Jorge Guerrero / AFP
Pedro Sánchez discursa durante comício em Torremolinos Jorge Guerrero / AFP

Eleições na Espanha: Guia para entender a votação

Espanhóis vão às urnas neste domingo pela quarta vez em quatro anos

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 10h22

MADRI - Manifestações violentas na Catalunha, exumação dos restos mortais do ditador Francisco Franco, força da extrema direita, fragmentação e instabilidade política. Estes são as questões-chave para as eleições legislativas deste domingo na Espanha, as quartas realizadas em quatro anos. Entenda cada um desses pontos abaixo.

Protestos na Catalunha

Após anos acreditando em seu caráter pacífico, o separatismo catalão experimentou uma mudança no clima com os protestos em Barcelona e em outras cidades da região, depois que o Tribunal Supremo da Espanha condenou nove líderes independentistas a longos anos de prisão pela tentativa de separação de 2017.

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Elisenda Paluzie, líder da associação separatista ANC, avalia que as imagens de barricadas em chamas e das ações dos policiais contra os manifestantes “tornam o conflito visível” aos olhos do mundo.

Em nome da “temperança”, o primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez se negou a tomar medidas extremas, como exigia a direita opositora - o Partido Popular (PP) e o Ciudadanos -, ainda que tenha endurecido seu discurso em direção ao separatismo, o que o levou a ser qualificado como “reacionário”.

O fator Vox

A instabilidade na Catalunha tem, segundo as pesquisas, um beneficiário: o partido de extrema direita Vox, que nas legislativas de abril entrou na Câmara baixa do Parlamento com 24 deputados, de um total de 350.

De acordo com várias sondagens, esta formação - que se propunha a suspender a autonomia catalã e tornar ilegais os partidos e associações separatistas - poderia passar de quinta para terceira maior força política do país.

O surgimento repentino do Vox é uma das grandes novidades na Espanha, que até agora não contava com nenhum partido significativo de extrema direita, e reconfigurou o mapa do conservadorismo espanhol.

Graças ao apoio parlamentar do Vox, PP e Ciudadanos governam em coalizão as regiões de Andaluzia, Madri e Múrcia, e controlam também a prefeitura da capital.

Pablo Fernández Vázquez, professor de ciências políticas na Universidade de Pittsburgh, avalia que “o bloco da direita tem muita dificuldade para entrar em acordo” com quem está do lado de fora. Assim, só conseguiria governar a Espanha no caso improvável de obter maioria absoluta.

Francisco Franco

Sánchez acabou se envolvendo em uma polêmica ao exumar os restos mortais do ditador Francisco Franco do Vale dos Caídos, o mausoléu onde estava desde que morreu, em 1975, para enterrá-los novamente em um terreno da família.

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Os socialistas destacaram como um feito histórico a exumação, obtida após uma grande batalha judicial com os netos do ditador.

Contudo, Fernando Vallespín, cientista político e ex-presidente do Centro de Investigações Sociológicas (CIS), acredita que isso não terá consequências apenas nas eleições, e “não terá o efeito que o governo, de forma otimista, pensava que iria ter”.

Fragmentação crescente

O tradicional bipartidarismo PP-PSOE acabou em 2015 e, desde então, a fragmentação aumentou cada vez mais.

No lado conservador concorrem três partidos: Ciudadanos, Vox e PP - este em ascensão e que, segundo Vallespín, tem a “possibilidade de contar com o voto útil da direita”, fortalecida pela crise na Catalunha.

Na esquerda, há outros três: PSOE, Podemos e Más País, uma divisão do partido de Pablo Iglesias liderada por seu ex-número 2 Íñigo Errejón.

No setor do independentismo catalão a formação Juntos pela Catalunha, promovida pelo ex-líder regional Carles Puigdemont, e a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) se uniram ao CUP, da extrema direita.

Instabilidade

Com a política espanhola mergulhada em uma lógica de blocos, as pesquisas preveem o risco de uma nova situação de paralisia, da qual não fariam parte PSOE, Podemos e Más País, de um lado, nem PP, Ciudadanos e Vox, de outro.

Os nacionalistas catalães seriam os que poderiam conseguir mais de 20 deputados, ainda que os socialistas não estejam buscando apoio.

O remédio extremo poderia vir de uma abstenção do PP, para permitir que Sánchez iniciasse a legislatura, ainda que os “populares” não queiram falar dele em público. / AFP

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    Conheça os cinco principais candidatos às legislativas

    PSOE, PP, Vox, Podemos e Ciudadanos disputarão no domingo os votos dos espanhóis

    Redação, O Estado de S.Paulo

    08 de novembro de 2019 | 09h15

    MADRI - Do líder do governo, o socialista Pedro Sánchez, a seu principal rival, o conservador Pablo Casado, passando pelo líder de uma extrema direita em ascensão, Santiago Abascal, veja quem são os cinco principais candidatos que se enfrentarão no domingo nas eleições gerais espanholas.

    Pedro Sánchez, Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE)

    O economista madrilenho de 47 anos chega como favorito às eleições, embora sem opções claras para mais um mandato como líder do governo.

    Sua vida política foi marcada por sobressaltos: levou o socialismo a seus piores resultados nas eleições de 2016 e foi defenestrado pela liderança de seu partido, mas as bases o restituíram em 2017 e, em junho de 2018, chegou ao poder graças a uma moção de censura que desbancou o conservador Mariano Rajoy.

    Ao perder o controle de seu orçamento, convocou as eleições, em abril, quando o PSOE venceu com 123 deputados - a Câmara tem um total de 350. 

    Sánchez não conseguiu formar um governo de coalizão com a esquerda radical do Podemos, levando o país à nova eleição legislativa deste domingo. 

    Com uma postura mais firme diante dos separatistas catalães e alegando ter exumado o ditador Francisco Franco de seu mausoléu, Sánchez pede uma "participação maciça" para "um governo forte avançar na justiça social", mas pesquisas alertam que os socialistas devem perder terreno.

    Pablo Casado, Partido Popular (PP)

    Líder mais jovem do partido conservador, o graduado em direito de 38 anos procura reverter o pior colapso eleitoral do PP, em abril, quando tinha 66 cadeiras na Câmara.

    Desde que assumiu as rédeas do PP em julho de 2018, ele imprimiu um toque conservador ao partido, contando com o apoio da extrema direita do Vox para governar regional e localmente.

    Agora, com um discurso mais suave do que o que ele usou contra Sánchez antes de abril, as pesquisas preveem que ele recuperará parte do espaço perdido, apesar de chegar em segundo lugar.

    "O que temos hoje é um referendo sobre Pedro Sánchez", disse Casado na segunda-feira em um debate na televisão, dizendo que ele é o único que pode enfrentar "a crise econômica e social" deixada pelo líder socialista.

    Santiago Abascal, Vox

    Ex-militante do PP de 43 anos, ameaçado pelo grupo armado basco ETA em sua juventude, Abascal procura continuar a consolidação do Vox, um partido ultranacionalista, anti-imigração e antifeminista que se tornou a quinta força política em abril e agora pode subir para o terceiro lugar, de acordo com pesquisas. 

    Ele tira proveito de seu discurso hostil contra o separatismo catalão e seus ataques virulentos a Sánchez por "profanar" o túmulo de Franco. Abascal, cuja estratégia utiliza principalmente redes sociais, não hesita em atacar a "direita covarde" do PP e do Ciudadanos. 

    O Vox é "a alternativa patriótica" a todas as partes "que representam o consenso progressivo", disse Abascal no debate, no qual pediu a ilegalidade dos partidos separatistas, acusou a imigração ilegal de "encher nossas ruas de crime" e criticou a lei contra violência de gênero

    Pablo Iglesias, Podemos

    O inconformado e ex-professor de ciência política de 41 anos levou seu partido a se tornar a terceira maior força política do país em 2015 e a contribuir para o fim do bipartidismo junto ao Ciudadanos.

    Iglesias chega no domingo desgastado pelas críticas à hiper-liderança e divisões internas no Podemos, que levaram ao surgimento de um partido rival liderado por seu ex-número dois, Íñigo Errejón

    Embora o partido possa manter sua posição de quarta força no Congresso, as pesquisas apontam para a perda de vários assentos.

    Albert Rivera, Ciudadanos

    Nascido em Barcelona, o liberal de 39 anos, que defende a unidade da Espanha diante dos separatistas catalães, conseguiu - com um discurso de centro - que seu partido entrasse como a quarta força no Congresso em 2015.  

    Depois, ele se inclinou para a direita e liderou o Ciudadanos para ser a terceira força em abril. 

    Agora, as pesquisas o penalizam por não ser uma opção a se desbloquear e podem perder mais da metade dos votos e cair para o quinto lugar. / AFP

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      Eleições na Espanha: A instabilidade política se torna crônica

      País realiza quatro pleito em quadro anos com um Parlamento muito fragmentado

      Redação, O Estado de S.Paulo

      08 de novembro de 2019 | 12h00

      MADRI – A Espanha, que realiza neste domingo, ,10, suas quartas eleições legislativas em quatro anos, sofre desde o final de 2015 um instabilidade política crônica, com um Parlamento muito fragmentado. Relembre os principais fatos que marcaram este período.

      Dezembro de 2015: o bipartidarismo explode

      As eleições legislativas de 20 de dezembro de 2015 marcam o fim do bipartidarismo entre o Partido Popular (PP, conservador) de Mariano Rajoy, que vence embora tenha perdido sua maioria absoluta, e o Partido Socialista (PSOE), que fica em segundo lugar, mas também cede terreno.

      Dois novos partidos – Podemos (esquerda radical) e Cidadãos (centro direita) – entram com força no Parlamento fracionado como nunca desde o restabelecimento da democracia em 1977, após o fim da ditadura de Francisco Franco.

      Diante da impossibilidade de compor uma coalizão de governo, são convocadas novas eleições, em 26 de junho de 2016. O PP consegue um ligeiro avanço, mas o bloqueio persiste.

      Outubro de 2016: Rajoy toma posse

      Depois de dez meses de paralisia política, Mariano Rajoy é empossado como presidente do governo, mais uma vez, em 29 de outubro, graças aos votos do Cidadãos e à abstenção de uma parte dos socialistas.

      Pouco antes, estes últimos haviam defenestrado seu líder, Pedro Sánchez, defensor do “não é não”, culpando-o pelo pior resultado eleitoral dos socialistas em 40 anos.

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      Junho de 2018: Sánchez destrona Rajoy

      Em 24 de maio, o PP é condenado em um megaprocesso por corrupção. Devolvido à liderança do PSOE pelas bases, Pedro Sánchez apresenta uma moção de censura contra Rajoy.

      Sai vitorioso em 1º de junho e se torna presidente do governo, graças aos votos do Podemos, dos nacionalistas bascos e dos separatistas catalães.

      Fevereiro de 2019: sem orçamento, novas eleições

      À frente do governo mais minoritário da democracia espanhola, Sánchez apresenta um orçamento antiausteridade, negociado com o Podemos, com a esperança de esgotar a legislatura em junho de 2020.

      Fracassam, porém, as negociações com os separatistas catalães, que reivindicam um referendo de autodeterminação inaceitável para Sánchez. Isso coincide com o início, em Madri, em 12 de fevereiro, de um histórico julgamento contra dirigentes separatistas.

      Com o orçamento travado pelos separatistas, PP e Cidadãos, Sánchez convoca eleições antecipadas para 28 de abril.

      Para Entender

      Além de Francisco Franco, veja outros líderes exumados ao longo da história

      Stalin foi enterrado no mausoléu de Lenin, mas depois de oito anos seus restos mortais foram transferidos para um local mais modesto

      Setembro de 2019: Sánchez sem apoio

      Vencedor das eleições, Sánchez se torna o único candidato com chances de formar governo, mas tem apenas 123 deputados de 350 em um Congresso ainda mais fragmentado pelo surgimento do ultradireitista Vox.

      Em julho, sua tentativa de ganhar a confiança dos deputados fracassa pela abstenção da esquerda radical do Podemos. A sigla considera insuficiente a oferta de coalizão oferecida pelos socialistas.

      Dois meses mais tarde, Sánchez não consegue o apoio do Podemos, nem a abstenção dos liberais do Cidadãos, nem dos conservadores do Partido Popular (PP) em uma hipotética sessão de posse. Diante do bloqueio, são convocadas novas eleições, em 10 de novembro.

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