Eleição sem vencedores cria impasse que ameaça tornar Itália ingovernável

A rejeição em massa às políticas de austeridade do primeiro-ministro Mario Monti abriu uma crise inédita na Itália e ameaça jogar a Europa em nova turbulência. O resultado da eleição dos últimos dois dias deixou o Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, com a maioria dos votos, mas sem cadeiras suficientes no Parlamento para formar um governo.

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL / ROMA, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 02h06

Em Roma, líderes admitem convocar novas eleições diante de uma Itália "ingovernável", mas o vácuo político na terceira maior economia da UE pode ser ainda mais profundo. Pela Constituição, o presidente Giorgio Napolitano não pode convocar novas eleições por estar nos últimos seis meses de mandato, o que deixa o país em um impasse.

A eleição foi marcada pelo retorno eleitoral do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que se tornou a segunda força política do país, pouco mais de um ano depois de renunciar em meio à crise econômica e a denúncias de corrupção. A votação também foi marcada pelo triunfo inesperado do Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grillo.

Os italianos foram às urnas em meio à pior recessão em décadas e com um índice de desemprego recorde, reflexos da estratégia de Monti de implementar os ajustes mais duros da história recente da Itália. Sem uma vitória clara de um dos partidos, Bruxelas teme a repetição da paralisia registrada na Grécia após as eleições, há um ano. Desta vez, porém, a crise atinge a terceira economia da zona do euro.

Entre votos de protesto e a busca por alternativas, a eleição marcou a derrota da agenda da UE. Mais de dois terços dos eleitores escolheram partidos contrários ao receituário ditado por Bruxelas e Berlim. "Vimos um eleitorado em rebelião contra a austeridade", disse Enrico Letta, vice-presidente do PD.

O resultado apontou Pier Luigi Bersani (PD) com 29,5% de votos na Câmara e 31,6% no Senado, o que não foi suficiente para obter uma vitória. O partido, porém, será o primeiro a exercer a prerrogativa de formar um governo. "Trata-se de uma situação muito delicada para a Itália e para a Europa", disse Bersani.

Em segundo lugar apareceu Berlusconi, que ontem mesmo telefonou à comissão eleitoral para pedir que nenhum partido fosse declarado vencedor para impedir que Bersani comece a negociar a formação de um governo. Tido como morto por muitos, o magnata voltou para mostrar que ainda tem a capacidade de influenciar a direção do país. No Senado, a coalizão de Berlusconi obteve 30,7% e, na Câmara, 29,1%

"Berlusconi já colocou a Itália à beira de um abismo e agora está fazendo de novo", disse Stefano Fassina, um dos principais nomes do PD. "Se essa situação for confirmada, teremos de realizar novas eleições. Estamos numa situação de total incapacidade de governar."

A terceira colocação também foi uma surpresa. O comediante Beppe Grillo, partidário da saída da Itália do euro, obteve 23% dos votos no Senado e 25,5% na Câmara - o maior partido da Casa. Para analistas, ele conseguiu reunir os votos de protesto contra a austeridade que se recusaram a votar em partidos tradicionais.

O maior derrotado foi Monti, que ficou com 10% dos votos na Câmara e não disfarçava a preocupação com o futuro do país. "Cada um, agora, precisa assumir sua responsabilidade e não podemos deixar que os esforços feitos pelos italianos sejam desperdiçados", alertou, numa referência ao risco de uma turbulência financeira que jogue o país de volta ao caos.

No entanto, a derrota de Monti foi também a de Bersani. O líder do PD, apesar de propor medidas para incentivar a economia italiana e abandonar, em parte, o modelo de austeridade, esperava um bom resultado do primeiro-ministro para compor uma aliança.

Para o senador eleito pelo PD, Corradino Mineo, a única solução para evitar o caos é uma aliança entre Bersani e Grillo. Contudo, os mais céticos já falavam abertamente na necessidade de uma nova eleição, já que Bersani e Grillo dificilmente entrariam em acordo.

O problema é o artigo 88 da Constituição, que não permite que Napolitano dissolva o Parlamento eleito ontem por estar nos últimos seis meses de mandato. Na prática, a Itália poderia se arrastar por semanas sem governo. Um dos cenários é a renúncia de Napolitano e a eleição de um novo presidente que tenha a autoridade para dissolver o Parlamento e, só então, possa convocar novas eleições - o que poderia ocorrer só em outubro.

O clima de incerteza deixou a Bolsa de Valores, analistas e políticos desorientados. No início da tarde, a possível vitória de Bersani fez a Bolsa de Milão subir 4%. No entanto, apenas 30 minutos depois, terminou em alta de apenas 0,73%. Para hoje, todos já se preparam para um colapso dos mercados. Ontem, o euro estava em seu nível mais baixo em seis semanas. "Os mercados enfrentarão o pior dos mundos na Itália", declarou Nicholas Spiro, da Spiro Sovereign Strategy.

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