor ao governo a legalização do cultivo da coca durante a discussão sobre o tema agrário. A proposta foi rejeitada, mas as negociações avançaram e as partes acertaram então o primeiro ponto da agenda.

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