RUSSELL CHEYNE/reuters
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Eleições serão teste sobre apoio à independência da Escócia

Pesquisas revelam que mais da metade dos escoceses acredita que o Partido Nacionalista Escocês 'teria direito' de convocar referendo independentista do Reino Unido se conseguir bons resultados nas eleições britânicas

O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2017 | 05h00

EDIMBURGO - As eleições gerais britânicas serão interpretadas na Escócia como uma luta entre uma nova tentativa de independência da região e o voto nos conservadores e trabalhistas dispostos a negociar o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia).

No referendo de 23 de junho de 2016, 52% dos britânicos se mostraram a favor de que o Reino Unido deixasse a União Europeia e 48% votaram pela permanência. Na Escócia, 62% preferiram a continuidade no bloco, e 38% a separação.

Por esse contraste, a ministra principal da Escócia, Nicola Sturgeon, anunciou na apresentação do programa eleitoral do Partido Nacionalista Escocês (SNP) que organizará um segundo referendo de independência "ao final do processo do Brexit", em 2019. Pesquisas recentes revelam que mais da metade dos escoceses acredita que esse partido "teria direito" de convocar um segundo referendo independentista do Reino Unido se conseguir bons resultados nas eleições britânicas.

A Escócia já realizou um referendo de independência em 18 de setembro de 2014. Na ocasião, 55,3% do eleitorado votou por continuar no Reino Unido, contra 44,7% que respaldou a separação.

A opção nacionalista larga, em princípio, com leve vantagem (42%), mas, nas eleições locais de 4 de maio, a líder conservadora Ruth Davidson duplicou seus votos com relação ao pleito anterior (478.073, contra 206.599 que obteve em 2012), conseguindo 25% dos votos. Nestas eleições municipais - SNP (32%), conservadores (25%) e trabalhistas (20%) -, pela primeira vez o partido liderado por Jeremy Corbyn foi a terceira maior força política, ao perder quase 100 mil votos (380.957, pelos 488.703 de 2012) em cinco anos.

De acordo com Nicola McEwen, professora e especialista em política escocesa da Universidade de Edimburgo, esse dado deve ser levado em conta.

"Desde o final dos anos 50, o Partido Trabalhista dominou a política escocesa e nestas eleições municipais perdeu seu reduto, Glasgow", afirmou à agência EFE.

Já Ailsa Henderson, professora de política e relações internacionais da Universidade de Edimburgo, defendeu que as pesquisas devem ser analisadas com cuidado.

"As amostras são muito pequenas. A Escócia não está toda do lado independente, por isso a margem de erro é muito maior", explicou.

O SNP pede votos para uma Escócia forte em Westminster que permita negociações tête-à-tête no Brexit e uma nova proposta independentista, como enfatizou sua líder desde o anúncio destas eleições antecipadas.

"Votar SNP é votar na possibilidade de fazer a Escócia forte nas negociações e defender sua posição no mercado único", defendeu ela, assinalando, ao mesmo tempo, que "a opção trabalhista é um cheque em branco para Theresa May e o seu atual projeto de Brexit".

Por sua vez, os unionistas - conservadores e trabalhistas - denunciaram que os nacionalistas se distanciaram dos assuntos importantes para a sociedade por sua "obsessão com a independência".

A população escocesa é totalmente consciente de que o momento é "crucial para o Reino Unido", como disse à EFE Linda Thompson, funcionária de uma instituição de caridade, que acredita que nestas eleições as opções são "defender ou não defender" os serviços públicos e os direitos humanos no contexto do Brexit.

Resignados, os escoceses participam pela quinta vez de uma votação em três anos, algo que faz com que se sintam "cansados", como disse Tennish Mcintosh, diretora de um hospital nas imediações de Holyrood.

"Sinto-me  muito insegura sobre o que vai acontecer depois do dia 8", confessou, afirmando que, se os conservadores vencerem ninguém se beneficiará.

Sentimento diferente ao do aposentado Peter McDonald. Para ele, a população está "irritada com a situação", pois "nada está mudando". "Ser honesto não vai fazer muita diferença depois das eleições nos assuntos que realmente preocupam à população", disse. / EFE

 

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