Martin Bureau/Pool Photo via AP
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Eleições de hoje darão sinal verde às reformas prometidas por Macron

Partido do presidente francês deve obter ampla maioria no Legislativo e analistas creem que única oposição às mudanças que ele quer adotar pode vir das ruas; abstenção deve ser histórica e provocada por partidários de grupos radicais à direita e à esquerda

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2017 | 05h00

PARIS - Há um mês no Palácio do Eliseu, Emmanuel Macron assumirá na prática o poder hoje, quando um tsunami de votos deve varrer mais de dois terços dos deputados da Assembleia Nacional, garantindo ao presidente da França uma ampla maioria no Parlamento. A vitória, prevista por todos os institutos de pesquisa, marcará o início oficial do calendário de reformas políticas e econômicas prometidas pelo novo chefe de Estado, que até aqui surpreendeu pela habilidade política.

Frente à “onda Macron”, analistas veem a rua como única possível oposição às reformas. O segundo turno das eleições legislativas tem 47 milhões de franceses aptos a votar, mas a perspectiva é que cerca de 50% dos eleitores não compareçam às urnas – uma abstenção histórica, mas provocada sobretudo por partidários de esquerda radical e extrema direita, decepcionados com o resultado da eleição presidencial. 

Diferentes pesquisas realizadas a partir dos resultados do primeiro turno indicam que o partido criado por Macron há 15 meses, República em Marcha (REM), confirmará o sucesso do primeiro turno, quando reuniu 32,3% dos votos, e elegerá entre 397 deputados, no pior dos cenários, e 470, no melhor, considerados também os votos de seu coligado, o Movimento Democrático (MoDem).

O recorde anterior pertencia à União por um Movimento Popular (UMP, hoje Republicanos), que em 2002 somou 370 deputados. Em qualquer prognóstico, o presidente eleito em maio contará com uma ampla maioria, já que a Assembleia Nacional tem 577 assentos. “Nunca se viu nada parecido na 5.ª República (inaugurada em 1958)”, diz Bernard Sananès, cientista político e diretor do instituto de pesquisas Elabe.

O resultado deve ser quatro vezes melhor do que o da segunda maior bancada parlamentar, que deve ficar com a coalizão formada entre conservadores do partido Republicanos e centristas da União de Democratas e Independentes (UDI), que deve eleger entre 60 e 110 deputados, segundo os diferentes institutos. 

Abalo. As sondagens indicam que o Partido Socialista (PS) vai derreter, perdendo até 90% de sua bancada e elegendo entre 20 e 35 deputados. Outra lição do pleito parlamentar é que os extremos, representados pelo partido radical de esquerda França Insubmissa e pela Frente Nacional, de extrema direita, não repetirão o bom resultado da eleição majoritária, ficando com bancadas que oscilarão entre 5 e 25 deputados, no primeiro caso, e de 1 e 6, no segundo. 

Em uma eleição tão devastadora, mais de dois terços do Parlamento serão renovados. Com a maioria, Macron terá a porta aberta para realizar as reformas prometidas na campanha. A primeira será a reforma política, que imporá novas regras de ética aos parlamentares, reduzindo a influência de lobbies e os conflitos de interesse, fixando ainda um limite no número de reeleições para o Legislativo.

A reforma seguinte será a trabalhista, com a flexibilização das cláusulas de demissão. Entre analistas políticos, uma das dúvidas da futura legislatura é saber até que ponto os novos eleitos do República em Marcha serão fiéis a Macron na hora das votações, sobretudo com a pressão das ruas, já prometida por líderes sindicais. 

Mas entre os candidatos a deputados ouvidos pelo Estado ao longo da campanha, a adesão às ideias do presidente parece total. “Vivemos um momento histórico e uma oportunidade de renovar a classe política”, disse a franco-argentina Paula Forteza, candidata pelos franceses da América Latina, circunscrição que inclui o Brasil e na qual saiu vencedora no primeiro turno, com 43% dos votos. 

Para Hugues Renson, candidato a deputado pelo República em Marcha em Paris, também vencedor do primeiro turno, com 43,58% dos votos, o desafio de cada membro do partido é oferecer a Macron a perspectiva de realizar as reformas. “Trata-se de dar ao presidente da república os meios para agir e também permitir que surja uma nova geração política na França, com novos rostos, novas práticas”, afirma Renson.

Em meio ao turbilhão Macron e às promessas de fidelidade dos deputados de sua bancada – metade deles sem carreira política prévia –, analistas como Gaël Sliman, cientista político do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (IRIS) e presidente do Instituto Odoxa, questionam-se sobre o esvaziamento do papel do Parlamento, cuja bancada majoritária será alinhada ao presidente. “Os deputados do República Em Marcha serão todos tributários por suas eleições”, adverte. “Como poderão um dia decidir controlar o governo assim?”

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