Eleições entram na reta final na Argentina

A campanha eleitoral para o segundo turno na Argentina entra na reta final, numa semana decisiva para o país. O início desta foi marcado pelas persistentes versões de que o ex-presidente e candidato Carlos Menem (Frente pela Lealdade, do Partido Justicialista) desistiria de concorrer às eleições contra o seu adversário Néstor Kirchner (Frente para a Vitória, do Partido Justicialista), no próximo dia 18 de maio. Os próprios assessores de Menem se encarregaram, ontem, de provocar ainda mais dúvidas no mundo político e na imprensa do país. Menem passou o domingo reunido com seu comando de campanha, avaliando a possibilidade de afastar-se da disputa e, segundo fontes menemistas, esta hipótese ainda está sendo estudada pelo ex-presidente. Porém, à noite, um de seus principais assessores, irmão e porta-voz, senador Eduardo Menem, desmentiu todas os rumores de que o candidato desistiria das eleições. Este foi o quarto desmentido oficial de Menem mas ninguém acredita nele. Dentro e fora do governo e das duas campanhas presidenciais, além de toda a imprensa argentina, a versão que mais tem ganhado destaque nas duas últimas semanas antes das eleições é de que Menem não suportaria uma derrota com tão grande vantagem de seu adversário para ele, como apontam as pesquisas de opinião. PesquisasAs últimas intenções de votos divulgadas no sábado passado foram unânimes ao projetar a vitória de Kirchner com entre 30 a 40 pontos de diferença sobre Menem. Enquanto Menem reunia-se com seus conselheiros, Kirchner comentava que "não era de se estranhar" uma renúncia de Menem porque se trataria de "um gesto mais de tantas irresponsabilidades que tem tido".Fontes menemistas explicaram que a confusão sobre a candidatura de Menem gira em torno de dois diferentes grupos de sua campanha: um que defende a continuidade da candidatura até o final, outro que considera a desistência como uma forma de "não dar ao presidente Eduardo Duhalde o "gosto" e a alegria de ver seu inimigo número um derrotado e deixaria o candidato apoiado por Duhalde sem respaldo popular, sem a legitimidade necessária que o próximo presidente necessita para chegar à Casa Rosada com a governabilidade garantida, já que seria eleito com somente 22% dos votos que obteve no primeiro turno. Esse grupo defende ainda a lógica de que Menem foi o "grande vencedor" da briga interna peronista ao ter obtido maior número de votos no primeiro turno, o que o ajudaria a conservar sua liderança dentro do partido. Com isso, toda a disputa eleitoral presidencial, ficaria reduzida à uma mera concorrência pelo poder dentro do peronismo e a cadeira presidencial ficaria em segundo plano para Menem que não teria mesmo condições de chegar até ela. Trata-se da velha teoria de que é "melhor um pássaro na mão do que dois voando". Entre os sete analistas e pesquisadores mais conhecidos da Argentina, é unânime a opinião de que Néstor Kirchner está muito próximo de ser o novo presidente da Argentina, enquanto Carlos Menem terá uma derrota esmagadora. Estes analistas acreditam que Kirchner terá um primeiro momento de governo de tolerância, já que há uma sociedade que quer um país melhor e este período poderá durar alguns poucos meses ou vários, dependendo de suas primeiras medidas. Também pensam que Kirchner terá de fabricar sua própria influência, desvinculada da que exerce Duhalde, no partido totalmente fragmentado, e também no Congresso e entre os governadores. Já o ex-presidente Carlos Menem é visto como um político que ainda manterá algum poder no justicialismo mas a corrente menemista está com seus dias contados, assim como o fim das esperanças de um terceiro mandato.O analista político Manuel Mora y Araujo (Ipsos-Mora y Araujo) acredita que Menem "não tem retorno, assim como Alfonsín (o ex-presidente da Unión Cívica Radical (UCR), Raúl Alfonsín, antecessor de Menem). A sociedade está dizendo que agora Menem e Alfonsin já não dão mais e Menem é um destes lutadores de box que não querem se aposentar nunca". Analía del Franco (Analogias Research International) também afirma que "o estilo menemista, a cultura menemista estão sendo diluídos e isso se dará quando a liderança forte exercida por Menem até hoje termine com a derrota nas urnas.Mas ele continuará opinando nos setores de poder e atuando na retaguarda". Para a socióloga Graciela Römer (Römer e Associados), "se Menem conseguir 40% dos votos, terá mais possibilidade de sustentar uma liderança em um setor do peronismo, mas estará muito limitado. No entanto, não acredito que seja o tipo de político que joga a toalha , embora seja derrotado, e a forma que usará para continuar na briga política, dependerá do resultado final das eleições e de como ficará o peronismo com o novo elemento chamado Kirchner, o presidente".

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