MARTIN BERNETTI / AFP
MARTIN BERNETTI / AFP

Eleições no Chile: esquerdista Gabriel Boric é eleito presidente e terá de unificar país polarizado

Presidente mais jovem da história chilena terá de construir alianças para obter apoio no Congresso, controlar a inflação e implementar a nova Constituição

Thaís Ferraz, Enviada Especial / Santiago, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 19h30
Atualizado 19 de dezembro de 2021 | 22h59

O esquerdista Gabriel Boric venceu o direitista José Antonio Kast neste domingo, 19, tornando-se o presidente mais jovem do Chile. Com todas as urnas apuradas, Boric teve quase um milhão de votos a mais do que o seu adversário. A vitória de Boric era esperada, mas a margem de 11,7 pontos porcentuais sobre o rival surpreendeu.

Derrotado, Kast reconheceu a vitória de Boric, e ligou para parabenizá-lo assim que o resultado foi confirmado, espantando, por enquanto, os temores de que alegaria fraude.

Apesar da abstenção de 45% dos 15 milhões de eleitores aptos a votar, em números absolutos foi a maior participação desde a redemocratização: 8,3 milhões de chilenos votaram. No primeiro turno, em novembro, 7,1 milhões foram às urnas. Em porcentagem, a participação de 55% dos eleitores foi a maior desde 2009.

O novo governo assumirá o comando do Chile em março e encontrará pela frente uma série de desafios: a unificação do país, após uma campanha marcada pela polarização, a inflação e a implementação das regras da nova Constituição chilena, que começou a ser elaborada este ano e pode entrar em vigor em 2022.

Em seu primeiro discurso, Boric prometeu ser "o presidente de todos os chilenos e chilenas", fez aceno a adversários e chegou a agradecer José Antonio Kast. O esquerdista iniciou seu discurso, que durou cerca de 25 minutos, saudando as diferentes regiões do Chile e agradecendo seus adversários. “Quero agradecer a Yasna Provoste, Sebastian Sichel, Marco-Enríquez, Franco Parisi, Franco Cortés e Antonio Kast. Sim, também a Antonio Kast”, disse, em meio à reação do público. “Espero que tenhamos a maturidade de contar com suas ideias e propostas para começar meu governo. Sei que temos muitas diferenças, em particular com José Antonio Kast, mas saberemos construir pontes para que nossos compatriotas possam viver melhor.”

Boric fez várias referências às mulheres, agradecendo aquelas que “defenderam seus direitos em todos os territórios”. “Garantimos que as mulheres serão protagonistas dessa história”, disse. Ele também fez acenos às minorias sexuais e aos povos originários do Chile. Boric defendeu, ainda, a liberdade de imprensa, que qualificou como um pilar da democracia, e fez elogios aos estallidos sociales, como ficaram conhecidos os protestos em massa que tomaram o Chile entre o fim de 2019 e o começo de 2020. “Há aqueles que fingem que nada aconteceu, mas os estallidos continuam vigentes e presentes. Sabemos que a demanda por justiça e dignidade continua no coração das pessoas”, afirmou.

Boric, um deputado de 35 anos – a idade mínima para se candidatar – , vinculado aos protestos em massa de 2019, defendeu em sua campanha um Estado de bem-estar com atenção especial às pautas feminista, ambientalista e regionalista. Kast, um advogado católico de 55 anos, levantava as bandeiras da redução do Estado e dos impostos, do combate à migração irregular e dos valores tradicionais.

Moderação

De olho em conquistar os eleitores de centro, os dois candidatos vinham buscando moderação desde o fim do primeiro turno. “Boric adotou parte do discurso de Kast sobre ‘ordem social’ e teve que mudar o conceito de ‘refundação’, com o qual trabalhava, para o de ‘reforma’, com uma orientação mais social-democrata”, afirma o sociólogo do Centro de Estudios Publicos Aldo Mascareña. “Kast, por sua vez, foi orientado a oferecer garantias de que os direitos conquistados no Chile não recuariam, mantendo sua ênfase na segurança.”

Essa moderação pode ajudar a conquistar a governabilidade e unir o país. Boric não terá apoio suficiente para garantir maioria simples na Câmara dos Deputados. A aliança Aprovo Dignidade, pela qual se elegeu, alcançou apenas 37 cadeiras, bem abaixo dos 55 deputados necessários para garantir maioria simples. O bloco Fuerza Social Cristiana, que apoiou a candidatura de Kast, conquistou apenas 15 cadeiras, e só poderia governar se construísse alianças com o Chile Podemos Más, dono de 53 cadeiras. 

Além disso, Boric terá o desafio de conquistar o eleitorado chileno que não manifestou apoio massivo nem a sua candidatura nem à de Kast. 

Economia

A inflação será outro grande problema. O país está sob pressão há meses e o orçamento das famílias começa a ser atingido. O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Chile subiu 0,5% em novembro, acumulando 6,3% neste ano e 6,7% em 12 meses, seu maior valor desde dezembro de 2008. Nesta semana, o Banco Central acelerou a retirada de estímulo monetário e elevou a taxa básica de juros em 125 pontos, maior índice desde 2014, para tentar conter a inflação. A previsão, informou o Banco Central, é de que a economia cresça entre 1,5 e 2,5% em 2022 e 0,0 e 1,0% em 2023. 

A implementação da nova Constituição também pode ser um dilema. Com possibilidade de ser implementada ainda em 2022, ela irá condicionar o mandato do próximo presidente, que começara a governar com as normas atuais mas será responsável por implementar as novas normas e fazer uma verdadeira transição no país. Seu texto pode inclusive tornar o governo provisório ou modificar sua forma, passando do atual regime presidencial para um semipresidencial, por exemplo. 

Além disso, a Convenção Constitucional que redige a nova Carta Magna é de maioria progressista. Embora Boric esteja mais alinhado aos valores da Convenção que Kast, ele também deve ter dificuldades para conciliar as coisas, diz Kenneth Bunker, analista político e fundador do site TresQuintos. “A Convenção claramente está mais à esquerda que Kast, mas também está mais à esquerda que Boric”, afirma. “Ela é muito semelhante ao programa de Boric no primeiro turno, mas seu novo programa, apresentado para o segundo turno e trabalhado para mostrar moderação, o posicionou mais ao centro do que a Convenção.”

Líderes internacionais 

Após a divulgação dos resultados, vários políticos da América Latina felicitaram o novo presidente chileno. O presidente argentino, Alberto Fernández, de esquerda, prometeu "assumir o compromisso de fortalecer os laços de irmandade que unem os países" e "trabalhar unidos para colocar fim à desigualdade na América Latina".

Guillermo Lasso, presidente equatoriano, de direita, desejou "sucessos na gestão de Boric para o bem estar de seu povo". O discurso do presidente do Uruguai, Luis Lacalle Pou, também de direita, foi parecido: "Desejo sucesso para o bem do povo chileno".

O resultado também foi celebrado por políticos da esquerda na região. Da Bolívia, o ex-presidente Evo Morales, "saudou a vocação democrática do povo irmão chileno e felicitou Boric pela vitória".

No Twitter, o ex-presidente brasileiro Lula "parabenizou o companheiro Gabriel Boric por sua eleição". "Fico feliz por mais uma vitória de um candidato democrata e progressista na nossa América Latina, para a construção de um futuro melhor para todos".

Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também parabenizou Boric, em uma mensagem do Twitter. "Cumprimento o povo chileno pela conclusão da eleição presidencial. Dignas de registro as manifestações de civilidade e espírito democrático do candidato derrotado e do atual presidente, saudando o vencedor. E formulo votos de boa sorte ao presidente eleito, Gabriel Boric."

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