Eleições e recessão explicam recuo de Chávez em acordo com Santos

Aproximação.  Chávez e Santos durante reunião na cidade de Santa Marta: interesses comerciais e políticos          

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

 

 

A mudança radical no discurso do presidente venezuelano, Hugo Chávez, em relação à Colômbia não foi movida apenas por um desejo de paz. A recessão na economia local, a proximidade das eleições legislativas e a forte pressão internacional levaram Chávez a ceder no encontro com seu colega colombiano, Juan Manuel Santos, terça-feira, em Santa Marta, segundo analistas ouvidos pelo "Estado".

Depois de ter congelado as relações com a Colômbia, em julho de 2008, e rompido os laços diplomáticos, um ano depois, Chávez surpreendeu ao dizer, na terça-feira, que estava relançando "a pedra fundamental da relação entre os dois países", após uma conversa de quatro horas com Santos.

O líder venezuelano repetiu que "não apoia, não permite e não permitirá a presença de grupos guerrilheiros" em seu território. Para Chávez, essa acusação é "uma infâmia". Já sobre o acordo militar celebrado no ano passado entre Washington e Bogotá, ele mostrou um recuo evidente, dizendo que a Colômbia é "soberana" para cooperar com quem quer que seja.

A pressa na reaproximação e a facilidade com que ela ocorreu se devem, em parte, ao fato de 80% dos eleitores venezuelanos serem contrários a um conflito com a Colômbia. "Chávez é um político astuto, oportunista e muito hábil em adaptar-se às necessidades. O discurso beligerante, interessante para ele até ontem, já não é tão útil hoje, a um mês das eleições", disse o analista político e ex-embaixador da Venezuela na Colômbia Fernando Gervasi.

A Colômbia, historicamente, é o principal fornecedor de alimentos da Venezuela. A instável relação com o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe fez Chávez estimular a importação de produtos básicos brasileiros, o que não foi suficiente para conter o desabastecimento às vésperas das eleições.

"O abastecimento na Venezuela já está afetado e é muito mais fácil importar carne da Colômbia do que da Argentina e do Brasil. Desse ponto de vista, não teria sentido manter o comércio comprometido", disse Francine Jácome, diretora do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos.

As exportações da Colômbia para a Venezuela, que em 2008 foram de US$ 6 bilhões, não passarão de US$ 1,5 bilhão este ano. A boa notícia é que agora, com o descongelamento das relações, a Colômbia espera receber US$ 800 milhões em pagamentos atrasados.

"Os bens que produzimos na Venezuela têm um alto porcentual de componentes importados. Não há nada no país que seja "made in Venezuela". Precisamos que esses insumos cheguem rápido e venham do lugar mais próximo possível. E esse lugar é a Colômbia", disse José Roso, presidente da Fedecámaras, principal órgão do empresariado venezuelano, de Táchira.

A mudança de discurso de Chávez também obedeceu a uma mudança no cenário internacional. De acordo com Gervasi, o venezuelano "está isolado e tenta se apresentar como um líder disposto a dialogar". O Equador - que foi bombardeado pela Colômbia em 2008 e suspendeu relações com Bogotá - esteve representado na posse de Santos pelo presidente Rafael Correa - Chávez não foi - e caminha para normalizar as relações com a Colômbia (mais informações nesta página). "Isto tornaria mais evidente o isolamento e a perda de espaço de Chávez na região", disse Gervasi.

Por fim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa o governo em janeiro. Sua saída representa a ausência do fiador acostumado a conter os arroubos do venezuelano. "Lula certamente lembrou Chávez disso ao passar por Caracas, na semana passada", afirmou Gervasi.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.