CLEMENS BILAN/FILIP SINGER/EFE
CLEMENS BILAN/FILIP SINGER/EFE

Eleições acirradas encerram os 16 anos da ‘era Merkel’ na Alemanha 

Pesquisas indicam pequena vantagem dos social-democratas, liderados por Olaf Scholz, que disputa cargo de chanceler com conservadores da CDU, de Armin Laschet; um dos dois deve governar a maior economia da Europa nos próximos anos 

Luciana Rangel, especial para o Estadão 

26 de setembro de 2021 | 05h00

BERLIM - Enquanto Angela Merkel planeja o futuro longe do cargo que ocupou por 16 anos, os alemães vão às urnas neste domingo, 26, para eleger um novo chanceler. As pesquisas indicam uma eleição disputada voto a voto entre Olaf Scholz, do Partido Social-Democrata (SPD), e Armin Laschet, da União Democrata-Cristã (CDU), de Merkel. 

Durante a campanha, Scholz se esforçou tanto para demonstrar que pode ocupar o cargo que ganhou o apelido de “Der Merkel” (O Merkel). Para a cientista política Julia Reuschenbach, da Universidade de Bonn, o SPD tentou vendê-lo como um sujeito de estilo merkeliano: calmo, frio, objetivo e experiente. “Esta encenação conquista eleitores e, ao mesmo tempo, mantém Scholz autêntico”, disse.

Para Ursula Münch, diretora da Academia de Educação Política de Tutzing, há várias razões para o sucesso de Scholz. “Ele cometeu poucos erros e foi capaz de demonstrar que não esteve envolvido em nenhum caso de corrupção”, afirmou. “Scholz conseguiu se apresentar como um vice-chanceler com a experiência de governo que é desejada na crise atual.”

Ed Turner, professor de política na Aston University, em Birmingham, no Reino Unido, e pesquisador da política alemã, menciona três fatores que contribuíram para o sucesso inesperado do SPD, apesar da popularidade de Merkel e do domínio exercido pela CDU nas duas últimas décadas. 

O primeiro, segundo ele, é a escolha de Laschet, um candidato sem carisma. Em segundo lugar, os problemas enfrentados por Annalena Baerbock, líder da coalizão ambientalista, acusada de plágio em seu livro e de ter embelezado seu currículo.

“Se os verdes não tivessem cometido tantos erros infantis, os social-democratas dificilmente estariam encabeçando as pesquisas”, disse Turner. “Por fim, a própria figura de Scholz, um líder calmo e experiente, que tem apelo entre os mais velhos, muitos dos quais apoiavam a CDU, mas agora sentem que ele tem o que eles procuram em um chanceler.” 

Para Münch, parte do apelo de Scholz está na própria figura de Merkel, que nos últimos anos teria conseguido conquistar eleitores que nunca foram conservadores. Como é o caso de Andréa Botelho, brasileira que vive na Alemanha. “As minhas convicções políticas sempre foram mais alinhadas com o SPD. O motivo pelo qual eu votei nas últimas eleições na CDU, foi pela figura da Merkel”, disse. 

 

Oliver Gepach, que optou pela CDU nas últimas eleições, também trocou de lado e votará nos social-democratas. Seu amigo, Alfred Henneik, engenheiro aposentado de Darmstadt, de visita a Berlim, diz que votou pelo correio no SPD. “Scholz tem competência técnica, personalidade, experiência de governo e um programa social”, acredita.

Outros eleitores de Scholz são antigos devotos do SPD, como Dominique Höber, de 24 anos, estudante universitário de Dusseldorf. “Votei no SPD em todas as eleições até hoje”, disse. “Mas desta vez foi muito difícil apoiá-los, porque Scholz faz parte da ala mais conservadora do partido. Só me convenci depois de acompanhar os debates e ver seu desempenho na campanha.”

Outro fator que ajudou o SPD é que Merkel nunca quis mergulhar na disputa. Ela, no entanto, acabou se lançando na campanha ao lado de Laschet na reta final. Para Benjamin Höhne, diretor do Instituto de Pesquisa sobre Parlamentarismo, de Berlim, e “a candidata preferida da chanceler era a ministra da Defesa, Annegret Kramp-Karrenbauer. “Merkel nunca gostou de se colocar de uma forma político-partidária. Por que o faria agora?” 

Enquanto muitos alemães prendem a respiração na expectativa de conhecer o veredicto das urnas, outros especulam o qual o futuro de Frau Merkel? Em uma de suas últimas falas como chanceler, ela divagou sobre seus projetos. “Quero escrever? Quero falar? Quero andar por aí ou ficar em casa? O que eu planejo pra mim é não fazer nada e esperar o que vem. E isso eu acho fascinante.” 

Benjamin Höhne não acredita que a chanceler esteja cansada da política ou que ela, de agora em diante, só apareça publicamente como nas últimas fotos de campanha, cercada de periquitos e sorridente, na visita ao parque de aves de Marlow, em Mecklenburg-Vorpommern, seu distrito eleitoral. “Ela não está cansada da política. É bem provável um reaparecimento internacional, por exemplo, na ONU. Ela teria certamente um amplo apoio na Alemanha e em muitos países de todo o mundo.”

Merkel deixa o governo por cima, no topo da lista dos políticos alemães e com 80% de aprovação, segundo o barômetro político da TV estatal ZDF. “Eu queria dizer adeus”, disse a chanceler durante sua passagem por Mecklenburg-Vorpommern. Veremos se esse adeus é definitivo. 

Um sistema, dois votos

No sistema alemão, a cédula apresenta duas colunas: uma para o primeiro voto e outra para o segundo. O primeiro é um voto direto, no candidato do distrito – são 299 ao todo. No segundo, o eleitor vota na legenda. É o que determina o tamanho da bancada de cada partido. Daí saem outros 299 representantes tirados de listas partidárias. 

Mas, se um partido tiver eleito no primeiro voto mais representantes do que teria direito pelo segundo voto, o número total de deputados é elevado até que a proporcionalidade obtida no segundo voto seja alcançada. Isso faz com que, muitas vezes, o número de cadeiras seja maior que o número mínimo de 598 deputados. O atual Parlamento alemão, por exemplo, tem 709 representantes./ COLABOROU THAIS FERRAZ 

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