GABRIEL BORIC CAMPAIGN PRESS OFFICE / AFP
GABRIEL BORIC CAMPAIGN PRESS OFFICE / AFP

Eleições no Chile: Boric se reúne com Kast e Piñera, em transição pacífica de poder

Reuniões -protocolares, mas cheias de simbologia - marcam uma das eleições mais polarizadas do país desde o fim da ditadura Pinochet (1973-1990)

Thais Ferraz / Enviada especial a Santiago, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 18h12
Atualizado 20 de dezembro de 2021 | 18h26

SANTIAGO - O presidente eleito chileno, Gabriel Boric, deu início a uma transição pacífica de poder após a vitória nas eleições do domingo, 19, com reuniões com o candidato derrotado, José Antonio Kast, ainda na noite da vitória, e o presidente Sebastián Piñera, na tarde desta segunda-feira, 20. As reuniões -protocolares, mas cheias de simbologia - marcam uma das eleições mais polarizadas do país desde o fim da ditadura Pinochet (1973-1990). 

Kast, que disputou a campanha com uma agenda à direita, telefonou para Boric para aceitar a derrota e depois se encontrou com o rival. O deputado esquerdista, por sua vez, retribuiu a gentileza dizendo que, em seu governo, ouviria os eleitores de todos os rivais, e agradeceu a todos, até mesmo Kast – um defensor do ex-ditador Augusto Pinochet. 

No encontro com Piñera, Boric foi recepcionado com um tour pelo Palacio de La Moneda, a sede do Executivo chileno, e recebeu do atual presidente um broche com a bandeira do Chile. 

À transição, soma-se a montagem do gabinete, no qual Boric terá de conciliar a coalizão de esquerda que viabilizou sua candidatura com os acenos ao centro que o ajudaram a vencer Kast com uma vantagem superior a 11 pontos porcentuais.

Transição e montagem do gabinete

Embora Boric ainda não tenha divulgado nenhum nome oficialmente, as apostas se concentram em três figuras principais de sua coalizão: Giorgio Jackson, coordenador político de sua campanha, Izkia Siches, chefe de campanha, e a deputada Camila Vallejo, do Partido Comunista. Um nome moderado é esperado para o Ministério da Economia, dizem especialistas. Vallejo e Jackson ganharam notoriedade pública no Chile na década passada ao liderar protestos estudantis ao lado de Boric contra as altas mensalidades do ensino superior no país.

Ainda no sábado, Boric prometeu que seu governo seria diverso. “Ele será liderado por equipes de diferentes gerações, origens e experiências, sempre convocando as pessoas mais qualificadas, independentemente da idade ou partido”, disse em carta ao jornal El Mercurio. “Minha equipe convocou profissionais independentes destacados como Eduardo Engel, Andrea Repetto, Roberto Zahler, Maisa Rojas, Carlos Gajardo, Izkia Siches, Marcelo Lagos (....) É assim que queremos governar, ampliando equipes e visões”, complementou. 

Giorgio Jackson, coordenador político da campanha de Boric, deu uma única dica sobre o novo gabinete. “Tenho certeza de que a paridade vai estar presente porque foi um compromisso de Gabriel”, disse. Ele também indicou a possibilidade de convocação de pessoas “independentes, que vêm da sociedade civil”, em entrevista ao Tolerância Zero.

Há consenso de que Jackson, fundador do partido de esquerda Revolução Democrática e atualmente deputado, deve desempenhar um papel-chave no novo governo. A dúvida é qual tipo de cargo ocupará. Embora seja cotado para Secretário Geral da Presidência ou Ministro do Interior, Jackson já indicou que se sentiria mais confortável em atuar no “segundo piso”, como é conhecido o grupo de assessores mais próximos do presidente.

Izkia Siches, chefe da campanha de Boric, é um nome bastante provável para a pasta da Saúde. Médica, Siches renunciou ao cargo de presidente da Faculdade de Medicina (Colmed) para ingressar na equipe do esquerdista. Em novembro, ela afirmou estar disponível para o cargo, declarando que se colocaria à disposição “da função que o futuro presidente do Chile definir para mim”. Há quem aposte, porém, que ela pode se tornar porta-voz do novo presidente, por seu desempenho comunicacional na campanha, considerado bastante positivo.

A deputada Camila Vallejo, do Partido Comunista, não se candidatou à reeleição, o que também lhe permitiria assumir um cargo no gabinete de Boric. Questionado sobre qual seria o papel de Vallejo em um futuro governo, Boric afirmou que “o resolveremos depois do dia 19.”

Conciliar visões distintas

Um dos desafios de Boric será equilibrar os impulsos esquerdistas da aliança que o levou a vitória e sua guinada ao centro, bastante perceptível nas últimas semanas, acredita a analista política Carmen Le Foulon, do Centro de Estudos Públicos. 

Para ela, um cargo central nesse sentido será o de Ministro da Fazenda. “Os assessores econômicos que trabalharam na campanha de Boric são de posições bastante sóbrias, até próximas da antiga administração. Espera-se que ele incorpore algum deles”, explica. “Após o segundo turno, Boric tem a necessidade de apresentar um gabinete com posições muito mais moderadas.”

Le Foun acredita que Boric dará atenção especial aos independentes e moderados na hora de construir sua composição. “Havia todo um temor de qual papel terá o Partido Comunista e quais figuras desse partido irão entregar esse comando”, explica. “Creio que eles devem ocupar alguns postos, com Vallejo entre eles, mas não tantas posições.”

Ao mesmo tempo, afirma, é difícil haver alguma grande surpresa no grupo. “Acho difícil que ele convoque alguém próximo a Kast, por exemplo. Devemos esperar figuras moderadas, mas não de direita, porque ele não pode se desentender totalmente dos aliados de sua coalizão.” 

 

Desafios do novo presidente

Boric não tem um caminho fácil pela frente. Além de herdar um país que luta contra a inflação e o combate à pandemia, ele ainda será um presidente de transição entre duas constituições, a de 1980, da ditadura de Augusto Pinochet, e a que está em redação atualmente.

Seu maior desafio, ao menos a curto e médio prazo, no entanto, deve ser a governabilidade, afirma a cientista política Federica Sanchez, da Universidade Alberto Hurtado. O novo presidente não terá apoio suficiente para garantir maioria simples na Câmara dos Deputados, já que a aliança Aprovo Dignidade, pela qual se elegeu, alcançou apenas 37 cadeiras, bem abaixo dos 55 deputados necessários para isso.

“Claramente, a maioria está à direita, entre o conglomerado do pacto Chile Podemos Más, da direita clássica, e da Frente Social Cristã, que apoiou (o rival de Boric no segundo turno, José Antonio) Kast”, diz. “No presidencialismo chileno, o legislativo tem muito poder, e Boric não poderá governar sem ele.”  

A própria organização do Congresso ainda não está muito clara, com a possibilidade de uma divisão entre a própria direita. “Há espaço para isso. Alguns representantes da direita já declararam que não irão performar com a Frente Social Cristã no Parlamento”, afirma. “Creio que muito provavelmente a direita clássica vai atuar alinhada à direita de Kast em alguns pontos, como nos que dizem respeito à agenda econômica, mas deve se afastar e ser muito mais flexível quando se tratar de um tema moral, por exemplo.”

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