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Alfredo Estrella/AE/AFP
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Eleições mexicanas alteram o equilíbrio do poder no país

Resultados de eleição de meio de mandato no México mostram que a oposição na Câmara dos Deputados poderá funcionar como freio e contrapeso do Executivo

Americas Quarterly, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2021 | 05h00

Os mexicanos votaram no domingo em uma eleição que quebrou recordes: pelo número de cargos a serem preenchidos, perto de 20 mil, pelo número de candidatos e, finalmente, pelo comparecimento às urnas, de 52% dos eleitores. 

Os resultados foram heterogêneos para o partido governante, o Morena, que conseguiu conquistar o governo de vários Estados, o que confere ao partido uma sólida plataforma política para a eleição presidencial de 2024. 

Mas o Morena e seus aliados perderam a supermaioria de 334 assentos que detinham no Congresso, e a coalizão que apoia o presidente Andrés Manuel López Obrador (AMLO) terá maioria absoluta, de 279 assentos.

Os resultados mostram que a oposição na Câmara dos Deputados poderá “funcionar como freio e contrapeso do Executivo”, de acordo com o Goldman Sachs Research. O Morena e o presidente precisarão negociar para conseguir mudar a Constituição. A Americas Quarterly pediu para alguns observadores compartilharem suas impressões em relação à eleição.

 Martin Castellano, diretor de pesquisa em América Latina do Instituto Internacional de Finanças (IIF)

Mudanças institucionais potencialmente disruptivas que poderiam colocar a estabilidade macroeconômica em risco serão, provavelmente, evitadas em razão do resultado da eleição, o que deverá sustentar a economia no curto prazo. Dito isto, ainda esperamos que as políticas se tornem mais intervencionistas na segunda metade do mandato de AMLO. O partido governante continua sendo o maior bloco legislativo e conquistou a maioria dos governos estaduais em disputa na eleição.

Uma maior intervenção da economia poderia exacerbar os atuais desafios para manter a confiança dos investidores, que pedem políticas monetárias e fiscais mais rígidas. Com fatores idiossincráticos tornando-se cada vez mais relevantes, os rumos das políticas poderiam continuar a afastar o investimento privado, o que influenciaria a recuperação. Então, o cenário mais provável após as eleições de meio de mandato é de “radicalização contida de políticas”. Ainda que esse cenário implique manutenção da estabilidade macroeconômica, também significa que a economia poderia retornar à secular estagnação após se recuperar do choque da covid-19, o que não é bom presságio para os ativos mexicanos no médio prazo.

Uma coisa para prestar atenção é que uma atividade enfraquecida após a recuperação da pandemia poderia ocasionar um aumento na tensão social. Ainda assim, a alta popularidade de AMLO, provavelmente, dissipará pressões imediatas.

Genaro Lozano, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Ibero-americana e analista político do jornal ‘Reforma’ e da FOROtv

Em relação ao Congresso, o Morena continuou onde estava: o partido e seus aliados não foram capazes de garantir a “supermaioria” de dois terços dos assentos necessária para aprovar reformas constitucionais. A coalizão do Morena, porém, continuará a manter uma maioria absoluta graças a alianças com partidos menores, incluindo o Partido Verde, que aumentou seu número de deputados e foi o grande vencedor entre os nanicos.

Em geral, o Morena avançou nos Estados, vencendo disputas pelos Executivos e, ao que parece, também por Câmaras legislativas locais. Uma grande derrota para o Morena, porém, foi na Cidade do México, típico bastião de apoio a López Obrador. Aqui, o Morena está claramente perdendo votos entre eleitores com mais escolaridade, de classe média. Também em outras cidades, como Monterrey e San Pedro Garza, em Nuevo León, e Zapopán e Guadalajara, em Jalisco, o Morena terá de trabalhar duro para reconquistar esses eleitores.

Olhando adiante, ficarei atento para ver se o Morena interpretará esses resultados como um dever de mediar e negociar mais, convencer, em vez de impor. Também estarei atento à corrida presidencial de 2024. Nestas eleições, a prefeita da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, do Morena, ficou enfraquecida após as derrotas do partido em toda a capital. O favorito para disputar a presidência em 2024 continua sendo o ministro de Relações Exteriores, Marcelo Ebrard.

Carlos Bravo Regidor, analista político e professor do Centro de Investigação e Docência em Economia (CIDE).

A implicação mais importante disso é que López Obrador e seus aliados não terão mais a possibilidade de mudar a Constituição. O presidente precisará negociar para fazer acordos com os partidos de oposição e não será mais capaz de aprovar seus projetos no Legislativo com a facilidade que teve até agora. Não acho que isso signifique que ele adotará um tom mais conciliatório, talvez ao contrário. Ele poderá ficar mais agressivo, mas isso não passa de especulação.

Outros aspectos importantes: as disputas pelos governos parecem ter representado uma vitória clara para o Morena. Enquanto a coalizão de AMLO perdeu assentos na Câmara Baixa, o Morena não perdeu nenhum. Na verdade, o partido pode ter conquistado mais alguns. Mas a expectativa era a de que a legenda se daria muito melhor e, nesse sentido, o resultado foi decepcionante. Os apoiadores de AMLO tinham expectativas maiores, afirmavam que ganhariam de lavada.

Em suma, o Morena permanece resiliente na Câmara Baixa, mas a coalizão do governo, como um todo, se enfraqueceu. E a maior derrota do Morena foi na Cidade do México, onde o partido perderá várias municipalidades. A chave agora – e o que precisamos analisar – é a maneira com que o “lopezobradorismo” lidará com o seu enfraquecimento no Parlamento. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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