REUTERS/Michael Kooren
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'Eleições na Holanda serão as mais delicadas de 2017'

Para analista italiano, cientista político da Universidade Livre de Bruxelas e da Universidade Luiss, de Roma, e membro da Academia Real da Bélgica, pressão pela desintegração da União Europeia vem acompanhada de ações pela integração

Entrevista com

Mario Telo

Andrei Netto, Correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

11 Dezembro 2016 | 05h00

Considerado um dos maiores especialistas do mundo em integração europeia, o italiano Mario Telo, cientista político da Universidade Livre de Bruxelas e da Universidade Luiss, de Roma, e membro da Academia Real da Bélgica, é uma das raras vozes otimistas nas principais capitais europeias.

Para o autor de "A Europa em crise e o mundo" (L'Europe en crise e et le monde) e "Regionalismo em tempos difíceis" (Regionalism in hard times), as eleições na Holanda serão as mais delicadas de 2017, mas até mesmo o Brexit pode ser uma oportunidade positiva para Bruxelas ampliar a integração. A seguir, a entrevista ao Estado.

- É provável que as quatro maiores potências da UE - Alemanha, França, Itália e Holanda - enfrentem eleições em 2017, em meio à onda populista e antissistema. Quais são os riscos para o bloco?

Os pesquisadores estão de acordo que todas as democracias ocidentais enfrentam problemas provocados pelo mal-estar com a globalização e a corrupção de uma parte das elites. O que é novo é que o crescimento dos populistas e antissistema não está mais apenas no nível de movimentos de protesto, mas agora visam o poder político. Eles chegaram ao poder não só na Hungria e na Polônia, mas também nos Estados Unidos, o país líder do Ocidente. As mudanças de governo provocam efeitos, como o protecionismo, o nacionalismo, a xenofobia, contrários a nossos valores ocidentais comuns, tanto na política exterior quanto na Europa. Há rejeição em relação à moeda única, à política comum de imigração, à política comercial comum. 

- Onde o risco é maior?

O país mais inquietante é a Holanda, onde as pesquisas anunciam que o partido de Geert Wilders está em primeiro nas eleições de março. Na França, Marine Le Pen chegará ao segundo turno, mas 65% dos franceses recusam seu nome e François Fillon (direita liberal-conservadora) pode ganhar se aceitar um programa mais centrista. A Itália tem uma maioria parlamentar de centro-esquerda na Câmara, apesar do referendo negativo sobre a modernização constitucional, e o presidente Sergio Mattarella não quer eleições antes de data natural, em 2018. Só os erros de Matteo Renzi poderiam precipitar a situação italiana. A Alemanha é rica, tem apenas 5% de desemprego e a democracia é mais estável. Ela confirmará seu papel estabilizador com uma nova vitória de Angela Merkel em setembro, em nova coalizão com o Partido Social-Democrata (SPD). Não creio em um risco de implosão em 2017, mesmo que venha a ser um ano muito difícil. 

- Quais foram os erros da União Europeia no curso de sua história que justificam a rejeição de uma parte tão importante da opinião pública?

Na Europa do Sul, o desemprego de massa dos jovens explica os protestos antissistema. No Norte, o crescimento do populismo em favor da desintegração se deve à percepção negativa de dois aspectos da globalização: a imigração e o liberalismo comercial. A UE é considerada culpada, com frequência injustamente e como um bode expiatório, por líderes populistas manipuladores, às vezes fascistas, que exploram medos irracionais de uma parte da população.

- E quais são as chances de a UE sair reforçada da crise?

As tendências pela desintegração vêm acompanhadas de tendências pela integração. Fora da UE ignora-se os progressos enormes de união econômica na zona do euro realizados nos últimos seis anos: a união bancária, o fundo comum contra crises, com € 800 bilhões, que salvou de fato a Irlanda, Portugal e a Grécia da falência. Além disso, o início da unificação da defesa e da segurança europeia está em curso.

 

- Além do calendário eleitoral, Bruxelas também precisa gerenciar a saída do Reino Unido do bloco. O senhor acredita que o Brexit é uma ameaça ou uma oportunidade para a UE?

Eu creio que o Brexit é uma oportunidade para a UE. Antes de mais nada, as relações de força são favoráveis à UE frente ao Reino Unido. O Reino Unido vende 50% de suas exportações para a Europa, enquanto para a UE o Reino Unido representa 10%. Se Londres quiser um "hard Brexit", as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) serão aplicadas, o que será um desastre para os britânicos. Se o Reino Unido quer uma solução dentro da arquitetura europeia atual, pode tentar negociar um status como o da Noruega, sem livre circulação de cidadãos, mas nesse caso será um status satélite. Já a UE pode usar essa oportunidade para consolidar a união no núcleo da zona do euro, ao aprofundar suas políticas econômica, social, de defesa, de segurança, de imigração, e organizar círculos concêntricos exteriores com a Rússia, países candidatos a membros e a Turquia, por exemplo.  

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