Manuel Balce Ceneta/AP
Manuel Balce Ceneta/AP

Eleições de 2012 estão na origem do impasse

Analistas veem o conflito no Congresso em torno da aprovação do teto da dívida americana como um 'teatro político'

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

A eleição presidencial de 2012, nos Estados Unidos, está na base de um impasse entre os Partidos Republicano e Democrata capaz de levar o país à sua maior crise econômica.

No dia 2 de agosto, se não houver um acordo aceito pelos líderes das duas legendas e pela Casa Branca, os Estados Unidos vão declarar a suspensão de pagamentos pela primeira vez na sua história. Mesmo com um acordo sancionado, ainda estarão arriscados a perder a mais elevada avaliação de risco que um país pode ter de sua dívida.

Analistas veem o conflito no Congresso como um verdadeiro "teatro político". Do lado republicano, tornou-se explícita a intenção de criar o pior ambiente possível em 2012 para a candidatura do presidente americano, Barack Obama, à reeleição.

Ainda sem candidato definido, em uma lista de cerca de dez pretendentes, o partido parece apostar no pior cenário para a economia como a melhor oportunidade para o concorrente republicano de Obama.

A proposta do republicano John Boehner, presidente da Câmara dos Representantes, de aumentar em apenas US$ 900 bilhões o teto da dívida, refletiu essa ambição. Acabou abortada em votação no Senado na noite de sexta-feira.

Se tivesse sido aprovada, teria forçado o governo Obama a uma nova negociação com o Congresso em dezembro e ressuscitado o risco de suspensão dos pagamentos federais e de redução da nota da dívida. Claro, num cenário em que a proposta também passasse pelo Senado de maioria democrata e pela sanção de Obama, o que não tinha pouca ou nenhuma chance de acontecer.

A proposta do senador Harry Reid, líder da maioria democrata, aumenta o limite de endividamento em US$ 2,4 trilhões e daria uma passagem tranquila a Obama em 2012.

Impacto. Embora as duas propostas mencionassem valores similares de ajuste fiscal nos próximos anos, entre US$ 2,2 trilhões e US$ 2,5 trilhões, a do republicano Boehner exigiria cortes de gastos mais profundos no ano que vem. O impacto na economia real seria maior no período eleitoral e tenderia a prejudicar Obama e os candidatos democratas ao Congresso.

Thomas Mann, sócio sênior do Brookings Institution, ponderou ao Estado ser a crise em torno do limite da dívida federal americana também resultado da maior presença no Congresso do Tea Party, a ala radical de direita dos republicanos, cujos princípios e exigências não são negociáveis. Mas acrescentou que o país está em permanente campanha e, nesse ambiente, "qualquer peça de legislação tende a virtualmente se ser vista pelas lentes eleitorais".

"Os republicanos querem vencer a Casa Branca e tomar o controle das duas Casas do Congresso", afirmou Mann, para lembrar em seguida a prioridade declarada por Mitch McConnell, líder da minoria republicana no Senado, de tornar Obama presidente de um só mandato.

Ambição eleitoral. Segundo Richard Wolff, professor de Economia da Universidade de Massachusetts, o "teatro político" torna-se mais claro quando se avalia o número de vezes em que o teto da dívida foi aumentado automaticamente pelo Congresso, sem barganhas nem impasses.

Desde 1940, foram 90 vezes. A rigor, o aumento da dívida federal além do limite fixado se daria por causa de gastos autorizados pelo próprio Congresso, ao aprovar o orçamento do ano fiscal de 2011.

Ambos os partidos, em sua opinião, usaram essa ocasião conforme suas ambições eleitorais. "Os republicanos decidiram começar a sua campanha bem cedo desta vez", afirmou. "Os democratas venderam cortes de gastos públicos que não poderão executar."

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