Mariana Greif/Reuters
Mariana Greif/Reuters

Eleições colocam esquerda em xeque no Uruguai 

Após 15 anos no poder, Frente Ampla lidera pesquisas, mas perderia segundo turno para coalizão de partidos de oposição 

Carlos Tapia / Especial para o Estado, Montevidéu , O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2019 | 20h23

Pela primeira vez em 15 anos, a esquerda uruguaia chega à reta final de uma eleição na defensiva. A Frente Ampla, partido do presidente Tabaré Vázquez, enfrenta neste domingo, 27, nas urnas uma oposição fortalecida e disposta a formar uma coligação capaz de vencer no segundo turno. Nas últimas semanas, porém, um escândalo protagonizado por um líder opositor devolveu a esperança aos governistas. 

A Frente Ampla viveu os últimos anos acuada por uma onda de insegurança (o número de homicídios aumentou 46% em 2019), uma crise na educação (com a taxa de ingresso de 50% no nível secundário, quando Vázquez prometeu chegar a 75%) e uma série de irregularidades, como a que envolveu o ex-vice-presidente Raúl Sendic. Ele renunciou após ter dito que era formado em genética humana, quando não era, e após terem descoberto que ele fez uso abusivo de cartões de crédito corporativos quando era presidente da estatal petrolífera, Ancap, no governo de José Mujica

O segundo turno está marcado para o último domingo de novembro. Apenas uma vez desde 1966, quando foi feita a reforma eleitoral, um candidato conseguiu ganhar no primeiro turno. Foi Vázquez em 2004, após a crise econômica de 2002.

As pesquisas mostram um avanço da Frente Ampla e seu candidato Daniel Martínez e o estancamento da oposição. A média dos principais institutos (Cifra, Equipos, Opción, Radar e Factum) dá à esquerda 41% das intenções de voto, 27% ao Partido Nacional, 13% ao Partido Colorado e 11% ao Cabildo Abierto, mas a expectativa é de que os três últimos se unam contra o governo no segundo turno. O restante se divide entre pequenos partidos e eleitores que votarão em branco ou nulo.

Nas últimas eleições, as pesquisas subestimaram a Frente Ampla. Com base nisso, as alas governistas esperam chegar aos 43% e advertem que esse é o “número mágico” para se ir ao segundo turno em novembro com chances de vencer.

Há fatos de última hora que muitas pesquisas não conseguiram avaliar. Um dos principais dirigentes do Partido Nacional e intendente da cidade de Colônia é, desde quinta-feira, protagonista de um escândalo sexual: vazaram áudios nos quais ele dá a entender que ampliaria os contratos de alguns funcionários em troca de relações sexuais com uma dirigente do partido.

O Partido Colorado, aliado do Partido Nacional, que fez grande parte de sua campanha exaltando o modelo chileno, vem recebendo numa onda de críticas pela situação do Chile. Já o Cabildo Abierto, com forte marca militar, vem advertindo que, se a Frente Ampla ganhar, estas poderão ser as últimas eleições no Uruguai, sugerindo que o país poderia seguir o caminho de Cuba ou da Venezuela – declarações rechaçadas por vários partidos. 

Na reta final de campanha, a Frente Ampla conseguiu realizar importantes mobilizações que reuniram 300 mil pessoas em Montevidéu, cidade de 1,4 milhão de habitantes – o Uruguai tem 3 milhões e 2,6 milhões de eleitores.

Relembre: Uruguai passa a vender maconha nas farmácias

 

O Partido Nacional, de centro-direita, é liderado pelo senador Luis Lacalle Pou, filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle (1990-1995). Sua campanha foi marcada por promessas de encolher o Estado, aumentar o policiamento e devolver à polícia o poder de pedir documentos nas ruas – além de fazer uma reforma na educação que retire dos professores a representatividade nas decisões educacionais.

O Partido Colorado, rival do Partido Nacional até a chegada da democracia, em 1985, é liderado pelo economista Ernesto Talvi, que já anunciou apoio a Lacalle no segundo turno. Como dizia o argentino José Luis Borges, “o que os une não é o amor, mas o ódio” – no caso, à Frente Ampla, a qual esperam tirar do poder. Em troca, Lacalle pode dar a Talvi alguns ministérios.

A terceira força da oposição, é o Cabildo Abierto, que muitos consideram um “partido militar”. Seu líder é Guido Manini Ríos, ex-comandante do Exército que foi destituído pelo presidente Vázquez em março. Ele foi afastado após acusar a Justiça de ter abandonado “os princípios mais elementares do direito” – aludindo a julgamentos de militares acusados de crimes de lesa-humanidade durante a ditadura militar (1973-1985). 

Ele também é investigado por dar cobertura a um tenente-coronel da reserva que confessou ter jogado num rio o corpo de um preso político. Lacalle Pou depende de Manini Ríos – que, embora tenha adiantado que não apoiará a Frente Ampla, não deixou claro se formará uma coalizão com o Partido Nacional ou com o Partido Colorado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.