Eleições em uma época sem coerência

Análise: Roger Cohen / NYT

O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h07

Faz quase um quarto de século desde que George Bush, aceitando a indicação na Convenção Republicana de 1988, pronunciou as hoje famosas palavras: "Leiam meus lábios: não haverá novos impostos." Bush, como presidente, elevou os impostos para reduzir o déficit, uma reviravolta explorada por Bill Clinton na campanha de 1992.

Faz quase uma década que John Kerry, o candidato democrata na eleição de 2004, declarou sobre uma lei de financiamento suplementar de US$ 87 bilhões para tropas americanas: "Eu realmente votei pelos US$ 87 bilhões antes de votar contra eles". A imagem de Kerry como um vira-casaca foi explorada pelo presidente George W. Bush, que ridicularizou seu oponente e ganhou um segundo mandato.

Os tempos mudam. Já não creio que as pessoas esperem consistência. Ela é considerada exótica. O que importa é ser intelectualmente ágil e não andar em linha reta.

Afinal, se a sua vida está exposta e registrada 24 horas por dia, sete dias por semana, que é o espírito da época, como esperar de alguém que evite alguma forma de inconsistência, se não de flagrante contradição? A maioria das pessoas, em certo grau, ajustará suas observações a seu público. E um mundo digitalizado, hiperconectado, premia mais a adaptação instantânea que o esforço assentado em princípios sólidos.

Há tanta coisa por aí - tamanha massa de informação e opiniões - que as pessoas tendem a dar de ombros quando se demonstra que alguma coisa é um factoide, uma contradição ou um absoluto equívoco. Não é por menos que "e daí?" virou uma expressão da moda.

De que outra forma explicar a aparente capacidade de Mitt Romney de pairar acima de suas incontáveis "viradas de casaca" até uma situação em que, a menos de um mês da eleição americana, ele tem uma séria chance de vencer? Seu desempenho no primeiro debate foi soberbo - vívido, desafiador e humano ante a sóbria impassibilidade de Obama. O presidente proporcionou um estranha mensagem tipo Yoda aparentemente a ser ensinada durante muitos anos em escolas de comunicação como uma ilustração do que evitar. Como sempre, Romney guinou para um lado e para outro (principalmente para o centro). O fato de ele ter dito uma coisa não foi obstáculo para dizer outra.

Por exemplo, nos debates das primárias, ele disse: "Nós vamos cortar em 20% os impostos para todos em todo o país, incluindo o 1% do topo". No debate com Obama, ele disse: "Mas eu não vou reduzir a fatia de impostos pagos pelas pessoas de alta renda".

A nação deu de ombros. As pesquisas mostram Romney com uma vantagem média de cerca de 3,6% sobre Obama desde o debate. Algumas linhas de ataque colam em Romney. Que ele é rico e implacável. Que ele não se importa com os pobres. Que pretende eviscerar direitos sociais. Mas ele ser um vira-casaca? Ninguém liga.

Quanto a seu recente discurso sobre política externa, foi um caso de audácia da contradição. Ele disse num debate de primária que "são os palestinos que não querem uma solução de dois Estados. Eles querem eliminar o Estado de Israel". Ele disse numa reunião privada de levantamento de fundos que via os palestinos "comprometidos com a destruição e a eliminação de Israel".

Aí, ele subitamente declarou: "Eu comprometerei novamente a América com o objetivo de um Estado palestino democrático, próspero, vivendo lado a lado em paz e segurança com o Estado judeu de Israel. Nessa questão vital, o presidente fracassou."

Bem, qual posição está valendo? Será um caso de "romnésia" aguda ou o quê? Gostaria de achar que as pessoas se importam. Elas não se importam. Isso de virar-casaca é uma questão muito século 20. O desempenho triunfa sobre a persistência. O presidente faria bem em melhorar o seu. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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