Jasper Juinen, Bloomberg
Jasper Juinen, Bloomberg

Crise com Turquia se agrava e marca eleição na Holanda

Ancara expulsa embaixador e fecha espaço aéreo a voos holandeses; candidatos tentam tirar proveito da disputa na votação de amanhã

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2017 | 12h47

O governo da Turquia baniu nesta segunda-feira o embaixador da Holanda e suspendeu todo contato diplomático de alto nível com Amsterdã. Segundo Ancara, aviões provenientes da Holanda serão proibidos de sobrevoar a Turquia e seus diplomatas e representantes, impedidos de entrar no país. 

 O governo de Recep Tayyip Erdogan ainda ameaçou rever o acordo sobre imigração que assinou com a União Europeia desde que o fluxo de refugiados sírios para o continente aumentou exponencialmente a partir de 2014. 

A crise diplomática com a Turquia tem tomado conta da campanha na reta final das eleições gerais na Holanda, marcadas para amanhã. A tensão começou no sábado, quando dois ministros turcos foram impedidos de participar de um comício em Roterdã em favor de Erdogan e da reforma constitucional em discussão no país, que aumenta os poderes do presidente turco – a intenção do evento era angariar votos de turcos residentes na Holanda para um referendo sobre o assunto. 

“Estamos fazendo exatamente o que eles fizeram conosco”, disse o vice-primeiro-ministro, Numan Kurtulmus, sobre a suspensão dos laços diplomáticos e a decisão de impedir que o embaixador holandês volte ao país. 

Voto. A Holanda realizará amanhã eleições que têm sido vistas como o “primeiro teste” para a UE em 2017 em meio a um crescimento de partidos populistas no continente. O atual primeiro-ministro, Mark Rutte, do Partido Popular Liberal e Democrata (VVD), divide o favoritismo com o radical islamofóbico Geert Wilders, do Partido pela Liberdade (PVV). Ambos tentam tirar proveito político da crise diplomática com a Turquia de Erdogan, que no fim de semana afirmou que a Holanda é uma “república de bananas”.

A eleição holandesa é a primeira de uma série de votações nos maiores países da UE neste ano. Por isso, todos os olhos se voltam para o desempenho de Wilders, líder da extrema direita. Segundo pesquisa, Rutte reassumiu a liderança das intenções de voto. Seu partido tem 18% da preferência, à frente do partido de Wilders, com 16%. Na prática, o atual premiê teria 27 deputados no Parlamento, de um total de 150, enquanto seu rival teria 24 assentos. Em terceiro lugar ficaria o Partido Democrata-Cristão (CDA), com 12,5% dos votos.

Apesar do aumento expressivo no número de cadeiras dominadas pelo partido de Wilders no Parlamento, segundo as pesquisas, especialistas não veem chances de vitória. Para Famke Krumbmüller, analista de risco político da consultoria Open Citiz, a chance de que a extrema direita de fato chegue ao poder na Holanda é próxima de zero. “Wilders como primeiro-ministro me parece fora de questão. Mesmo que seu partido chegue em primeiro, seria preciso encontrar três ou quatro outros partidos para uma coalizão, no momento em que todos os outros são contrários ao PVV.” 

Mas o cenário na UE joga luz sobre o desempenho do candidato da extrema direita, mesmo que não consiga votos para se tornar primeiro-ministro. A preocupação com a ascensão do populismo está presente em diferentes países europeus, como a França, onde Marine Le Pen lidera as pesquisas para o primeiro turno, ou na Alemanha, que vê o partido radical Alternativa para a Alemanha (AfD) ganhar terreno. 

A grande questão em relação à Holanda é como um país com baixo índice de pobreza, com crescimento do PIB da ordem de 2% e próximo do pleno emprego foi tão receptivo às ideias radicais. A principal explicação diz respeito à imigração, em especial muçulmana, que hoje responde por 1 milhão, dos 17 milhões de habitantes do país.

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