Rodrigo Cavalheiro / Estadão
Rodrigo Cavalheiro / Estadão

Eleições na Argentina: crise faz família trocar Recoleta por favela vizinha

Confeiteira leva filhos para morar na Villa 31, onde a taxa de homicídios é 11 vezes mais alta que em bairro de elite

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 12h00

BUENOS AIRES - A confeiteira Mariela Ayala costuma convidar as ex-vizinhas para conhecer sua nova casa, mas nem sinal delas. É que a aristocrática Recoleta e a popular Villa 31, onde ela agora vive, têm indicadores e estilos de vida antagônicos, ainda que estejam separadas por apenas uma avenida e uma linha de trens. 

A taxa de homicídios, por exemplo, é 11,3 vezes mais alta. São 6,7 mortos a cada 100 mil habitantes em toda Buenos Aires, ante 76 na favela, diz o Ministério da Segurança.

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A crise econômica agravada no último ano e tema crucial das eleições argentinas deste domingo, 26, aumentou a pobreza e afetou diretamente a qualidade de vida da classe média, extrato social mais emblemático do país.

Famílias tiraram filhos da escola particular, renegociaram planos de saúde e buscaram aluguéis mais baratos, mas o caso de Mariela, de 46 anos, tem um simbolismo extremo. 

Depois de perder o emprego na Recoleta, ela deixou de ter garantias exigidas para um aluguel. Ficou sem cartão de crédito e comprovante de renda. Recorreu à Villa 31, onde tais formalidades são dispensáveis e a localização é praticamente a mesma.

Da Recoleta à favela

Um quarto como o alugado na favela pelo Estado nesta cobertura eleitoral, dedicada a mostrar como parte da classe média mudou seu padrão, custa 5 mil pesos (R$ 350).

Mariela trocou o ambiente de palacetes pelo de casebres depois de enviuvar pela segunda vez, aos 38 anos (a primeira viuvez veio aos 28). Chegou há quatro meses a esta favela plana, distribuída em uma área equivalente a 32 campos de futebol. Diz não ter vergonha de agora ser um dos 40 mil habitantes.

“Muita gente nessa situação teria entrado em depressão, ido morar na rua. Nem todo mundo conseguiria superar. Levanto às 8h para trabalhar e às vezes durmo de madrugada. Acho que é um exemplo para os meus filhos, para eles saberem dar valor ao que têm e não se acomodarem”, pondera. 

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Confeitaria para salvar a renda da família

Sem o oportunidade com carteira assinada, ela decidiu fazer tortas – principalmente para aniversários, Páscoa e Natal – e vendê-las pela internet. Assim, não paga impostos e tem uma renda 50 mil pesos (R$ 3,3 mil), o que a coloca com folga dentro da classe média.

Ao chegar à Villa 31, Mariela passou a pagar 18 mil pesos (R$ 1,2 mil) de aluguel por uma casa com três ambientes. Ela dorme no quarto com dois dos seus três filhos.

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Agora, está se mudando para um apartamento menor, mas mais novo, a duas quadras. Vai pagar 12 mil pesos (R$ 800).

O gasto total em um apartamento de duas peças hoje na Recoleta, para onde ela quer voltar, seria de 50 mil pesos (R$ 3,3 mil). “O aluguel não é muito mais caro, o problema na Recoleta é pagar condomínio, a luz, o gás e a água”, afirma. Na favela, os serviços que não são “contrabandeados” são subsidiados.

Saudades da baixa criminalidade

Dos dois anos em que viveu na Recoleta, Mariela tem saudade principalmente de não se preocupar com a segurança dos filhos, que continuam frequentando a mesma escola pública no bairro nobre bonaerense. “Iam sozinhos ao catecismo, à natação”, lembra. Na favela, eles saem somente acompanhados dos amigos. 

Na sexta-feira, Manuela observava seu filho do meio, Franco, tirar rugas de uma camisa em uma tábua de passar roupas. “Ele vai hoje para a primeira entrevista de emprego, no McDonald’s”, disse a confeiteira, com um orgulho que despertou certo constrangimento no filho, de 17 anos. 

“Não acho que faça tanta diferença morar aqui ou na Recoleta. Já estamos acostumados com o ambiente”, diz. Sua irmã, Victoria, tem opinião semelhante. “Temos nossos amigos aqui, não faço questão de me mudar. Nem de ter um quarto só para mim”, diz a adolescente de 15 anos.

Mariela sente falta de serviços básicos. “Aqui não chega o correio, não posso pedir comida, não entra táxi ou ambulância”, lamenta.

Por isso, ela não recrimina as amigas que ignoraram seus convites. “Eu também tinha muito medo daqui antes de me mudar”, admite.

Embora esteja economizando para voltar à Recoleta, um ponto preocupa a confeiteira. “A clientela aqui na favela é muito melhor. Quem mais gasta, é quem menos tem. Na Recoleta, o pessoal pede desconto, pechincha, pede prazo para pagar. Teria que manter minha clientela aqui.”

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