Eleições de hoje em Israel devem resultar em gabinete conservador

Dos quatro partidos que lideram pesquisas, dois são de direita e um é de centro; ?Bibi? é favorito, seguido por Tzipi

Daniela Kresch, especial para o Estado, O Estadao de S.Paulo

10 de fevereiro de 2009 | 00h00

Se as pesquisas se confirmarem, as eleições de hoje em Israel devem marcar uma grande guinada do país à direita. Pouco mais de 4,8 milhões de eleitores têm direito a ir às urnas para eleger o Legislativo que designará o novo primeiro-ministro. Dos quatro candidatos na frente das sondagens - e cujos partidos devem obter o maior número de cadeiras no Parlamento - três são conservadores. Os favoritos são Binyamin "Bibi" Netanyahu, líder do partido de direita Likud, e Tzipi Livni que, apesar de ser do partido de centro Kadima, também é originária do Likud. O terceiro na preferência do eleitorado é a grande surpresa dessas eleições: o imigrante russo ultranacionalista Avigdor Lieberman, do partido Israel Beiteinu (Israel Nossa Casa). Se as pesquisas se confirmarem, seu partido passará de 11 para 18 cadeiras no Parlamento (no total são 120) e qualquer um que vença a votação terá de conseguir seu apoio para formar um novo governo. Só na quarta colocação aparece um candidato de esquerda: o trabalhista Ehud Barak, atual ministro da Defesa. Num cenário como esse, a escolha de hoje mudará radicalmente a cara do Oriente Médio nos próximos anos. O conflito com o grupo islâmico Hamas, que deixou 1.300 palestinos e 13 israelenses mortos, fez da segurança o tema dominante da campanha eleitoral.Estão em jogo no plano externo as negociações de paz com os palestinos e o mundo árabe, além das relações com o Irã. Internamente, a resolução das tensões entre a maioria judaica da população (75%) e a minoria árabe (20%), entre outras questões. Bibi, o favorito, tem a seu favor a experiência. Ele já foi premiê (entre 1996 e 1999), chanceler (2001-2002) e ministro das Finanças (2003-2005). Ao longo de todos esses anos, construiu uma imagem de político astuto, sempre com uma resposta na ponta da língua. Seus partidários elogiam sua visão estratégica e capacidade de negociação. Seus críticos, o acusam de ser oportunista e vira-casaca. Ao ser eleito em 1996, Bibi prometeu não fazer concessões políticas e territoriais ao então presidente palestino, Yasser Arafat. Na época, uma onda de atentados terroristas havia corroído o apoio aos Acordos de Oslo, firmados dois anos antes. Um ano depois, porém, ele aceitou entregar a cidade de Hebron, na Cisjordânia, aos palestinos sob pressão dos EUA. "Netanyahu não sabe lidar com pressões", dizia o ex-premiê Ariel Sharon.VOLTA POR CIMA O governo de Bibi terminou em 1999, 17 meses antes do previsto, após uma série de acusações de corrupção (das quais ele foi inocentado) e boatos envolvendo seu casamento. Quatro anos atrás, quando - como titular da pasta das Finanças - implementou diversas reformas econômicas impopulares, a rejeição a Netanyahu aumentou ainda mais. Muitos consideraram que seria o fim de sua carreira. Agora, ele pode dar a volta por cima. O único obstáculo é a ministra das Relações Exteriores, Tzipi Livni, que passou para o Kadima em 2005. Na campanha, os marqueteiros do Likud enfatizaram a inexperiência política de Tzipi, que começou sua carreira no Parlamento há apenas sete anos. Mas também é esse um dos trunfos da chanceler, vista como honesta pelos eleitores. Num país onde experiência militar também ajuda, Tzipi se beneficia do fato de ter trabalhado como agente do Mossad, nos anos 80, e de ser filha de uma das principais figuras do Irgun,movimento de resistência que atuou na região antes da criação do Estado judeu, em 1948.Pouco se sabe da vida pessoal da chanceler - considerada a mulher mais poderosa do país desde a primeira-ministra Golda Meir, nos anos 70 - além de que ela é mãe de dois filhos e vegetariana. No ano passado, Tzipi foi colocada em 52º lugar na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Forbes.Seus críticos acusam-na de ser uma política inábil e lembram um episódio ocorrido em outubro, após a renúncia do premiê e então líder do Kadima, Ehud Olmert, eleito em 2006. Como nova líder do partido, Tzipi tinha o direito de substituí-lo sem que fosse necessária a convocação de novas eleições. Bastava receber o apoio de 61 parlamentares.Mas, após três semanas de intensas negociações, ela desistiu de angariar apoio e pediu ao presidente Shimon Peres que convocasse a votação.POLÊMICAFoi essa opção que permitiu o crescimento do Israel Beiteinu, de Lieberman. Tendo uma base de apoio formada pelo1,5 milhão de imigrantes russos que vivem em Israel, Lieberman conseguiu crescer na preferência dos eleitores jovens. Com um sotaque pesado e um jeito caricato, ele defende ideias polêmicas, como a de transferir todos os árabes-israelenses para a Cisjordânia e retirar a cidadania de quem não jurar lealdade à bandeira do país.Nem Lieberman nem Barak parecem ter chance de vencer as eleições, mas ambos lutam por votos que os transformem em aliados-chave do vencedor. Barak sucedeu a Netanyahu como premiê em 1999. Ele também renunciou antes do previsto, em 2001, mas não sem antes ordenar a retirada total das tropas israelenses do sul do Líbano. Apesar da visão de militar, Barak é considerado um moderado em relação a negociações com os árabes, defendendo a solução de dois Estados - que abrange a criação de um Estado palestino - e uma ampla negociação de paz que finalmente inclua Israel no restante do Oriente Médio.

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