Amr Abdallah Dalsh/Reuters
Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Eleições no Egito deveriam ter sido adiadas, dizem especialistas

Para acadêmicos, falta de projetos e campanhas políticas dos partidos deveria motivar adiamento

Christina Stephano de Queiroz, do estadão.com.br,

28 de novembro de 2011 | 18h42

SÃO PAULO - A falta de projetos e campanhas políticas por parte dos partidos deveria motivar o governo egípcio a adiar as eleições. Essa é a opinião de especialistas ouvidos pelo estadão.com.br. Para eles, o correto seria que os governantes só realizassem a votação após criarem uma nova constituição. "Sem projetos políticos, como a população (pode escolher) seus candidatos?", questiona Mohamed Habib, vice-presidente do Instituto da Cultura Árabe (ICÁrabe, de São Paulo).

 

Veja também:

linkEleição no Egito tem longas filas; 1º dia acaba sem incidentes

video TV ESTADÃO: Democracia só terá lugar no Egito quando acabar domínio militar, diz observadora
especialESPECIAL: A lenta agonia de Hosni Mubarak

tabela HOTSITE: Eleições no Egito

 

De acordo com Habib, os políticos desenvolvimentistas, aqueles que buscam uma soberania nacional e os religiosos (incluindo muçulmanos e católicos) devem conseguir representação no congresso. "No entanto, eu tenho dúvidas a respeito de até que ponto esse congresso será capaz de elaborar uma nova constituição e tirar o poder total da junta militar, que ainda está acima do congresso e do legislativo", afirma Habib.

 

Heni Ozi Cukier, professor de Relações Internacionais da ESPM, lembra que, em linhas gerais, há três grandes grupos políticos no Egito: os liberais, os militares e os islâmicos. "Neste último, se encaixa a Irmandade Muçulmana, que deve sair vencedora no pleito", avalia. E, segundo ele, nem os militares nem os islâmicos serão capazes de oferecer as reformas políticas e econômicas necessárias para o país progredir. "Esses grupos estão mais preocupados em fazer a manutenção do poder do que oferecer um verdadeiro projeto de país", diz o professor.

 

Cukier opina ainda que o Egito não será uma democracia enquanto os militares controlarem os civis e tampouco se a Irmandade Muçulmana assumir o poder sem dar direitos iguais às mulheres. "Não sei até que ponto os partidos estão dispostos a deixar os seus valores de lado para adotar um sistema democrático", avalia. O especialista afirma que os militares já controlam de 20% a 40% da economia egípcia e que os liberais são os únicos dispostos a construir um verdadeiro sistema democrático.

 

Novos partidos

 

Já Habib, do Icarabe, explica que o Egito conta com 49 partidos recém-criados e com mais de 100 grupos de pensamento político não partidários, incluindo os religiosos, os desenvolvimentistas, os militares, entre outros. "E todas as categorias de pensamento devem estar presentes nas discussões para formação de um novo governo", avalia.

 

Ele critica o fato de que, hoje, há jovens presos que estão sendo processados por tribunais militares, enquanto a comitiva de Mubarak é processada por tribunais civis. "Infelizmente, a lógica da ditadura ainda continua no país", lamenta, lembrando que os últimos levantes no Cairo já causaram mais de 50 mortos e 1,4 mil feridos.

 

Para Cukier, o Egito está economicamente pior do que na época de Mubarak. "A criminalidade aumentou, há menos turistas e mais conflitos sectários. Empresas estrangeiras não estão dispostas a investir no país. A grande pergunta agora é: 'o Egito se tornará uma Turquia ou um Paquistão?'", questiona.

 

Turquia e Irã

 

O professor da ESPM acredita que a Turquia pode funcionar como um modelo a ser seguido pelo Egito e que um alinhamento de estratégias seria benéfico para os dois lados. "A recente cisão entre as relações da Turquia com Israel é vista de forma positiva pela população do Egito. E uma política populista e inflamatória pode manipular o povo para ações de confronto. Se a Irmandade Muçulmana achar que usar essa retórica servirá aos seus propósitos, não vai hesitar em fazê-lo", diz.

 

Habib lembra, por outro lado, que a grande motivação para o início dos protestos em fevereiro não foi a questão palestina, mas problemas internos como a falta de empregos e a corrupção. No entanto, na opinião dele, o assunto passou a fazer parte da agenda de discussões dos manifestantes na medida em que os meses passaram. "E para Israel é melhor fazer acordos com países governados por regimes democráticos do que com ditaduras, pois alianças com ditadores não envolvem toda a sociedade", argumenta.

 

Segundo Habib, o Irã é o principal interessado na estabilidade do Egito e de outros países do Oriente Médio, "já que só assim poderá assinar acordos econômicos", tendo em vista o isolamento mundial que terá de enfrentar a partir de agora. "Além de relações econômicas, o Irã também quer estabelecer relações políticas com os países pois antes, com os ditadores, isso era impossível na medida em que todos eram aliados dos Estados Unidos", conclui.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.