Alexei Nikolsky, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Alexei Nikolsky, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

Eleições na Rússia: Kremlin e oposição disputam o voto da ‘geração Putin’

Menos da metade dos jovens com idades entre 18 e 24 anos diz que votará, de acordo com uma pesquisa do instituto público VTsIOM; 82% deles afirmam que votarão em Putin

O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 07h00

SOCHI, RÚSSIA - Entre duas aulas, a universitária russa Irina Papandopoulo enumera as qualidades que aprecia no presidente Vladimir Putin: "É forte, diplomático, próximo do povo, pratica esportes".

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Esta jovem de 21 anos que estuda turismo em Sochi, no sul da Rússia, votará pela primeira vez nas eleições presidenciais de 18 de março. Praticamente só conheceu Putin como chefe do país porque, desde 1999, ele é presidente ou primeiro-ministro.

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A "geração Putin" desperta muito interesse desde que o opositor Alexei Navalni mobilizou em 2017 milhares de partidários saindo da adolescência ou que ainda estavam nela. O opositor, que não conseguiu se candidatar à presidência este ano, pede que seus eleitores boicotem as eleições, enquanto o Kremlin tenta conquistar a simpatia dessa faixa etária.

No dia do anúncio de sua candidatura para um quarto mandato, Putin participou de um fórum da juventude. Quando perguntou ao público se ele o apoiaria se buscasse a reeleição, os jovens gritaram: "Sim!".

Desde então, participou de vários eventos dedicados à juventude e, para seduzi-los, nomeou Elena Shmelieva como chefe da campanha. Ela administra um centro de desenvolvimento de jovens em Sochi.

Menos da metade dos jovens com idades entre 18 e 24 anos diz que votará, de acordo com uma pesquisa do instituto público VTsIOM, mas quase 82% deles afirmaram que votarão em Putin. "Seu apoio e aprovação do candidato Putin é maior do que em outras faixas etárias", explica Denis Volkov, do centro de pesquisa independente Levada.

Para encorajá-los a votar, a União da Juventude da Rússia, uma organização que trabalha regularmente em eventos ligados ao Kremlin, organizou shows em institutos e universidades.

"A estabilidade é a chave para o sucesso", diz a estudante de direito de 21 anos Diana Cheniakovskaya, como uma justificativa para seu apoio ao presidente russo, que muitas vezes sugere a ameaça de "caos" na Rússia e um retorno à turbulência da década de 1990 se deixar o poder.

“Muitas pessoas têm medo da mudança", afirma Olesia Khristosienko, uma militante pró-Navalni que prega cartazes em um subúrbio de Sochi pedindo um boicote às eleições. Ela ressalta que as únicas coisas que permaneceram "estáveis" sob Putin foram "corrupção e baixos salários".

"O que as pessoas pensam é que a situação é ruim, mas suportável. Nem imaginam que as coisas podem melhorar" com um novo líder, lamenta a garota de 20 anos. Uma semana antes, a polícia revistou o local de campanha onde ela trabalha e alguns professores alertaram os militantes pró-Navalni que seu envolvimento causaria problemas na universidade, relata Olesia.

Os jovens "que forem votar, votarão em Putin, mas serão poucos. Não porque sejam contra ele, mas porque não querem se envolver na política", explica o analista Denis Volkov.

A imprensa estatal ignora a oposição, que conseguiu se fazer ouvir entre os jovens por meio das redes sociais, especialmente graças aos vídeos em que Alexei Navalni denuncia a corrupção das elites. No entanto, a opinião da maioria dos jovens não será afetada pelo que eles veem nesses ambientes, diz o especialista.

Nikita, de 23 anos e funcionária em Sochi, prefere assistir às notícias na televisão pública. Sente orgulho do seu presidente, mas não tem certeza de que vai votar. "Tudo depende se nesse dia vou trabalhar ou se estarei cansado. Nunca votei e não acho que meu voto mude as coisas em um país tão grande.” / AFP

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Nas eleições russas, sete candidatos contra Putin e uma grande ausência

Alexei Navalni não participará da disputa pois a Comissão Eleitoral rejeitou sua candidatura; conheça os rivais do líder na votação deste ano

O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 10h26

MOSCOU - O líder russo, Vladimir Putin, enfrentará sete candidatos nas eleições presidenciais de 18 de março, mas não o seu principal opositor, Alexei Navalni, declarado inelegível para o pleito. Saiba mais sobre os rivais do presidente abaixo.

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Alexei Navalni

Conhecido por suas investigações sobre a corrupção das elites, que foram muito compartilhadas nas redes sociais, o carismático advogado surpreendeu com as grandes manifestações organizadas em 2017 contra o governo.

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Aos 41 anos, confirmou a posição de opositor número um do Kremlin, o único capaz de mobilizar milhares de pessoas contra o poder. Mas a eleição não permitirá medir sua verdadeira popularidade entre os russos, já que a Comissão Eleitoral rejeitou sua candidatura por uma condenação judicial, a qual ele considera fabricada. Navalni defendeu o boicote à eleição, prometeu ações de protesto e deseja mobilizar observadores para monitorar a votação.

Pavel Grudinin

A candidatura surpresa de Pavel Grudinin, de 57 anos, rejuvenesceu o Partido Comunista, que era representado desde o fim da União Soviética (URSS) por Guenadi Ziuganov. O diretor da Sovkhoz Lenin, uma fazenda de frutas que tem faturamento de milhões de dólares, é o adversário mais popular de Putin, mas a uma grande distância, com quase 7% das intenções de voto.

Apesar de criticar algumas políticas do governo e elogiar Stalin, nunca faz ataques pessoais a Putin, a quem apoiou no passado. O interesse provocado por seu nome rendeu uma série de artigos hostis na imprensa pró-Kremlin. Ele denuncia frequentemente as "constantes pressões" das autoridades.

Vladimir Jirinovski

Vladimir Jirinovski, de 71 anos, é o candidato tradicional do partido de extrema direita LDPR. Antiamericano, antiliberal e anticomunista, muitos analistas o consideram um falso opositor ao Kremlin. Já foi descrito nos círculos políticos russos como um "palhaço". Apesar de ter sido marginalizado nos últimos anos, Jirinovski não perdeu a energia oratória. As pesquisas mostram que ele tem 5,7% das intenções de voto.

Ksenia Sobchak

Jornalista de televisão ligada à oposição liberal e ex-estrela de reality show, Ksenia Sobchak, de 36 anos, entrou na disputa com o lema "contra todos". Apesar de ter pouco mais de 1% das intenções de voto, sua candidatura deu vida a uma disputa presidencial decidida de antemão. Ela fez críticas de veemência incomum ao Kremlin nos meios de comunicação federais.

Grigori Yavlinski

Um dos poucos políticos de tendência liberal com algum peso na Rússia, Grigori Yavlinski, de 65 anos, fundou o partido Yanloko pouco depois da queda da URSS. Embora continue sendo um crítico de Putin, sua candidatura presidencial - a terceira - é vista com ceticismo. Ele aparece com pouco mais de 1% das intenções de voto.

Boris Titov

Representante dos empresários russos, Boris Titov, de 57 anos, entrou na disputa presidencial sem ilusões sobre o vencedor, mas com a ideia de "convencer Putin a mudar a economia". Com 0,4% das intenções de voto, defende mais medidas de estímulo econômico e uma normalização das relações com o Ocidente.

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Serguei Baburin

Baburin, de 59 anos, presidente do partido nacionalista União do Povo Russo é praticamente desconhecido entre o grande público e recebe pouca atenção da imprensa. O ex-vice-presidente da Duma, a câmara baixa do Parlamento russo, afirma que luta há mais de 20 anos contra as orientações "neoliberais" das autoridades.

Maxim Suraikin

Poucas pessoas haviam ouvido falar de Suraikin, de 39 anos, antes do anúncio de sua candidatura presidencial. O ex-membro do Partido Comunista rompeu com o grupo para fundar em 2012 o Partido dos Comunistas da Rússia. Seu peso político é considerado mínimo. / AFP

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O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 11h52

MOSCOU - Os russos vão às urnas no dia 18 de março eleger seu próximo presidente, após uma campanha sem suspense e sem sobressaltos. Confira abaixo alguns momentos da corrida eleitoral deste ano.

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Três minutos de campanha

No poder há 18 anos, Vladimir Putin evitou uma campanha direta, negando-se a participar de debates na televisão e abrindo mão de comícios. Sua equipe de campanha preparou um grande ato com a presença do presidente no dia 3 de março, no estádio de Luzhniki. Atletas olímpicos e cantores conhecidos no cenário musical local se revezaram no palco para manifestar seu apoio a Putin diante de cerca de 80 mil pessoas.

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Ele saudou seus simpatizantes reunidos sob -15ºC. Durante apenas três minutos, prometeu "vitórias brilhantes" para a Rússia e entoou o hino nacional junto a multidão. A ausência nas ruas foi compensada pela onipresença na rede pública de televisão, com a emissora cobrindo os deslocamentos do chefe de Estado.

Mísseis

O discurso anual ao Parlamento foi transformado em evento pré-eleitoral. Grande parte de sua intervenção se concentrou nas novas armas russas, em particular, os mísseis "invencíveis" para os escudos antimísseis dos EUA.

Putin apresentou um novo sistema de defesa antimísseis, um drone submarino de propulsão nuclear e uma arma a laser, sobre a qual não deu detalhes, alegando ser "muito cedo". Ele também advertiu os países ocidentais de que terão de "ouvir" a Rússia.

Confusão

Na ausência de Putin, os russos se desinteressaram pelos debates, com exceção de uma discussão acalorada entre dois candidatos. O ultranacionalista Vladimir Zhirinovski, de 71 anos, chamou de "cretina" a candidata liberal Xenia Sobchak, de 36 anos, que lhe jogou um copo de água no rosto.

O candidato do partido de extrema direita LDPR se enfureceu e lançou uma sequência de insultos contra a ex-apresentadora de um reality show, chegando a chamá-la de "prostituta". Alguns dias depois, Xenia contou que um homem a empurrou, em Moscou, além de lhe ter jogado água, enquanto gritava "É por Zhirinovski!".

Comunistas

O partido comunista surpreendeu, designando como candidato o empresário milionário Pavel Grudinin, em vez de Guenadi Ziuganov. O interesse provocado por sua indicação e seu avanço nas pesquisas lhe valeram muitos artigos hostis na imprensa pró-Kremlin, que multiplicou as revelações sobre as contas bancárias no exterior do presidente da Sovkhoze Lenin, uma empresa produtora de frutas e laticínios na periferia de Moscou.

No início de março, a comissão eleitoral anunciou ter descoberto, no dia 31 de dezembro de 2017, que Grudinin tinha 13 contas bancárias na Suíça com quase € 1 milhão, além de ouro. O Partido Comunista e seu candidato denunciaram, em diferentes oportunidades, uma "campanha de difamação" lançada pelo Kremlin. Segundo alguns analistas, isso se deve ao temor do governo de que Grudinin - que teria pelo menos 7% dos votos nas pesquisas - possa obter um bom resultado na eleição presidencial.

Boicote

O principal opositor do Kremlin, Alexei Navalni, foi inabilitado em razão de uma condenação judicial. Ele pede um boicote às eleições e a presença de observadores internacionais para detectar possíveis fraudes nos colégios eleitorais. A estratégia explica o interesse do Kremlin em uma alta participação nas urnas.

A equipe de Navalni, que em 2017 mobilizou milhares de jovens nas ruas, sofreu revistas em suas sedes e alguns de seus membros passaram parte da campanha eleitoral presos. / AFP

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