REUTERS/Leonardo Fernandez Viloria
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Eleições na Venezuela podem reconstruir rota eleitoral no país?; leia análise

Este processo de votação pode ser o início da reconstrução da rota eleitoral no país, que se desviou nos últimos dois anos, o que foi mas mais visível no ano passado. Não obstante, esse movimento ainda é muito fraco

Luz Mely Reyes* / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 05h00

A Venezuela chega às eleições regionais de 21 de novembro com mudanças e novidades em relação a pleitos anteriores. Nestas eleições, 23 governadores e 335 prefeitos serão eleitos, assim como milhares de legisladores regionais e vereadores; serão as primeiras eleições em mais de 15 anos com observação internacional.

Esse tipo de eleição não merecia observadores internacionais, mas sua presença foi uma das petições que os partidos majoritários de oposição fizeram para participar, o que não faziam desde 2017. Por isso, foram acionadas uma missão de observação da União Europeia, uma equipe do Centro Carter e um painel de especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU). 

Isso ocorre enquanto a crise de escassez de produtos essenciais que afetou o país nos últimos anos parece reduzir-se, devido ao dólar ter se afiançado como moeda de uso cotidiano; ao anúncio de que o Tribunal Penal Internacional investigará autoridades venezuelanas sobre supostos crimes contra a humanidade; e ao aumento da presença de agências de ajuda humanitária da ONU no país.   

Este processo de votação pode ser o início da reconstrução da rota eleitoral no país, que se desviou nos últimos dois anos, o que foi mas mais visível no ano passado. Não obstante, esse movimento ainda é muito fraco. 

É possível notar mudança, por exemplo, na ausência do desabastecimento crônico. Em outubro, enquanto preparava minha viagem a Caracas, o que fazia desde janeiro, perguntei a várias pessoas que produtos elas precisavam. Desde 2016, a cada retorno ao meu país, pediam-me para levar remédios, absorventes íntimos, sabonetes, pastas de dente ou alimentos. Desta vez, todos me disseram: “Temos de tudo aqui, mas você deve trazer dinheiro”.

O governo de Nicolás Maduro está afundado em dívidas, com uma hiperinflação que dura quase quatro anos e margem de manobra reduzida pelas sanções internacionais, o que levou o país a uma dolarização de facto que, segundo o próprio Maduro, tem sido uma  “válvula de escape”.

Hoje, pela mão de um governo que se diz socialista, a única regra do mercado parece ser que não há nenhuma regra, o que aprofundou o abismo entre os que têm acesso a moeda estrangeira — seja por remessas do exterior ou trabalho — e quem não tem: o salário de um professor universitário não passa de US$ 10 ao mês, e uma corrida de táxi pode custar esse mesmo valor. 

Nas ruas, o uso do dólar é corriqueiro e aberto, incluindo nos setores populares: em qualquer transação pagamentos em dinheiro vivo são aceitos, e em muitas euros também são aceitos. Uma mesma operação comercial pode ser combinada com pagamentos em  bolívares e diferentes formas, como transferências por meio de aplicativos como Zelle. Em 16 de novembro, a taxa de câmbio oficial estava em 4,5. O câmbio paralelo pode chegar a 5 bolívares por dólar.  

Também se rompeu o tabu do preço da gasolina: que passou de ser quase grátis — com menos de US$ 0,25 era possível encher um tanque de 40 litros — a um esquema misto. Quem tiver acesso a moedas estrangeiras pode encher um tanque por US$ 20; quem não tem, é obrigado a passar mais de 24 horas numa fila em que pode fazê-lo por US$ 1, devido ao subsídio do governo, ainda que seja possível que a pessoa volte para casa com o tanque quase vazio, e o máximo que se pode obter por esse sistema são 120 litros mensais. 

Não obstante, devo dizer que, desde que cheguei a Caracas tenho sentido a cidade como um snow globe: esses domos de plástico recheados de líquido que encerram paisagens em miniatura e quando são agitados acreditamos que algo se move, mas logo tudo volta a ser como antes. A capital da Venezuela é uma enorme bolha e, pelo que vi e pelo que me disseram meus compatriotas, não tem muito a ver com o restante do país. 

Dentro das mudanças em temas políticos está a escolha de um novo Conselho Nacional Eleitoral, o que começou a romper o círculo vicioso da negativa da oposição em participar de eleições, afirmando que não havia condições para isso. Nestas eleições, a maioria da oposição se incorporou ao processo. 

Ainda assim, as pesquisas continuam mostrando o desencanto da população frente às organizações e lideranças partidárias. A oposição chega fragmentada a este processo, com múltiplas candidaturas — o que dispersa o voto — e os grupos tradicionais sofreram um desmantelamento por parte de outros surgidos em suas próprias fileiras. 

Os líderes dessas correntes são prefeitos que, já em 2020, quando os partidos majoritários anunciavam um boicote eleitoral, tinham decidido participar destas eleições. Ainda que sejam mais visíveis os da área metropolitana de Caracas, eles também estão presentes em outras regiões do país. Outra fatia de partidos promoveu a tese da participação, mas nas eleições parlamentares de dezembro de 2020 ela sofreu descalabros.

Onde não há alterações é que o chavismo governante se prepara para vencer. Há candidaturas únicas e uma base de apoio ampla que se caracteriza por comparecer às urnas e conta com recursos para mobilizar eleitores. O chavismo também costuma usar táticas para coagir votos e espantar eleitores de oposição. Dos 23 governos em disputa, calcula-se que a oposição ganhará no mínimo três e no máximo cinco. 

Luis Vicente León, presidente da firma Datanálisis, assinala: “Os cálculos de abstenção colocam a participação estimada entre 40% e 50% dos eleitores”. Ele destaca que “a força opositora é maior numa parte importante do corredor eleitoral principal: Miranda, Zulia, Lara, Mérida, Nova Esparta”.

A analista Mireya Rodríguez assinalou que um dos cenários possíveis nestas eleições é que a população, “farta de tanta indignidade, perceba uma série de oportunidades,  diferentes de eventos eleitorais anteriores, que poderiam abrir possibilidade para uma mudança". Isso poderia implicar num voto massivo contra os candidatos maduristas.

No aspecto internacional também há mudanças, pois a presença e a ação das agências da ONU com fins humanitários aumentou: até 5 de novembro, 160 organizações internacionais e nacionais atuavam no país. Nos primeiros seis meses deste ano, a ONU distribuiu na Venezuela US$ 279,4 milhões em ajuda, mais do que durante todo o ano de 2020. É possível que esta ajuda esteja mitigando os efeitos da emergência humanitária que o país vive. 

Contudo, os problemas de fundo na Venezuela ainda persistem. Um dos temas desta campanha é a falta de acesso a água potável, de que nem Caracas de salva. Apesar de já ser possível comprar produtos básicos, ainda faltam serviços públicos essenciais, como saúde, transporte e internet.

Há, de todas as formas, uma dignidade cotidiana. Percebi isso nas pessoas com quem conversei e nas organizações que insistem em desviar do caminho ao desamparo ao qual a liderança política levou o país. Vejo estas eleições como um exercício de resistência democrática para começar a reconstruir a rota eleitoral. Um caminho tortuoso, mas não impossível. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

* Luz Mely Reyes é jornalista e analista política. Em 2015, confundou o meio de imprensa independente ‘Efecto Cocuyo’, do qual é diretora.

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