Jorge Bernal / AFP
Jorge Bernal / AFP

Eleições na Bolívia: Cresce tensão no país após vantagem questionada de Evo

Oposição fala em fraude e protesta nas ruas do país; Carlos Mesa convoca ‘mobilização cidadã’ até que seja divulgado o resultado definitivo

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 08h40

LA PAZ - Os resultados parciais na Bolívia estão a ponto de confirmar nesta terça-feira, 22, a vitória do presidente Evo Morales em primeiro turno nas eleições, mas a oposição denuncia fraude e protesta nas ruas do país, enquanto os observadores internacionais questionam a repentina vantagem do chefe de Estado. A Organização dos Estados Americanos convocou uma reunião sobre a crise. 

Após uma segunda-feira violenta, quando manifestantes atearam fogo em urnas de votação e sedes eleitorais, a oposição, sindicatos, organizações empresariais e cidadãos organizavam novos protestos para esta terça.

As mobilizações nas ruas começaram quando as autoridades eleitorais, sem explicação alguma, retomaram na noite de segunda a recontagem de votos que foi interrompida no dia anterior.

A recontagem rápida (TREP - Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares) deu a Evo 46,87% dos votos e a seu rival, Carlos Mesa, 36,73%, com cerca de 95,30% das urnas apuradas.

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No poder desde 2006, Evo está a ponto de evitar um segundo turno e ser reeleito.

Segundo a Constituição boliviana, o vencedor em primeiro turno precisa obter 50% mais um dos votos válidos ou ao menos 40% do total com vantagem de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado.

Em Sucre (sudeste) e Potosí (sudoeste), os manifestantes atearam fogo em tribunais eleitorais. Em La Paz foram registrados choques com a polícia, enquanto o gabinete do partido governante Movimiento Al Socialismo (MAS) sofria ataques em Oruro (sul).

Os incidentes também chegaram às cidades de Tarija (sul), Cochabamba (centro) e Cobija (norte), onde a polícia agiu para dispersar os manifestantes. Em Riberalta, no Departamento de Beni (noroeste), uma estátua do ex-líder venezuelano Hugo Chávez, aliado de Evo e morto em 2013, foi destruída.

Novos protestos

Para esta terça, a mobilização deve ser maior e mais organizada. O sindicato de médicos, que manteve greve de mais de um mês por reivindicações trabalhistas, anunciou ações em todo o país.

Fernando Camacho, presidente do poderoso Comité Pro-Santa Cruz, um coletivo que reúne de empresários a associações de bairros, pediu um “bloqueio do país”.

A influente plataforma civil Conade, que agrupa comitês cívicos bolivianos, anunciou também uma “resistência civil” ante a possível vitória de Evo. O líder Waldo Albarracín, que recebeu um golpe na cabeça durante uma briga de rua com oficiais, denunciou uma “fraude monumental” e convocou “o povo a ficar em alerta”.

Ante o clima de violência, a Igreja Católica pediu “paz e serenidade” e pressionou o tribunal eleitoral do país “a cumprir com seu dever de árbitro imparcial”.

Vantagem questionada

A vantagem de Evo foi questionada pelos observadores da Organização de Estados Americanos (OEA), que chegaram à Bolívia para monitorar as eleições presidenciais e legislativas realizadas no domingo.

“A missão da OEA manifesta sua profunda preocupação e surpresa pela mudança drástica e difícil de justificar com relação à tendência dos resultados preliminares conhecidos após o fechamento das urnas” no domingo, e que estavam orientados a um segundo turno entre Evo e Mesa, disse em um comunicado.

O TREP paralisou a divulgação da apuração dos votos no domingo depois de um relatório inicial e único de contagem rápida de 84% das atas que dava 45,28% dos votos a Evo e 38,16% a Mesa, dados que indicavam um segundo turno no dia 15 de dezembro.

Mesa pede mobilização 

Carlos Mesa, que foi presidente da Bolívia de 2003 a 2005, denunciou “fraude” e anunciou que não iria reconhecer os resultados provisórios.

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“Não reconheceremos esses resultados que são parte de uma fraude consumada de maneira vergonhosa e que está colocando a sociedade boliviana em uma situação de tensão desnecessária”, afirmou Mesa na noite de segunda-feira.

Mesa, historiador e jornalista de 68 anos, convocou uma “mobilização cidadã” até que seja divulgado o resultado definitivo.

O ministro do Governo (Interior), Carlos Romero, responsabilizou Mesa pelos protestos. “Não se deve convocar à violência e ao confronto, isso não é uma atitude democrática”, ressaltou.

Os Estados Unidos expressaram sua preocupação e pediram o retorno da “credibilidade e transparência” ao processo eleitoral na Bolívia, pedido ao qual se juntaram também os governos da Argentina, do Brasil e da Colômbia. / AFP

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