ALEJANDRO PAGNI / AFP
ALEJANDRO PAGNI / AFP

Eleições na Argentina: Alberto Fernández vence Macri e é eleito em 1º turno

Após vitória, BC planeja medidas para frear desvalorização do peso, em meio a uma crise econômica que fortaleceu candidatura de advogado de 60 anos; Macri admite derrota e chama rival para reunião

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 21h05
Atualizado 28 de outubro de 2019 | 07h54

BUENOS AIRES - O peronista Alberto Fernández foi eleito em primeiro turno neste domingo, 27, presidente da Argentina, tendo como vice Cristina Kirchner, mentora da chapa que devolve o poder à esquerda após quatro anos. Com 98% das urnas apuradas, ele obteve 48,03% dos votos e Mauricio Macri, 40,7%. O resultado deve ser confirmado pela Justiça Eleitoral argentina nos próximos dias.

Em discurso nesta noite, Macri reconheceu a derrota. "Vamos seguir trabalhando juntos pelos argentinos", disse."Felicitei Fernández e o convidei para uma transição ordenada."

Um dos planos de Fernández para estancar a crise econômica é um plano de congelamento de preços por 180 dias e garantir um aumento salarial de emergência – a inflação acumulada no último ano está perto de 60%.

A eleição garante a Cristina uma cadeira no Senado, o que também assegura a ela imunidade parlamentar. A ex-presidente enfrenta uma série de acusações de corrupção.

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O partido de Macri manteve o controle da capital, com a reeleição de Horacio Rodríguez Larreta. Na Província de Buenos Aires, onde o ex-ministro da Economia de Cristina, Axel Kicillof, foi eleito com folga, em uma derrota importante para Macri. Os argentinos renovaram ainda 130 dos 257 deputados e 24 dos 72 senadores.

Mesmo antes do anúncio, centenas de militantes da chapa peronista tomaram algumas das principais avenidas de Buenos Aires. A mobilização ocorreu após números de pesquisas de boca de urna foram difundidos informalmente, apesar da proibição determinada por lei. Àquela altura, consultoras apontavam 51% para Fernández, ante 36% para Macri.

Também antes da divulgação oficial, Fernández apareceu em um vídeo tomando vinho e cantando com amigos em sua casa. Ele alimentou a festa antecipada de militantes, que repetiam principalmente a frase “Cristina voltou”, em lugares como a esquina da avenidas Corrientes e Dorrego.

Fernández agradece a Cristina e elogia Lula

"Agradeço a Cristina", foram as primeiras palavras de Fernández ao falar com jornalistas e militantes entre as grades de sua garagem no bairro de puerto Madero. Durante o dia, ele publicou uma foto mostrando a letra L com a mão esquerda, em uma alusão ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dias após ser indicado por Cristina, Fernández visitou Lula na prisão em Curitiba. 


De baixo perfil e há anos afastado da política ativa, Alberto Fernández se tornou a surpresa da campanha eleitoral da Argentina. Peronista moderado e pragmático, está prestes a chegar à presidência, alavancado pela ex-presidente e companheira de chapa, Cristina Kirchner.

Advogado de 60 anos, ele chegou às eleições como franco favorito, depois de obter 47% dos votos nas primárias de agosto, apoiado por uma oposição peronista unificada. Um resultado surpreendente para alguém que disputou uma eleição popular apenas uma vez, em 2000, nas legislativas da cidade de Buenos Aires. 

Seu desempenho de mais destaque foi como chefe de gabinete do  Néstor Kirchner (2003-2007), assim como de Cristina, em 2008. Naquele ano, ele rompeu com sua agora vice. Depois de ela acusá-lo de defender interesses do grupo de comunicação Clarín em seu governo, Fernández publicou uma carta aberta no jornal La Nación, acusando-a de mentirosa e insinuando que lhe faltava equilíbrio emocional.

Ambos usam esse desentendimento como argumento para atestar a independência de Fernández, contra aqueles que o acusam de ser uma  marionete de Cristina.

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"Fernández governará. Terá de obter consensos com Cristina, mas o presidencialismo na Argentina é muito forte. Fernández renunciou em 2008 e ela não conseguiu controlá-lo. Conseguirá menos agora", disse ao Estado analista Raúl Aragón.

Em Buenos Aires, a votação começou sob garoa, às 8h. A chuva não impediu que Fernández repetisse o hábito de levar seu cachorro collie Dylan para passear em um parque do bairro de Puerto Madero, onde vive. Entre dezenas de jornalistas, o advogado de 60 anos ajudou o animal a se exercitar jogando uma bola de tênis no gramado.

Cerca de 100 mil agentes públicos de segurança, entre homens do Exército e da polícia, estão nas ruas, para garantir a tranquilidade nas 14.546 escolas de todo o país, que recebem as 100.185 mesas de votação, até às 18h.

Estavam habilitados a votar 33,8 milhões de argentinos. Além do presidente, eles escolheram 130 dos 257 deputados e 24 dos 72 senadores. /Com agências internacionais

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