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Eleições europeias dirão se despertar das nações é fogo de palha ou incêndio florestal

Especialistas esquecem que o desamor pela UE e a paixão pela nação não são um fenômeno europeu, mas global

Gilles Lapouge*, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2019 | 01h00

Na Europa, a pergunta que se faz há muitos anos é sobre o sentido das eleições europeias. Para que servem? Por que tanto dinheiro jogado fora? Nenhuma resposta. Este ano começamos a compreender o que elas representam. Elas terão por missão dizer se o processo de demolição da União Europeia em curso há uma dezena de anos vai continuar se agravando ou se encontraremos uma cura milagrosa que salvará o velho barco.

Sem dar uma resposta, prefiro identificar os inimigos da UE. O mais terrível é a própria UE, seus exércitos de funcionários que substituíram o frescor e o ardor lírico dos primeiros dias por uma pirâmide de papéis e formulários que bloqueia todas as engrenagens. Mas vejo outro inimigo mais brutal, que não recruta todos seus soldados: a nação.

O retorno do conceito não diz respeito apenas à Europa. Estamos na presença de um dos seus maremotos favoritos, que vira o oceano do avesso. No nosso tempo, duas pessoas anunciaram o retorno das nações: Ronald Reagan, descrito como um imbecil que foi um bom presidente, e Margaret Thatcher, que não era apenas uma dama raivosa, mas uma das maiores dirigentes do século.

Em seguida, graças a suas fraquezas e suas crises, a Europa começou o trabalho da sua própria demolição. Da casa encantada que nos prometeram, não restou mais do que uma máquina pesada, grisalha e livresca. E vimos pouco a pouco se formar essa figura pública inédita e contrária à natureza: países que habitam o edifício comunitário, mas o rejeitam violentamente, em nome justamente das nações. 

E nos interrogamos com frequência sobre esse mistério. As eleições europeias nos dirão se o despertar das nações é fogo de palha ou um incêndio florestal. Mas um fato está diante de nós: os demolidores da UE montaram acampamento no centro dela. 

Esse fenômeno que rebaixa o continente diz respeito ao Leste Europeu, mas atinge também o lado ocidental. Especialistas esquecem que o desamor pela UE e a paixão pela nação não são um fenômeno europeu, mas global. Na Índia, o nacionalista Narendra Modi acaba de renovar seu mandado. Nas Filipinas, o nacionalista Rodrigo Duterte acaba de tomar de assalto o Senado. 

E não podemos nos esquecer de Vladimir Putin, Xi Jinping e Recep Tayyip Erdogan, que ascenderam aos escalões mais altos ecoando o conceito mágico de nação. O velho amigo de Trump, o norte-coreano Kim Jong-un, sujeita a duras penas seu povo e sua bomba nuclear em nome de uma “nação”. 

Trump não se contentou em utilizar a onda nacionalista para desenvolver seu poder barroco. Ele se empenha para desconstruir a UE, que sempre detestou, cuja necessidade e o seu uso jamais entendeu, e gostaria de ver substituída pelas velhas e corajosas “nações”. No Brasil, Bolsonaro é também um defensor do conceito de nação. No Reino Unido, Nigel Farage celebrou a nação britânica. E o partido que formou há algumas semanas disparou e reduziu os partidos tradicionais às sombras.

Claro que será surpreendente se as eleições europeias derem uma maioria a esse mosaico de países que deploram as fragilidades da UE. Pelo menos a votação servirá de ocasião para celebrar essa ideia de nação que acreditávamos estar morta, mas que renasce no início do século mais viva do que nunca. 

Talvez os lunáticos que se pavoneiam em Bruxelas encontrem agora uma ocasião de colocar o velho calhambeque na garagem e submetê-lo a um controle, antes de trocar suas peças defeituosas e seus faróis queimados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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