Angela Weiss e Win McNamee via AFP
Angela Weiss e Win McNamee via AFP

Eleição americana: Campanha com dois favoritos

Antes da pandemia, Trump tinha a preferência, mas o vírus e suas consequências derrubaram o presidente

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2020 | 05h00

A eleição americana parecia resolvida quando o ano de 2020 começou. A taxa de desemprego mais baixa dos últimos 50 anos fundamentava o apoio sólido que Donald Trump tinha de uma parcela determinante do eleitorado em Estados cruciais para a definição da presidência americana. Rachada, a oposição democrata não encontrava um denominador comum.

Aos 77 anos e distante da imagem que inspira a nova geração, Joe Biden largou mal na disputa interna do partido. O caminho estava aberto a Trump. Mas a pandemia chacoalhou o mundo e mudou a corrida à Casa Branca. Trump repetiu o modus operandi de todo o seu mandato e pautou o combate à crise pela lógica eleitoral.

Jogou na China a culpa pelo drama de saúde e nos governadores a responsabilidade pela recessão comparável à Grande Depressão. O plano fracassou, segundo os americanos: 60% reprovam a forma com o presidente tratou a pandemia. A maior potência econômica do mundo não soube evitar 230 mil mortes e 9 milhões de infectados. Quem se informava pelos tuítes do presidente, no entanto, lia que os EUA estavam com o vírus “sob controle”.

A oposição selou a união um dia depois de Nova York romper a marca de 1 mil mortos em 24 horas. Símbolo da esquerda americana, o senador Bernie Sanders não só desistiu de competir contra Biden, como passou a trabalhar pelo representante da ala moderada, em uma posição bem distinta da que adotou em 2016, quando perdeu a nomeação para Hillary Clinton.

O desemprego explodiu e o vírus passou a atingir Estados republicanos. A população viveu o drama dentro de casa, enquanto as ruas ficaram desertas, e Trump seguiu em busca de culpados. A tensão social e racial se elevou com episódios de brutalidade policial gravados em vídeo, que levaram milhares às ruas contra o racismo.

Manifestantes jovens culpavam Trump por dividir a sociedade. No seu mandato, os imigrantes foram associados a criminosos e os grupos supremacistas brancos não foram publicamente condenados. A escalada no conflito civil fez manifestantes atirarem uns nos outros em agosto, com três mortes.

A campanha pouco empolgante de Biden caiu como uma luva para o eleitorado que se dizia exausto de quatro anos de tuítes diários com ataques escritos em letras maiúsculas. “Joe sonolento”, o apelido pejorativo dado por Trump a Biden, virou um elogio para os que buscam normalidade.

Em um ano fora do eixo, o político tradicional, branco, idoso e alvo de acusação de assédio sexual ganhou força com uma plataforma de inclusão e diversidade. Para isso, convidou a primeira mulher negra a concorrer como vice da chapa de um grande partido. Kamala Harris deu o selo de confiança à promessa de Biden de que ele será apenas um político de transição e o partido terá espaço para se renovar.

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Trump, um bilionário apresentador de reality shows, foi eleito em 2016 com o discurso de um outsider capaz de proteger o país da criminalidade, do desemprego, dos imigrantes e de inimigos externos. Os americanos voltariam a ser grandes de novo, segundo ele. Quatro anos depois, a campanha se tornou uma disputa pelos eleitores que seguem fiéis ao republicano e aqueles que pensam que a maior ameaça vem, na verdade, de dentro do Salão Oval.

Joe Biden - Dificuldade nas prévias e guinada na Carolina do Sul

18/08/2020: Joe Biden é oficialmente indicado como candidato à Casa Branca pelo partido Democrata. Ex-vice presidente no governo Obama, Biden obteve o voto de 2.716 delegados, superando o senador Bernie Sander, que conquistou apenas 1.112 votos.

Kamala Harris foi confirmada como vice durante o evento. Derrotada nas primárias por Biden, onde protagonizaram debate acalorado, Kamala decidiu aceitar convite para a chapa democrata.

03/09/2020: Biden repete gesto de Trump e viaja a Kenosha, mas cumpre agenda oposta a do presidente. Democrata se reúne com família de Jacob Blake e fala por telefone com homem, que estava internado. Candidato se compromete a promover políticas de igualdade racial.

29/09/2020: Após denúncias do ‘New York Times’ sobre a declaração de imposto de renda de Trump, Biden divulga suas declarações dos últimos 22 anos, desafiando o presidente a fazer o mesmo. “O povo americano merece transparência de seus líderes”, escreveu.

Em debate marcado por ofensas, democrata protagoniza momento marcante ao mandar rival se calar (“Shut up, man”). Pesquisa da CNN indica vitória de Biden (60% a 28%).

04/10/2020: Biden e sua esposa, Jill, fazem teste de covid-19 após diagnóstico positivo de Trump, com quem tiveram contato no debate. Resultado para ambos é negativo. Pesquisas divulgadas dias mostram que que Biden ampliou vantagem sobre Trump.

21/10/2020: Ex-presidente Barack Obama entra na campanha do seu Biden e faz um raro ataque direto a Donald Trump. Durante um comício “drive-in” na Filadélfia, Obama afirmou que o republicano não leva a sério o cargo de presidente: “Isto não é um reality show. É a realidade”.

28/10/2020: Pesquisa eleitoral realizada na reta final da campanha aponta ampla vantagem de Biden sobre rival republicano. Pesquisas eleitorais realizadas desde junho apontam vitória do democrata sobre Trump.

29/10/2020: Assim como Trump, Biden aposta em ida à Flórida para garantir votos em um dos Estados que pode decidir a eleição presidencial. Candidatos quase não compartilharam destinos ao longo da campanha.

Donald Trump - Escândalos marcaram corrida do republicano

24/08/2020: Aprovado de maneira protocolar pelo Partido Republicano, Donald Trump é oficializado candidato à reeleição durante a polêmica convenção partidária que utilizou instalações da Casa Branca. Democratas apontam irregularidade no uso do local para fins eleitorais.

O evento teve participação reduzida de líderes do partido, com discursos da família Trump e de alguns membros do governo, incluindo Mike Pence, que reedita a chapa vencedora em 2016.

Trump vai até Kenosha, cidade do Wisconsin onde protestos antirracismo eclodiram após o homem negro Jacob Blake ser baleado múltiplas vezes por um policial branco. No local, presidente negou racismo na polícia e chamou manifestações de terrorismo.

27/09/2020: The New York Times publica reportagem sobre as declarações de imposto de renda de Trump e de suas empresas. Entre as denúncias, publicação afirma que presidente não pagou imposto em 11 de 18 anos examinados. Presidente só teria pago US$ 750 em 2017.

29/09/2020: Primeiro debate fica marcado por interrupções de Trump ao rival e ao moderador. Presidente criticou gestão ambiental de Biden-Obama e disse que adversário quer tirar recursos da polícia.

02/10/2020: Trump e a esposa, Melania, são diagnosticados com covid-19. Presidente precisa ser internado e é submetido a tratamento experimental. No dia 4, antes de receber alta, sai do hospital em um carro fechado para acenar para apoiadores que faziam vigília por sua saúde.

05/10/2020: Presidente recebe alta e retorna à Casa Branca. Na chegada, retira a máscara e acena para jornalistas antes de gravar um polêmico vídeo em que convocava americanos a saírem de casa. "Não deixe isso dominar suas vidas. Saia de casa, seja cuidadoso", disse.

28/10/2020: Na reta final da campanha, pesquisa eleitoral aponta derrota do candidato republicano pelo placar de 357 a 181 delegados. Presidente apareceu à frente de Biden em pouquíssimas pesquisas realizadas.

30/10/2020: Há menos de 100 horas da eleição, Trump e Biden apostam em passagem por Estados-chave do Meio-Oeste. Republicano cumpre agenda em Michigan, Minnesota e Wisconsin. Democrata troca Michigan por Iowa.

03/11/2020 - Dia da eleição

Na sexta-feira, o presidente cancelou a festa marcada para a noite da eleição no Trump International Hotel, em Washington. Ele acompanhará a apuração na Casa Branca. Biden terminará a campanha como começou, discretamente, em sua casa em Delaware, acompanhado da mulher, Jill.

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