Eleição revela instituições frágeis

Para analista do Afeganistão, fraudes eleitorais e intimidação do Taleban expõem a deterioração do país asiático

Lourival Sant?Anna, O Estadao de S.Paulo

24 de agosto de 2009 | 00h00

A eleição de quinta-feira serviu para aprofundar a sensação de que a situação no Afeganistão está se deteriorando. O Taleban não foi capaz de realizar nenhum grande ataque no dia da votação, mas o comparecimento visivelmente baixo demonstrou que a sua campanha de intimidação funcionou. Além disso, as irregularidades expuseram a fragilidade das instituições afegãs."A eleição anterior (de 2004) foi gerida pela ONUe os desafios não eram tantos", compara Niamatullah Ibrahimi, pesquisador no Afeganistão do Centro de Pesquisas sobre Estados em Crise, ligado a London School of Economics and Political Science. "Havia certo nível de segurança e o Taleban não era tão forte quanto agora. Aquela eleição foi muito mais confiável e legítima."Para Niamatullah, os afegãos, apesar de não terem experiência com a democracia - essa foi a segunda eleição presidencial de sua história -, não tendem a aceitar a manipulação como algo normal. "Antes da eleição, muitos afegãos achavam que ela seria decidida pelos americanos", disse ele. "Mas durante a campanha a mídia mobilizou as pessoas, e muitos passaram a acreditar que tinham o direito de escolher o próximo presidente."O analista desmente a noção segundo a qual a maioria pashtun no sul apoiaria Karzai, que pertence a essa etnia. Isso não só porque o presidente abriu espaço para outras etnias - tajiques e hazaras - em seu governo, mas também porque eles estão "sofrendo demais com a presença do Taleban, e também por causa da corrupção" na administração de Karzai.Niamatullah teme que a credibilidade do próximo governo seja severamente abalada pela forma como foi conduzida a votação. "Se tivesse havido uma eleição de verdade, não acho que Karzai teria tido muitos votos no sul", disse ele. "Os pashtuns sabem que não votaram em Karzai, embora as urnas estejam cheias de votos para o presidente. Eles não vão aderir a esse governo em um momento em que o Afeganistão precisa de um governo forte, seja para negociar com o Taleban ou para enfrentá-lo militarmente."Niamatullah acha duvidoso também que o Afeganistão esteja progredindo na direção de um Estado nacional. Segundo ele, o Exército é mais coeso e menos dividido segundo lealdades étnicas e tribais do que a polícia, que hoje conta com 83 mil integrantes. "A polícia foi formada da seguinte maneira: os comandantes que ajudaram a derrubar o Taleban declaravam que sua milícia passaria a ser a polícia de uma área, e estava resolvido", diz ele. Já o Exército tem feito seu recrutamento respeitando a proporção dos grupos étnicos na população.Mas a pressa em aumentar rapidamente o efetivo do Exército - hoje 92 mil homens - tem sacrificado a qualidade, observa o pesquisador. "No nível do comando, algumas províncias estão sobrerrepresentadas, e noutras, muita gente está reclamando de que não temos um Exército nacional."

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