AP Photo/Dmitri Lovetsky
AP Photo/Dmitri Lovetsky

Eleições injustas e repressão: Por que milhares protestam contra o governo na Bielo-Rússia?

Considerada a última ditadura da Europa, Bielo-Rússia vê população ir às ruas contra governo autoritário de Lukashenko, eleição considerada fraudada e repressão brutal das forças policiais

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2020 | 12h00
Atualizado 23 de agosto de 2020 | 18h13

A  Bielo-Rússia vive desde 9 de agosto as maiores manifestações desde o fim do comunismo no país, ainda na década de 1990. A mobilização ocorre em dezenas de cidades do país do Leste Europeu após eleições consideradas fraudadas que deram nova vitória a Alexander Lukashenko, populista no poder há mais de 26 anos. Assim como no fim de semana passado, opositores estimaram uma participação superior a 100 mil pessoas em Minsk neste domingo, 23. 

As manifestações contra o governo no país europeu são tão grandes que em alguns casos nem mesmo as forças de segurança têm sido capazes de dissipá-las. Até o momento, mais de 7 mil pessoas foram presas, três morreram e até bielo-russos no exterior têm se manifestado. No domingo, as forças de segurança, incluindo o Exército, estavam presentes nos protestos e cercaram avenidas importantes, sem confrontos. 

Lukashenko, que nunca enfrentou tanta oposição, vê seu apoio minguar até mesmo em setores que eram seu reduto eleitoral no passado, como trabalhadores de fábricas estatais e mineradores. A população mais pobre, antes aliada, também tem virado as contas para o líder da 'última ditadura da Europa'. Nesta semana, a oposição criou um conselho de coordenação para permitir a transição democrática, que é alvo de investigação por "ameaçar a segurança nacional". 

O que mudou depois da eleição de 9 de agosto? 

Depois das eleições em que Lukashenko foi reeleito para um sexto mandato com improváveis 80% dos votos, diferentes regiões do país vivem protestos ininterruptos. Isso porque durante a campanha eleitoral, sua principal rival, Svetlana Tikhanouskayalevou milhares às ruas e, ao final, apareceu com menos de 10% nas urnas. Lukashenko é o líder há mais tempo no poder em todos os países que integraram a União Soviética. 

Ainda durante a campanha, outros três candidatos se apresentaram com chances, mas foram impedidos de concorrer. "Esses candidatos criaram um 'momentum' muito mais do qualquer candidato de oposição no passado. E o governo percebeu isso. Dois foram presos e um exilado", resume Joerg Forbrig, diretor de Europa Central e do Leste no centro de estudos German Marshall Fund. 

A esposa de um dos candidatos impedidos de participar, Svetlana Tikhanovskaya, decidiu lançar-se à campanha. A professora de inglês de 37 anos sem experiência política combinou seus esforços com as equipes das outras campanhas. "Foi uma situação que a Bielo-Rússia nunca viu no passado. Ela se tornou o rosto da mudança. Existe uma grande sensação no país de 'qualquer um menos Lukashenko'", explica Forbrig.

Tikhanovskaya se refugiou na Lituânia após as eleições depois de sofrer pressões e tem convocado manifestações pacíficas contra Lukashenko desde então. 

'Vitória roubada'

"Durante décadas, muitas pessoas foram contra Alexander Lukashenko, mas não sentiam que eram realmente a maioria e não achavam que podiam mudar alguma coisa", diz Lev Lvovskiy, pesquisador do Centro de Pesquisa e Divulgação Econômica da Bielo-Rússia (Beroc). "Desta vez, isso mudou. As pessoas sentem que realmente ganharam (nas urnas), mas a vitória lhes foi roubada". 

Lvovskiy explica que os protestos massivos, os maiores que Lukashenko já enfrentou, também tiveram a maior repressão do governo. "Muitas pessoas estão colocando suas vidas e carreiras em risco", diz, lembrando que a maior parte da economia da Bielo-Rússia é controlada pelo estado em um modelo "quase soviético".  

Na prática, os atos pedem novas eleições, a renúncia de Lukashenko, a libertação dos presos políticos e a responsabilização daqueles que cometeram crimes contra a população da Bielo-Rússia. 

Por que são as maiores manifestações desde o fim do comunismo? 

Ainda que Lukashenko tivesse apoio popular, o suporte ao líder populista foi caindo ao longo dos anos, principalmente por conta da estagnação econômica vivida pelo país desde 2010. Moradores de cidades e habitantes da zona rural viram os preços dos produtos subirem e suas rendas caírem, combinação que estimulou os cidadãos a pensarem em alternativas reais ao governo. 

Desde 9 de agosto, os atos não param no país de 10 milhões de habitantes, conhecido como a 'última ditadura da Europa'. Mulheres fizeram correntes de solidariedade nos atos e entregaram flores a policiais em atos pacíficos. Trabalhadores de fábricas estatais entraram em greve e jovens e adultos protestam juntos contra um estado ditatorial. "O fato de incluir todos os grupos da sociedade, em todos os locais da Bielo-Rússia, até mesmo as grandes companhias estatais, é absolutamente novo", afirma Joerg Forbrig, que já escreveu um livro sobre a política do país. 

Nos últimos dias, figuras públicas como medalhistas olímpicos, blogueiros e pessoas que no passado apoiaram Lukashenko manifestaram sua revolta contra a repressão. "Depois dos relatos de mortes e de torturas nas cadeias, tem ficado cada vez mais tóxico estar próximo de Lukashenko", acrescenta Vadim Mojeiko, pesquisador do Instituto Bielo-Russo de Estudos Estratégicos e professor associado da Universidade Estatal da Bielo-Rússia.  

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'Todo mundo está se levantando contra o governo, o que não é muito bom para um líder autoritário que quer ser 'o presidente do povo'. Agora parece que ele só é o presidente da polícia e de alguns burocratas'. 
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Vadim Mojeiko, professor da Universidade Estatal da Bielo-Rússia

Qual o significado desses atos para a política da Bielo-Rússia?

Esses não são protestos apenas contra um programa ou uma diretriz que a Bielo-Rússia adotou, mas sobre os próprios bielo-russos. "Eles estão cansados de terem alguém que diz sempre o que eles devem fazer. Eles querem ter o direito de escolher quem os guia. E para onde os guia", explica.

Para Forbrig, são críticas "contra um estado que congelou no tempo" vindas de uma sociedade que amadureceu muito nos últimos anos. "Lukashenko é visto como uma pedra no caminho do desenvolvimento do país. É um despertar cívico e uma mudança de humor na nação". 

O ativista político Piotr Markielau, de 25 anos, tem participado dos protestos e diz que boa parte da população não aguenta mais a falta de liberdade no país. "Esse sistema autoritário foi baseado no medo, as pessoas que apoiavam Lukashenko não iam aos seus eventos voluntariamente, eram forçadas", explica. "Não era por ideias, era uma motivação pelo medo de perder o emprego, de perder dinheiro. É isso que tem acontecido há 26 anos e as pessoas não aguentam mais"

Bielo-russos no exterior se solidarizam e também protestam 

As manifestações foram tão significativas que até mesmo os bielo-russos do exterior decidiram se manifestar em solidariedade aos seus compatriotas, algo que nunca havia acontecido antes. Cidades nos Estados Unidos e na Europa registraram atos em que cidadãos e descendentes de bielo-russos levavam cartazes e gritavam palavras de apoio à sociedade bielo-russa. 

O papel da Rússia e da União Europeia

A crise no país também foi tema da política externa da União Europeia e da Rússia. A UE não reconheceu o resultado das eleições na Bielo-Rússia. "Para nós, não há dúvida de que se produziram violações massivas do Estado de direito nas eleições", afirmou a alemã Angela Merkel. Para ela, a disputa não foi "nem livre nem justa".  

O presidente do Conselho Europeu, Charles Micheldisse que a UE "apoia com firmeza o direito do povo bielo-russo determinar seu futuro e se dispõe a aplicar em breve sanções contra um número substancial de responsáveis pelo regime". 

Por sua vez, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse neste domingo que não há provas de que Lukashenko não tenha vencido as eleições, já que não houve observadores internacionais. Lavrov pediu diálogo nacional na Bielo-Rússia e questionou a formação do comitê para transição de governo. "Há quem queira que a situação que se pacifica termine em violência, buscam provocar um derramento de sangue e que se repita o cenário ucraniano", afirmou. 

Sem evidências, Lukashenko afirmou constatar "manobras significativas das forças da OTAN na proximidade" das fronteiras bielo-russas, na Polônia e Lituânia e ordenou a seu ministro da Defesa que proteja a parte ocidental do país e tome medidas rígidas para defender a integridade territorial da nação.  

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