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Eleição tem ampla participação contra onda nacionalista

Votação na Holanda tem a maior adesão desde 1986, eliminando risco de avanço da extrema direita em um dos países mais liberais da Europa

Andrei Netto, Enviado Especial / Amsterdã, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2017 | 05h00

O risco de uma vitória histórica da extrema direita em um dos países mais liberais da Europa foi um dos combustíveis da mobilização da opinião pública nas eleições parlamentares da Holanda desta quarta-feira. Com 81% de participação, a votação teve a maior adesão desde 1986, dissolvendo a força de fatias nacionalistas do eleitorado, que apoiavam o populista Geert Wilders. Com poucos incidentes, a eleição só foi tumultuada por bandeiras da Turquia em uma seção eleitoral de Amsterdã. 

A eleição na Holanda foi realizada em dia útil e sem feriado, mas sob efeito do último debate televisivo entre o atual primeiro-ministro, Mark Rutte, e Wilders, seu opositor de extrema direita. O embate foi seguido por milhões de holandeses, e o apelo do premiê liberal pela mobilização do eleitorado para barrar a onda nacionalista surtiu efeito.

No confronto, Rutte afirmou que a eleição no País seria as “quartas de final” para bater o populismo, antes das eleições na França, em abril, e na Alemanha, em setembro.

Eleitores ouvidos pelo Estado em diferentes seções eleitorais de Amsterdã, uma capital de forte predomínio liberal, fizeram referências reiteradas ao que consideravam a necessidade de bloquear a “onda populista” na Europa, que poderia comprometer a própria existência da União Europeia.

“Não gosto da forma como Wilders age”, disse Iza Awad, de 19 anos, que votou pela primeira vez. O estudante agora planeja até aderir a um partido político, tamanho seu entusiasmo pela política. “A campanha deixou muito claro que Wilders dizia idiotices populistas. Vi todos os debates na TV e talvez me engaje pelo partido pelo qual votei.”

A professora Ivone Sipma, que votou na mesma seção eleitoral, situada na Ópera Nacional, no centro de Amsterdã, demonstrou confiança de que seria possível bater Wilders e evitar a ascensão da extrema direita. “Não tenho medo de uma vitória de Wilders. Quando as pessoas veem de fato quem são os populistas, veem que não têm projeto algum. Os mais jovens não curtem o programa deles”, garantiu Ivone, que lamentou a campanha pouco profunda.

Um imigrante negro radicado na Holanda e com direito a voto, que aceitou falar desde que seu nome fosse omitido, disse ter a mesma impressão. Correndo para retornar a uma seção eleitoral após ter esquecido um documento, o estudante considerou o nível do debate baixo demais.

“Toda a campanha foi detestável, pois o grande tema foram as pessoas de fora, marroquinos, turcos, muçulmanos”, avaliou. “A discussão política ficou em torno dessas teses da extrema direita, e eu não acho que sejam assuntos primordiais para a Holanda.”

Martin Spruit, estilista e designer de 50 anos, comemorou o interesse renovado da opinião pública pela política. “Mais do que nunca as pessoas estão votando. É um momento confuso, claro, mas também é legal ver que a opinião pública está se interessando pela política”, avaliou Spruit, que não quis arriscar nenhum prognóstico após as surpresas do Brexit e da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

“Diante das circunstâncias, considerei mais importante do que nunca votar por um grande partido que pudesse barrar Wilders. O populismo não é um bom sinal, mas ao menos está unindo as pessoas contra essa ideia.”

Enquanto nas seções eleitorais os holandeses faziam filas para votar, nas ruas a campanha foi invisível. Raros cartazes eleitorais, nada de bandeiras ou santinhos. Em uma disputa tão discreta, poucos incidentes foram registrados no país. Um dos únicos ocorreu em uma mesquita da capital. Via Twitter, eleitores protestaram contra a presença de bandeiras da Turquia na sala de orações de um centro cultural e religioso financiado pelo governo turco, mas usado para acolher urnas de um distrito.

Nesta semana, o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, contrariado com a proibição de um comício em apoio a ele mesmo que seria realizado em Roterdã, chamou a Holanda de “república de bananas” e acusou o país de ter cometido crimes contra a humanidade em Srebrenica, em 1995, durante a Guerra da Bósnia-Herzegovina. A tensão entre parte da opinião pública holandesa e comunidades muçulmanas e de imigrantes marroquinos e turcos foi um dos grandes temas da campanha eleitoral.

 

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