Eleição regional espanhola consolida encolhimento de partidos tradicionais

A Espanha viveu ontem um terremoto político com a consolidação dos resultados das eleições regionais de domingo. O maior choque foi a dimensão da ascensão da esquerda radical nas duas maiores cidades do país, Madri e Barcelona, e a perda de eleitorado do Partido Progressista (PP) e do Partido Socialista Operário (PSOE), as duas legendas que dirigiram o país desde o fim da transição democrática, em 1982.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2015 | 02h03

Pressionado a anunciar mudanças em seu governo após a votação que definiu os governos das Comunidades Autônomas - as províncias espanholas - e das prefeituras municipais, o primeiro-ministro da Espanha, Mariano Rajoy, se disse ontem vencedor da votação, mas não foi aplaudido por seus correligionários ao fim do discurso.

Os maiores vitoriosos da eleição foram os candidatos ligados a duas novas siglas, Podemos, de esquerda radical, e Ciudadanos, de centro-direita. Por outro lado, PP, de Rajoy, e PSOE perderam espaço político, o que põe o bipartidarismo espanhol em jogo a seis meses das eleições gerais que definirão o novo Parlamento e o novo primeiro-ministro do país.

No domingo, o PP obteve 27% dos votos, 11 pontos a menos que nas eleições de 2011 - ou 2,5 milhões de votos perdidos -, seu pior resultado desde 1991. Ainda que tenha se mantido em primeiro lugar no cômputo geral, o resultado levou o partido de Rajoy a perder o governo de várias Comunidades Autônomas. Já o PSOE, agora liderado pelo socialista Pedro Sánchez, obteve 25% dos votos, próximo do tradicional rival, mas também perdendo força, com 2,7 pontos a menos de apoio que em 2011. Juntas, as duas agremiações mais conhecidas tiveram 52% dos votos, diante dos 65% de quatro anos atrás.

O partido de Rajoy perdeu as regiões de Aragão, Castella-La Mancha, Extremadura, Valência, Cantábria e Baleares, cujos governos devem passar a coalizões de esquerda lideradas pelo PSOE com apoio do Podemos e pequenos partidos progressistas. Os socialistas mantêm ainda a região de Astúrias, enquanto o PP conservará Castella y León, Madri, La Rioja e Murcia.

A eleição consolidou o avanço da esquerda radical, liderada pelo Podemos, sigla criada com base no movimento dos Indignados, que tomou as ruas do país em 2011 em protestos contra medidas de austeridade que elevaram o desemprego a 25% no auge da crise. Liderada pela juíza aposentada Manuela Carmena, de 71 anos, a lista apoiada pelo Podemos ficou em segundo lugar na eleição municipal em Madri, logo atrás dos conservadores. Mas, ao que tudo indica, Carmena deve contar com o apoio do PSOE e tornar-se a próxima prefeita da capital.

O fenômeno repetiu-se em Barcelona, onde Ada Colau, de 41 anos, que concorreu pela primeira vez e ficou em primeiro, com 25% dos votos. Se formar uma coalizão dos partidos de esquerda, Ada será eleita prefeita da segunda maior cidade.

Ontem, Rajoy admitiu em uma reunião partidária que o PP "sofreu uma perda importante de votos", mas disse não ver motivos para mudanças no governo a seis meses das eleições gerais. "Estou absolutamente convencido de que nas próximas eleições os espanhóis vão reconhecer o esforço do governo."

Pedro Sánchez, líder do PSOE, atacou o primeiro-ministro pelas políticas de austeridade e pelos casos de corrupção, e tentou se mostrar próximo do eleitorado do Podemos e das demais forças progressistas.

Para a cientista política Heloiza Nez, especialista em movimentos sociais na Espanha, o Podemos tornou-se incontornável. "O Podemos agora é uma força política com a qual será necessário contar", entende a professora da Universidade de Tours, na França, para quem as eleições marcaram "o fim do bipartidarismo na Espanha".

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